Gilberto Gil Gil fala sobre velhice e morte em lançamento de novo disco e programa de TV

Marcelo Perrone

Na sabedoria de Dona Canô, que se foi aos 105 anos, Gilberto Gil busca a expressão que sintetiza o inevitável ciclo da existência: "Quem não morre, envelhece", dizia a mãe de seu amigo Caetano Veloso. Gil, que já cantou não ter medo da morte, apenas de morrer, encarou nos últimos anos a saúde fragilizada em razão de um problema renal. Revigorou-se aliando ao tratamento médico muito trabalho e intensa celebração à vida, à família, aos amigos e à musica que o tornou gigante.

Após reforçar diferentes projetos colaborativos – entre outros, com Caetano, com Nando Reis e Gal Costa e com seus filhos – e discos temáticos o cantor e compositor baiano apresenta duas novidades. O álbum Ok Ok Ok é o primeiro com canções inéditas desde Fé na Festa (2010). O disco com 12 faixas (mais três de bônus) tem lançamento exclusivo nesta sexta-feira (10) na Apple Music. No dia 17, será disponibilizado em todas as plataformas digitais e em CD e vinil pelo selo Biscoito Fino. E, a partir de 21 de agosto, Gil passa a comandar no Canal Brasil o programa Amigos, Sons e Palavras, em que terá como convidados personalidades de diferentes áreas, de Caetano ao chef Alex Atala, dos atores Lázaro Ramos e Fernanda Torres aos médicos Roberto Kalil Filho e Dráuzio Varela. Cada programa será guiado por uma canção de Gil, entre novas e clássicos de seu repertório.

É com Caetano a primeira conversa. No episódio apresentado à imprensa na noite de quinta-feira, no Rio de Janeiro, a velhice que a pragmática Dona Canô vivia como a inevitável alternativa à morte é um dos temas abordados pelos artistas. Gil e Caetano espelham a finitude nos prazeres da paternidade e na perenidade de suas obras. Sobre o convite do Canal Brasil para comandar a atração e escolher seus convidados, Gil comentou:

— Veio ao encontro dessas solicitações recentes para eu participar disso e daquilo, que representam um certo reconhecimento da existência da gente na vida cultural brasileira. Tudo isso é uma reiteração de vitalidade minha, da minha capacidade de ainda fazer coisas com gosto e disposição. Se considerarmos que passei quase dois anos tendo de cuidar da saúde, com hospitalizações frequentes, é um respiro bom.

Sobre a lembrança de Dona Canô:

— É uma frase muito simples e muito sábia, que denota um pouco essa necessidade que temos de estabelecer um diálogo pleno entre a finitude e a plenitude do viver, que, em geral, está muito associado à juventude, ao momento em que você não pensa na morte e nas dificuldades que a velhice pode trazer. Foi um tema interessante da nossa conversa, como é que se vive antes de morrer?

O evento marcou também o lançamento do disco, que teve como primeira faixa divulgada a canção-título, Ok Ok Ok, na qual Gil comenta a "pressão" pelo posicionamento do artista sob três perspectivas: o engajamento histórico, o que define como nova fenomenologia trazida pelas redes sociais e a autonomia do poeta. Diz a letra: "Já sei que querem a minha opinião/Um papo reto sobre o que eu pensei/Como interpreto a tal, a vil situação (...) Alguns sugerem que eu saia no grito/Outros que eu me quede quieto e mudo".

— Essa questão de sermos solicitados a opinar, falar de posicionamentos com os quais a gente se alinha e com os quais a gente não se alinha, isso vem de muito tempo na minha vida. Pertenço a uma geração que foi levada a fazer isso, muito por ímpeto espontâneo e muito por responsabilidades sociais que foram sendo adquiridas pelo fato de nos tornarmos figuras públicas. Isso vem do tempo da ditadura. Tanto que a música Cálice, que cantei com o Chico (Buarque) na manifestação pública qual nós aderimos, em favor da libertação do Lula, foi uma música que tínhamos feito lá atrás, falando da questão da censura.

Hoje, destaca Gil, a opinião está amplificada para o bem e para o mal:

— São as novas formas de empoderamento individual que a internet proporcionou, em que todo mundo é uma rádio, todo mundo é uma televisão, tudo mundo é um palanque, todo mundo é um microfone aberto para um discurso. Chico me disse uns anos atrás: "Eu não sabia que tinha tanta gente que me odiava". Sou muito amaldiçoado também. Quando estava hospitalizado, me mataram duas vezes (risos). "Gil morreu", escreveram, e lembro de um post em que alguém dizia: "Já foi tarde".

Sobre esses ataques serem relacionados a sua atividade política (foi ministro da Cultura do governo Lula, entre outros cargos públicos), afirma:

— Tem a ver com tudo, e com o fato de eu ser negro, é bom que se fale.

A respeito da campanha presidencial em curso, comenta:

— Fui no (show) Lula Livre em razão da defesa dos direitos democráticos, dos direitos de pluralidade, da manifestação plena, do uso da palavra, da opinião. Se o Lula fosse candidato, eu possivelmente nem votasse nele. Talvez votasse na Marina, em quem já votei duas vezes.

Em Ok Ok Ok, Gil faz várias homenagens a pessoas com que apertou laços de afeto e amizade em tempos recentes, como o violonista gaúcho Yamandu Costa, tema da canção Yamandu, na qual também toca: “Tem que ouvir o Yamandu/Com seu violão ligeiro/Parece que é pressa/Mas é só suingue à beça/E bossa e vibração no corpo inteiro.”

Também ganharam músicas um neto (Sereno), médicos que o trataram (Quatro Pedacinhos e Kalil) e um amigo que comemorou cem anos e ganhou de presente a música Jacintho: "Já sinto aqui no meu peito/Alguns sinais de defeito/Coração, pulmões e afins (...) Já sinto certa inveja de você/ Cem anos não é para qualquer um viver".

- Fiz essa música quando estava hospitalizado e ele comemorava cem anos inteiro, lépido e fagueiro – brinca Gil.



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in Zero Hora, 10.08.2018
 
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