Gilberto Gil recebe Caetano Veloso em estreia à frente do programa “Amigos, Sons e Palavras”

Gilberto Gil cantou um dia: “Não tenho medo da morte/Mas sim medo de morrer/Qual seria a diferença/Você há de perguntar/É que a morte já é depois/Que eu deixar de respirar/Morrer ainda é aqui/na vida...). Os versos da canção gravada 10 anos atrás, no disco Banda Larga Cordel, mostravam o gigante baiano encarando com pragmatismo e humor o inescapável ciclo da existência. Gil fala disso, de envelhecimento, de finitude, entre outras coisas, com seu parceiro de jornada, Caetano Veloso, na estreia do programa Amigos, Sons e Palavras, às 21h30min, no Canal Brasil.

A atração simboliza a plena retomada de Gil ao ritmo incessante de trabalho que lhe é característico, um tanto diminuído nos últimos anos em razão da saúde fragilizada por um problema renal. Aliando ao tratamento médico múltiplas parcerias sobre o palco e intensa celebração à vida, à família, aos amigos e à música, Gil está revigorado. No embalo do programa, chegou um novo álbum, lançado na sexta-feira passada, Ok Ok Ok, seu primeiro com canções inéditas desde Fé na Festa (2010).

Nos 12 episódios semanais de Amigos, Sons e Palavras, Gil conversará com personalidades de diferentes áreas. Começa lembrando Dona Canô: “Quem não morre, envelhece”, dizia a mãe de Caetano, que se foi aos 105 anos.

— É uma frase muito simples e muito sábia, que denota essa necessidade que temos de estabelecer um diálogo pleno entre a finitude e a plenitude do viver, que, em geral, está muito associada à juventude, ao momento em que você não pensa na morte e nas dificuldades que a velhice pode trazer. Foi um tema interessante da nossa conversa. Como é que se vive antes de morrer? — disse Gil no evento de lançamento do programa, dia 9 de agosto, no Rio de Janeiro, no qual ZH esteve presente.

Gil e Caetano, ambos com 76 anos, falam de desafios e limitações da velhice e também dos prazeres renovadores da paternidade e da perenidade de suas obras — não por acaso, os dois amigos, depois de percorrerem o mundo juntos celebrando 50 anos de carreira, dedicaram-se a projetos musicais com seus filhos.

Falam também do tema lançado por Gil, que abre cada programa com uma canção ao violão, entre novas e clássicos de seu repertório.

Nessa primeira, Ok, Ok, Ok, Gil comenta a pressão pelo posicionamento do artista sob três perspectivas: o engajamento histórico, o que define como nova fenomenologia trazida pelas redes sociais, e a autonomia do poeta. Diz a letra: “Já sei que querem a minha opinião/Um papo reto sobre o que eu pensei/Como interpreto a tal, a vil situação (...) Alguns sugerem que eu saia no grito/Outros que eu me quede quieto e mudo”.

— Essa questão de sermos solicitados a opinar, falar de posicionamentos com os quais a gente se alinha e com os quais não se alinha, isso vem de muito tempo na minha vida. Pertenço a uma geração que foi levada a fazer isso, muito por ímpeto espontâneo e muito por responsabilidades sociais que foram sendo adquiridas pelo fato de nos tornarmos figuras públicas. Isso vem do tempo da ditadura — destacou Gil.

Hoje, observou o artista, a opinião pública está amplificada para o bem e para o mal:

– São as novas formas de empoderamento individual que a internet proporcionou, em que todo mundo é uma rádio, todo mundo é uma televisão, tudo mundo é um palanque, todo mundo é um microfone aberto para um discurso. Chico (Buarque) me disse uns anos atrás. “Eu não sabia que tinha tanta gente que me odiava”. Sou muito amaldiçoado também. Quando estava hospitalizado, me mataram duas vezes (risos). “Gil morreu”, escreveram, e lembro de um post de alguém dizendo: “Já foi tarde”.

Programa reitera vitalidade do artista

A prosa dos baianos, nesse programa de estreia, não parece seguir um roteiro. Corre no ritmo das lembranças, das vivências acumuladas e das expectativas para o futuro.

Sobre o convite do Canal Brasil para comandar a atração e escolher seus convidados, Gil comentou:

— Veio ao encontro dessas solicitações recentes para eu participar disso e daquilo, que representam um certo reconhecimento da existência da gente na vida cultural brasileira. Tudo isso é uma reiteração de vitalidade minha, da minha capacidade de ainda fazer coisas com gosto e disposição. Se considerarmos que passei quase dois anos tendo de cuidar da saúde, com hospitalizações frequentes, é um respiro bom.

Amigos e canções

28 de agosto: Fernanda Torres, atriz (Superhomem – A Canção)

4 de setembro: Drauzio Varella, médico (Não Tenho Medo da Morte)

11 de setembro: Maria Ribeiro, atriz (Afogamento)

18 de setembro: Renata Lo Prete, jornalista (Pela Internet 2)

25 de setembro: Roberto Kalil Filho, médico (Quatro Pedacinhos e Kalil)

2 de outubro: Alex Atala, chef (Refazenda)

9 de outubro: Juca Kfouri, jornalista (Meio de Campo)

16 de outubro: Fernando Grostein, cineasta (Futurível)

23 de outubro: Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil (Tempo Rei)

30 de outubro: Lázaro Ramos, ator (Refavela)



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in Zero Hora - Porto Alegre , 20.08.2018
 
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