Com o ‘tempo rei’ a seu favor, Gilberto Gil traz novo disco ‘Ok Ok Ok’ a BH neste sábado

Lucas Buzatti

“Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice, fazer uso dele”. A frase do pensador suíço Jean-Jacques Rousseau diz muito sobre o envelhecer de alguns medalhões da música brasileira. Assim como com Caetano e Chico, Gal e Bethânia, Gilberto Gil é exemplo de que a idade não precisa ser uma viseira para o presente. Pelo contrário, o “Tempo Rei”, do qual já falava em 1984, pode ser o acúmulo de sabedoria para lidar com o novo.

Assim, em “Ok Ok Ok”, lançado em agosto deste ano, Gil mostra que, mesmo com os baques da longevidade, segue atento e forte. Aos 76 anos, o baiano apresenta o trabalho pela primeira vez em Belo Horizonte neste sábado (24), em um show com ingressos esgotados no Palácio das Artes. Produzido pelo filho, Bem Gil, o álbum traz 15 potentes faixas que discorrem com firmeza sobre a liberdade e o conturbado período político do Brasil e, com doçura, sobre a velhice, a saúde e a família.

Trata-se do 59º disco de Gil e o primeiro de inéditas desde “Fé na Festa” (2010). De fato, faz tempo que fãs querem sua opinião, ainda mais diante da “vil situação”, como canta a faixa-título. E o parecer do baiano é certeiro: “Dos tantos que me preferem calado / Poucos deles falam em meu favor / A maior parte adere ao coro irado / Dos que me ferem com ódio e terror”.

Bem como seus pares tropicalistas, Gil mostra-se um alento num país cuja ira moralista dos arcaicos é capaz de decidir rumos políticos. Na era da boçalidade dos “tiozões de WhatsApp”, Gil pega a contramão da ignorância raivosa e deixa um alerta preciso: “Alguns sugerem que eu saia no grito / Outros, que eu me quede quieto e mudo /E eis que alguém me pede: ‘Encarne o mito’/ ‘Seja nosso herói, resolva tudo’”.

Como Oswald de Andrade, Gil sabe que “o herói é uma grande bobagem” e declara seu “viva a rapaziada!”. A nobreza d’alma fica nítida não só no posicionamento político, mas no trato com as novas gerações. Gil é oasis de discernimento e escuta aberta para a juventude – o que se reflete, por exemplo, em “Pela Internet 2” ou “Yamandu”, homenagem ao grande e jovem violonista gaúcho.

Nutrido por amor e sabedoria, Gil folga em curtir a velhice à sua forma, ao invés de maldize-la. Com candura, brinca com os problemas de saúde, enfrentados desde 2016, em faixas como “Quatro Pedacinhos” e “Jacintho”. A meiguice fraterna marca as músicas sobre sua família, como “Sereno”, e “Sol de Maria”, enquanto a gratidão costura homenagens ao médico Dr. Roberto Kalil Filho (“Kalil”) e à jornalista Andréia Sadi e à atriz Maria Ribeiro (“Lia e Deia”). E ainda sobra espaço para dançar em “Na Real” e “Tartaruguê”.

Diz-se que o artista deve ser um arauto do seu tempo. E, ainda que o tempo não pare, Gil continua desempenhando tal nobre função – com sensibilidade e capacidade de atualização que deveriam ser exemplos para todos os brasileiros. Afinal, nestes tempos turvos, a fé na arte e na molecada são das poucas esperanças de que tudo vai dar pé.



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in Hoje em Dia, 22.11.2018
 
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