Um Gil íntimo e vibrante

Daniel Barbosa

Baiano quase não recorre a hits e aposta no repertório de 'Ok Ok Ok' na estreia nacional de seu show em BH

É comum, quando um artista faz o show de lançamento de um disco, pinçar apenas algumas músicas do novo trabalho e completar com sucessos de carreira, como forma de estabelecer um diálogo mais direto com seu público. Gilberto Gil optou por driblar essa regra com a apresentação que marcou a estreia nacional da turnê de divulgação do recém-lançado “Ok Ok Ok”: tocou a maior parte do repertório do álbum, praticamente não recorreu a hits de carreira e, em suma, não fez concessões. Ou, em outras palavras, confiou em seus fãs, na capacidade de absorção e entendimento deles acerca de um repertório ainda não completamente assimilado.

Gil e sua banda abriram os trabalhos emendando três canções do novo disco, a faixa-título e mais “Quatro Pedacinhos” e “Sereno”, feita para seu neto. Fez uma primeira pausa para falar do período “relativamente difícil” que enfrentou, em função de internações hospitalares no ano passado, decorrentes de uma insuficiência renal e de problemas correlatos. Esse modo íntimo, de quem fala da própria vida e das dificuldades com naturalidade, as músicas feitas para a família (além de “Sereno”, o repertório contou também com “Sol de Maria”, feita para a bisneta), a presença de três de seus filhos no palco, integrando a banda, e o tom suave, por vezes quase sussurrado de sua voz, deram um aspecto caseiro à primeira metade da apresentação, com Gil se dirigindo à plateia – seja por meio da música ou de seus relatos – como quem bate um papo com uma visita na sala da própria casa.

O show seguiu, ainda num registro de suavidade, com “Uma Coisa Bonitinha”, parceria com João Donato, também presente no novo disco, e “Lugar Comum”, sua primeira incursão na lavra pregressa, feita outrora com o mesmo parceiro. Depois de mais uma do novo disco, Gil voltou novamente ao passado com “Pai e Mãe”, do clássico “Refazenda”. Na sequência, a banda o deixou só no palco para executar, ao violão, “Prece”, também da nova lavra, “Se Eu Quiser Falar com Deus”, muito aplaudida, e a já citada “Sol de Maria”.

Ele voltou a falar dos problemas de saúde que enfrentou antes do retorno da banda ao palco, o que marcou um segundo momento do show, quando a placidez deu lugar ao vigor, com músicas como “Na Real” e também composições de outros autores, como “Pro Dia Nascer Feliz”, de Cazuza, e “Nossa Gente (Avisa Lá que Eu Vou Chegar Mais Tarde)”, de Roque Carvalho.

Na reta final da apresentação, voltou ao passado com “Marginália II” e se colocou novamente no presente com “Ouço”, a música mais rock de “Ok Ok Ok”. Deixou o palco com a banda e retornou para o bis com a plateia devidamente aquecida. E se despediu do público de Belo Horizonte com outra música nova, “Afogamento”, e encerrou de forma catártica com o reggae “Extra”. Os aplausos efusivos da plateia deram a medida de que a turnê estreou com o pé direito.



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in O Tempo - BH, 25.11.2018
 
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