A música dos pequenos choques da política

Hugo Sukman

Não estivesse ministro — e ele frisa por duas vezes a expressão “estou ministro” de Eduardo Portella, ministro da Educação e Cultura de Figueiredo — talvez Gilberto Gil não fizesse um CD e um DVD tão sutilmente políticos. Mas ele está, e “Eletracústico” (Warner), primeiro disco desde que assumiu o Ministério da Cultura, reflete essa vivência.

— Shows, historicamente, para artistas como eu, são sempre momentos de manifestação, de manifestar como no momento o mundo é visto — diz Gil, referindo-se ao show “Eletracústico” que, gravado no Canecão em setembro gerou o CD e o DVD ao vivo que lança esta semana. — Acho natural que o fato de eu estar ministro hoje influa na minha leitura artística das coisas.

“Eletracústico” é político na forma e no conteúdo. É composto por pequenos choques entre idéias e canções, a começar pelo título.

— São choques de eletrônico com acústico, de tradição com modernidade — diz. — Os pedaços do mundo se chocando uns contra os outros, isso é político. Os sobrevôos amplos sobre a cidade dos homens para ver o que acontece nela, isso é a política. Mas é uma leitura difícil. São descobertas através da audição focada, atenta. Se não, é um recital.

A “leitura focada” revela a versão de “Refavela”, reafirmação da música que, em 1977, previa caminhos da cultura brasileira — “A refavela/Revela o passo/Com que caminha a geração/Do black jovem/Do black-Rio/Da nova dança no salão” — adivinhando o funk.

— O papel do artista às vezes é o da antecipação — afirma.

Há, entre os “pequenos choques”, o cinismo do tango “Cambalache” (“Que el mundo fue y será una porqueria ya lo sé...”) e o manifesto inocente de John Lennon “Imagine” (em forma de bossa nova); há a presença de um samba-canção tradicionalíssimo de Gil como “A linha e o linho” (cantada com “sotaque” de cantor antigo e conduzido por um plangente bandolim) com um “Maracatu atômico” e eletrônico; o choque dos sambistas de classes diferentes, Chico Buarque e Wilson Batista, cantando histórias de mulheres diferentes, “A Rita” e “Mãe solteira”.

— Há “Guerra Santa” e o “Soy loco por ti America”, colocadas lado a lado, discutindo a questão da liberdade de expressão, da democracia, dos sistemas políticos — diz.

O projeto nasceu político, a partir do show de Gil na ONU, a convite de Kofi Annan. Daí o grupo pequeno — Gil (violão e voz), Sérgio Chiavazzoli (cordas dedilhadas) e Gustavo di Dalva (percussões), depois acrescido de Marcos Suzano (percussão) e Cícero Assis (acordeom e teclados) — o formato meio acústico, meio eletrônico e as canções de caráter humanístico.

— Poderia ter feito um show de sucessos. Mas como tenho sempre uma inquietude, acabo mexendo sempre no sentido do não convencional — diz.

Em termos da política mais comezinha, Gil não se preocupa com os boatos de que sairia do governo na reforma ministerial:

— Não faço idéia do que se passa na cabeça do presidente. Os indícios dele, do governo e da sociedade são de que o ministério vai bem na nossa gestão. Enquanto eu tiver o mandato concedido pelo presidente, estarei lá. Se não, não.



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in O Globo, 27.11.2004
 
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