'Estava ameaçado na minha vida', diz Gilberto Gil

“A minha inexistência no mundo aparece frequentemente como assombração”, confessa o cantor Gilberto Gil, 76 anos, ao CORREIO. Apesar do medo da morte, que ficou mais forte ao ser diagnosticado com insuficiência renal, em 2016, o artista, que sofre de hipertensão, não perde a suavidade que lhe é característica. E é isso o que mostra no disco OK OK OK, um “atestado de vida” que traz para o Teatro Castro Alves, de sexta (8) a domingo (10), com ingressos esgotados nos dois primeiros dias.

Em resposta às dores e incertezas, Gil optou por fazer poesia com a velhice e as limitações do corpo. Até uma biópsia do coração ganhou um retrato afetivo, na música Quatro Pedacinhos. No papo com o CORREIO, Gil fala sobre o álbum que expõe “sinais de defeito” no “coração, pulmões e afins”, canta o afeto pela família e por todos os que o apoiaram nos momentos difíceis. “Estava ameaçado na minha vida, na minha saúde, e as canções mostraram uma reação a isso”, explica. Confira.

Na música que dá nome ao disco, você diz com sutil impaciência: “Ok, ok, ok, já sei que querem minha opinião”. Apesar disso, segue disposto a responder às inúmeras pessoas que querem seu posicionamento sobre tudo. De onde tira paciência?

Eu tiro do costume, de tantos anos pertencendo a esse campo artístico de quem se espera posicionamentos, opiniões. Uma coisa que foi, de certa forma, estimulada nos nossos inícios, desde a época da ditadura, momento em que a sociedade brasileira precisava de porta-vozes mais decididos a assumir a palavra e a opinião pública. Caetano, Chico, Milton, Elis, Bethânia... Artistas que se tornaram porta-vozes através das canções, das entrevistas, das opiniões, e passaram a exercer esse papel. Vem daí. Uma coisa que foi ficando ao longo dos anos e se tornou um hábito. Com o exercício, se tornou também o fortalecimento de uma musculatura que a gente aguenta. Mas quero responder cada vez menos.

A música Ok, Ok, Ok é um desabafo?

Tem momentos de desabafo que são ressonâncias a todo esse campo de intrigas e ofensas da internet: essa criação dessa identidade frouxa, sem responsabilidades individuais, essa coisa de gritar por gritar, xingar por xingar. Não participo disso e nem gosto de me sentir alvo desse tipo de coisa, então a música tem um pouco disso. Mas tem também a coisa de: olha, nós somos artistas e temos o plano de subjetividade que é, de certa forma, distanciado da vida real, das disputas. O poeta também tem que ter liberdade para flutuar.

Esse disco é cercado de afeto pela família. Não que isso não apareça em outros trabalhos, mas aqui está mais forte. A intenção era essa?

Foi uma fluência. As canções foram saindo em função muito de uma carência afetiva que eu tinha à época, porque eu estava com dificuldade de saúde, precisava mesmo de muita atenção e carinho de parentes, amigos, médicos. É isso tudo que aparece no disco. Algumas dessas pessoas são exemplos desse mundo afetivo que se tornou compulsório naquele momento.

De fato, há a presença ampla da afetividade como tema. Mas foi como você disse: não que ela não tenha estado em outros momentos da minha carreira, mas nesse momento era mais urgente que eu dissesse “olha, precisamos de amor, de afeto e amizade”.

Pode falar um pouco mais sobre esse lado singelo do avô e bisavô que aparecem muito fortes no álbum?

Resulta de um prazer mesmo, um orgulho que eu tenho de ter sido portador de um trabalho de procriação generoso, amplo: oito filhos, dez netos, uma bisneta e muita unidade. Apesar da diversidade dos caráteres e das personalidades, todos eles estão em torno de uma totemização da família, da família num lugar legal, da família como entidade. As canções nascem desse orgulho.

Suas letras tocam em temas como saúde, velhice e finitude. Por conta disso, o disco chegou a ser chamado de “atestado de vida”. Você concorda?

É muito explícito, né? Essas caraterísticas que cercam a composição, a entonação, o modo sutil de expressar as ideias de afetividade.

“Atestado de vida” cabe bem, porque estava ameaçado na minha vida, na minha saúde, e as canções mostraram uma reação a isso.

Interessante a forma como você coloca poesia e leveza em temas que são mais densos: você fala da biópsia cardíaca, de “sinais de defeito” no “coração, pulmões e afins”. Aceitar as limitações do corpo, a finitude, te ajuda a ter uma vida mais leve?

Eu creio que sim, embora eu ainda seja assaltado pelos fantasmas, pelos medos, pelos receios da interrupção da vida.

A perspectiva da inexistência do mundo ao meu redor, a minha inexistência no mundo, tudo isso aparece frequentemente como fantasma, assombração, mas é justamente para evitar que essas assombrações apareçam que a gente tem que colocar esses elementos na nossa meditação, para ir acostumando a alma, o sentimento, a essas questões, a essas definições.

Em entrevista recente a Lázaro Ramos, vocês debateram questões fundamentais como a luta contra o racismo. Diante do que estamos vivendo hoje no país, você tem esperança de vencer o preconceito?

O que move as pessoas a se posicionar diante de sentimentos agressivos e violentos em relação ao próximo é uma escolha. As pessoas escolhem buscar a compreensão dos fenômenos de agressão, hostilidade, rejeição, discriminação... Vale a pena, porque são formas de expressar quem você é. Eu gosto da bondade, da paz, gosto de trabalhar pelo crescimento dessas dimensões benignas, da dimensão amorosa da vida. Não é que isso seja bom ou melhor, mas é. Essas pessoas têm esse dom natural, vieram para fazer o contraponto da bondade com a maldade. A maldade está aí, é natural, faz parte da vida. O homem faz escolhas e se contrapor a essa maldade do mundo é uma escolha legítima.

Ninguém pode nos condenar por isso. Os maus não têm direito de nos condenar por sermos bons.

Na mesma entrevista a Lázaro, você fala sobre sua relação com o Carnaval. Como será sua folia este ano?

Desde menino nunca fui muito carnavalesco, no sentido de ter uma adesão irrefreada ao sentido passional do Carnaval. Mas eu fui me acostumando aos poucos, pelo lado estético, pela beleza, foi o caso dos Filhos de Gandhy, do trio elétrico. Essa coisa com minha alma de artista, esse gosto pela poesia da vida foi me reconciliando com o Carnaval. Mas não sou folião. Agora, depois de velho, nem que quisesse conseguiria ser (risos).



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in Correio 24 Horas, 06.02.2019
 
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