O 'Giro' de Roberta Sá e Gilberto Gil em 11 faixas inéditas

Leonardo Lichote

RIO — A mão de Gilberto Gil segura um pequeno
espelho, no qual o fragmento de rosto que se mostra é o de Roberta Sá. A imagem
ilustra a capa de “Giro” (Rosa Produções/ Deck) e resume o espírito do disco da
cantora, com onze canções inéditas que o compositor fez para ela — só ou com
parceiros, entre eles Jorge Ben Jor. Porque o álbum — que funde no título a
primeira sílaba do nome de ambos — é exatamente esse exercício de encontro,
esse jogo de espelho, esse deslocamento dele na direção do olhar dela e vice-versa.
“Autorretratinho” — na qual Gil descreve em seus versos a própria Roberta, em
primeira pessoa, se vendo no espelho — é apenas a expressão mais evidente
disso.





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— A coisa mais linda do disco é Gil ter olhado pra
mim como olhou. “O lenço e o lençol”(“Ninguém será capaz de me dobrar/ Como
se eu fosse um lenço e pôr no bolso”)
 é a minha personalidade. Em
“Autorretratinho”, me exponho como nunca — conta Roberta.



O disco começou a tomar forma em novembro de 2016,
numa reunião na casa do jornalista Jorge Bastos Moreno (morto em 2017, ele era
amigo de ambos e assina a parceria com Gil numa das faixas, “Afogamento”,
lançada em “Ok ok ok”, álbum do compositor). Ali, eles começaram a conversar, e
ela pediu meio de brincadeira uma música. 



— No dia 19 de dezembro de 2016, meu aniversário,
ele me disse que tinha feito uma música pra mim. Era “Giro” — lembra Roberta. —
Depois, veio “Afogamento”, que brincava com o fato de eu ter ido passar férias
em Fernando de Noronha (a letra fala de “um golfinho-anjo, um boto-serafim”,
no qual ela se agarra)
 .



Depois de uma canção na qual Gil unia seu nome ao
de Roberta e outra que se referia a uma viagem da cantora, veio uma parceria
dos dois, “Cantando as horas”. Quem fez a ponte foi Bem Gil — filho do
compositor, produtor do disco e um dos maiores responsáveis pela sua
existência.



— Eu ia gravar essas três inéditas e pegar outras
antigas de Gil. Mas Bem falou que ele estava num momento de muita disposição,
que deveríamos aproveitar e fazer um álbum de inéditas — diz a cantora.



Gil toca violão em todas as faixas do disco, que
tem a participação de Ben Jor na parceria dos dois, “Ela diz que me ama”. Além
dele e de Roberta, o baiano tem no álbum como parceiros Bem, Alberto
Continentino e Yuri Queiroga.



Show no Circo Voador



O resultado — que chega ao Circo Voador em 14 de
junho — carrega leveza e uma inegável nordestinidade, em xotes como “Cantando
as horas”, “Fogo de palha” e “Xote da modernidade”, no maracatu “Outra coisa” e
no samba de roda “Giro”. Gil — que se refere à cantora potiguar como “mulher de
fibra e finura, ainda jovem mas já madura no trato da música de traços
brasileiros nítidos” — vê com naturalidade o sotaque.



— Somos nordestinos e crescemos ouvindo, cantando e
dançando forró — explica Gil. — Era inevitável que isso surgisse no disco. Ao
lado de alguns sambas, gênero que Roberta cultiva com gosto e competência,
estão xotes e baiões que representam essas nossas origens.



As origens os aproximam, assim como a saudade de
casa nas turnês (tema de “Cantando as horas”). Além disso, Gil se movimenta
para a visão de uma mulher décadas mais jovem que ele. Na compreensão do bem e
do mal (“Nem”) mas sobretudo no entendimento do amor: o desenrolar do gostar
para o amar (“Ela diz que me ama” e “Fogo de palha”); a sedução (“Outra
coisa”); a entrega (“Afogamento”). A última encerra o disco com a imagem
síntese de quem se agarra ao “corpo liso” (escorregadio) de um golfinho e se
solta:



— “Então eu relaxei e me entreguei completamente ao
mar” — cita Roberta. — É uma frase linda, se deixar levar. Esse disco tem isso.



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in O Globo, 28.04.2019
 
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