Festival de Brumadinho marca linha tênue entre a cura e o reforço da dor do luto na cidade

MECAInhotim, que reuniu artistas como Gilberto Gil e Pitty, é o primeiro evento local após rompimento de barragem da Vale em janeiro, que deixou 232 mortos. 30 ainda estão desaparecidos, e cidade se divide sobre efeitos do festival neste momento

Às 12h28 do dia 25 de janeiro, o tempo parou em Brumadinho. O rompimento da barragem do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, cobriu a região de lama e soterrou sob ela cerca de 232 vidas. Desde então, menos de quatro meses depois da tragédia, a região arrasta o luto de 40.000 pessoas (população local), afetadas direta ou indiretamente por ela. Neste final de semana, no entanto, para parte da cidade, o tempo voltou ao seu curso normal: depois de meses sem receber visitantes — o turismo, junto com a mineração, é a principal fonte de renda local —, os hotéis e pousadas estavam lotados, as ruas cheias de gente e as lojas abertas até mais tarde. É o efeito MECAInhotim, um festival de arte e música celebrado entre sexta-feira (17) e este domingo no maior museu a céu aberto do mundo, com apresentações de Gilberto Gil, Pitty, Céu, Duda Beat e outros artistas, e com ingressos até 600 reais.

"Esse festival nos ajudou a voltar a respirar, é uma regeneração da cidade. É como desejar um feliz ano novo para Brumadinho, renovar essas energias. A doação da Vale [a empresa doou 100.000 reais aos familiares das vítimas] ajudou a movimentar economicamente as coisas nos últimos meses, mas foi o festival que lotou todas as casas e pousadas", comenta, animado, o guia turístico Junio César, de 26 anos, contratado para realizar visitas guiadas em Inhotim durante o evento.

Apesar de afirmar que há um "clima de euforia na cidade", o guia turístico não esquece das 30 vítimas que continuam desaparecidas. "Ainda há comoção, mas a gente precisa viver", diz. Luiza Medeiros, de 37 anos, compartilha o sentimento. Ela perdeu "um grande amigo" na tragédia, mas acredita que o festival chega em bom momento para a cidade. "Ainda estamos todos tristes, mas precisamos trabalhar. Para mim, esta foi uma boa oportunidade", conta ela, que foi contratada para ficar em um dos postos de vendas de bebidas durante o evento.

A contratação de mão-de-obra local foi uma das iniciativas adotadas pela organização do MECA para ajudar a "reconstruir" a região. Nos cinco anos em que o festival acontece em Inhotim, esta foi a primeira vez que houve uma "integração real" com a comunidade, segundo os brumadinenses ouvidos pela reportagem. "Não é só o MECA e o Inhotim que ganham, todo mundo ganha. Desencadeia movimentação econômica em tudo, desde o dono da borracharia, ao hostel, ao distribuidor de bebidas", comenta Junio César.

Fundador do MECA, Rodrigo Santanna conta ao EL PAÍS que recebeu com choque a notícia do rompimento da barragem, em janeiro, e que, imediatamente, toda a produção do festival foi paralisada. "Queríamos entender a gravidade do ocorrido e pensar bem de que maneira poderíamos ajudar. Escutamos a comunidade e o feedback dos moradores, da associação de comerciantes, nos fez entender que seria importante realizar o festival". Em fevereiro, a plataforma lançou o fundo de arrecadação filantrópica PróBrumadinho em apoio à cidade e aos moradores. Na programação do festival, cujo DNA é composto pela defesa do meio ambiente e pela busca de estratégias culturais de impacto social, entraram rodas de conversa sobre a tragédia e uma feira de artesanato de produtores locais, com 20% da renda destinada ao fundo de arrecadação.

Um dos participantes das palestras foi o engenheiro civil brumadinense Gabriel Vilaça, de 28 anos, que perdeu um primo em consequência do rompimento da barragem. Ele celebra a visibilidade que o festival trouxe para a região, já que, afirma, "as pessoas estão esquecendo" do que aconteceu ali. "É também uma oportunidade de celebrar, porque apesar desse crime do qual fomos vítimas, precisamos de momentos de alegria para não cair em uma depressão coletiva", acrescenta. Perguntado sobre a conveniência de realizar uma festa de três dias em um território ainda em luto, Vilaça é taxativo: "Em Brumadinho, a gente fala muito que quem não pisou na lama, não tem que decidir. Muita gente de fora, sem ao menos conhecer nosso município, sem ao menos ter vindo aqui conhecer nossa tristeza, quer falar o que é bom ou ruim, o que deve ou não ser feito na cidade, sem ao menos sentir o território. Mas nós decidimos. E nós precisamos viver".

Música e clamor por justiça

A memória da tragédia de Brumadinho marcou todos os shows ao longo dos três dias de festival. O cantor Castello Branco, que abriu a programação na sexta-feira, mergulhou com o público em um minuto de silêncio (sumariamente respeitado) em homenagem às vítimas. A roqueira Pitty e a voz suave de Céu pediram justiça e reparação para os afetados e Duda Beat, a rainha da sofrência pop, exigiu que a Vale assuma sua responsabilidade ante o acontecido. Mas foi Gilberto Gil, com sua voz e violão, com o olhar baixo, que fez a mais bela oração em favor de Brumadinho e sua gente, cantando Se eu quiser falar com Deus. "Vamos, nesta noite, elevar nossos pensamentos e mandar bons sentimentos para todos os moradores desta terra", rezou Gil durante seu show, no sábado à noite.

As preces continuam e, até que a cidade possa fechar o ciclo de dor e luto, outros eventos como esse festival devem acontecer ainda neste ano. Rodrigo Santanna, responsável pelo MECA, afirma que estuda a possibilidade de realizar um segundo evento em Inhotim no segundo semestre. "Queremos fazer atividades mais regulares para aumentar o interesse na cidade, principalmente com foco no turismo", conta.



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