Em OK OK OK, Gilberto Gil leva muitos afetos para o palco

Silvio Osias

Os músicos entram no palco do Teatro A Pedra do Reino às cinco da tarde.

Passagem de som é um barato.

Alguém puxa Upa Neguinho. Um adere à sugestão. Mais outro, mais outro. Nara Gil canta um pouquinho.

O rapaz do trompete gosta de Egberto Gismonti. É ele que toca Frevo. E Lôro, um maracatu que vira samba.

O clima é meio jazzy. Muito bom de ver e ouvir ali naquele teatro imenso e vazio.

Gilberto Gil entra no palco depois das seis.

Passagem de som com Gil é um barato total.

Ele faz o show quase completo.

Gil adora o palco. Gil é um grande homem de palco.

*****

Em seguida, tem a conversa no camarim.

Lembro do meu pai: “Sílvio, nada será tão sombrio quanto a gente teme”.

Ao que Gil complementa: “Nem tão luminoso”.

Segue-se o atendimento aos jornalistas.

Breves entrevistas, outra vez no palco.

Jackson do Pandeiro, Chuck Berry, etc.

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O show começa às nove e meia.

OK OK OK.

Todos querem a opinião do poeta.

Palavras dizem sim. Os fatos dizem não.

Ele vai falando de afetos. De pessoas. Família, amigos, médicos. Fala de finitude. E da circunstância em que as novas canções surgiram. Foram muitas. Geraram dois discos: o seu OK OK OK e o Giro, de Roberta Sá.

A banda é grande. Oito integrantes. Lá estão três dos seus filhos: Bem na guitarra, José (o caçula) na percussão e bateria, Nara (a primogênita) no vocal.

O set list traz o álbum OK OK OK quase na íntegra. Naturalmente, amplia as possibilidades das canções.

O repertório de hoje dialoga com o repertório de ontem.

As pérolas de ontem são deliciosos lados B.

O show vai crescendo, vai esquentando. Gil vai seduzindo a gente. Como faz todas as vezes em que sobe ao palco.

O pessoal, aqui, acolá, se mistura com o coletivo. Pro dia nascer feliz. Ou pra esse meu Brasil melhorar.

Marginália II, que dá conta do Brasil de 68, parece tão atual!

E ainda tem o poeta Mané Caixa D’ Água, que vagava pelas ruas de João Pessoa:

“Deixe o poeta beber vento!” – está na memória afetiva de Gil. E na nossa.

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No backstage, depois do show, tudo é muito breve.

Uma foto, um autógrafo na capa do disco, a delicadeza com os que vão estar com ele na porta do camarim.

Na despedida, dou um abraço e um beijo no rosto do meu amigo e digo:

A vida nos dá presentes. Você é um presente que a vida me deu. Ou Deus.

E lá vem ele com os versos: “Que Deus dá, que Deus dá”.



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