Barra 69: último show de Caetano e Gil antes do exílio quase teve invasão hippie

Apresentações no TCA em julho de 1969 completam 50 anos; conheça os bastidores

Os homens, as viagens. Salvador não falava em outras coisas na noite de 20 de julho de 1969. Dois aqui, a caminho da Europa, se despediam no Teatro Castro Alves, ao tempo que mais dois, em outro rabo de foguete, estreavam em solo lunar. Fez 50 anos nesse sábado que Caetano Veloso e Gilberto Gil dividiram a atenção e as expectativas dos soteropolitanos com Neil Armstrong e Buzz Aldrin em relação a eventos que jamais serão esquecidos.

“Foi tão marcante que eu lembro até a roupa que usei: de linho verde, com um sapatinho branco. O momento mais emocionante, para mim, foi quando Caetano cantou Irene, porque ele chorou e a plateia chorou junto. Muita gente chorando. Foi muito aplaudido”, relembra Lourdes Machado, que tinha 14 anos na época, e estava no show ao lado dos irmãos. “O teatro estava cheio, superlotado”, destaca a jovem senhora que hoje, aos 64, é delegada de polícia.

A polícia de 69, no entanto, não estava tão sensibilizada. “Dizem que quando eles saíram (do palco), os policiais já estavam esperando”, comenta um boato de então.

Antes da suposta recepção, Gil cantou que “a lua foi alcançada afinal, muito bem”, no trecho de Lunik 9, e fez o público ficar “contente também”, de acordo com Caetano, ao relembrar de um dos três concertos que, três anos depois, virou o LP Barra 69, registro histórico da despedida da dupla antes do exílio.

Caetano usa figurino assinado por Dedé Gadelha, sua esposa na época (Foto: Artur Ikissima/Divulgação)

“De fato, tanto nós quanto o público estávamos perdendo a transmissão pela televisão do grande acontecimento. Isso nunca pesou na decisão quanto à data do show. Mas Gil pelo menos quis cantar Lunik 9 – uma sua canção já então velha em que ele fala da iminente morte do ‘romantismo’ por causa da profanação da Lua pelas viagens espaciais”, conta Caetano no livro Verdade Tropical.

Na verdade, além do show da alunissagem, houve outros dois: um concerto naquela manhã de 20, às 10h, e outro na noite do dia seguinte, às 21h. A gravação que deu no Barra 69, porém, foi somente de um show, que sequer tinha o nome do LP, como lembra o produtor Roberto Sant’Ana. “Era Despedida de Caetano e Gil. Barra 69 foi sugerido pelo artista gráfico Aldo Luiz”, revela, ao explicar que a tal ‘barra’ era uma referência aos dias de chumbo.

O disco Barra 69 só foi lançado em 1972, após os dois retornarem do exílio político. A gravação não estava planejada (Foto: Reprodução)

Deixa tocar

Presos durante dois meses, logo após a decretação do AI-5, em dezembro de 68, os “subversivos” Gil e Caetano estavam circulando por Salvador, até o governo militar decidir o que faria com eles.

Nesse período, tinham que se apresentar ao coronel Luís Artur, chefe da Polícia Federal na Bahia, todo santo dia. “Sem direito a aparições públicas, não ganhávamos dinheiro suficiente para sustentar as famílias. No fim do segundo mês, Gil começou a pedir ao coronel que intercedesse em nosso favor com os superiores no Rio e em Brasília”, menciona Caetano, no livro. Luís Artur, enfim, conseguiu a liberação, mas daquele jeitão: “se subir alguém no palco, vai todo mundo preso e ninguém viaja”.

Quem reproduz essa fala é Sant’Ana, que foi à frente antes dos shows. “Disse ‘olha, se alguém subir nesse palco, Caetano e Gil não vão pro exterior e vamos todos presos. É isso que cês querem?’ Não subiu nem rato”, recorda.

Professor de teatro da Ufba, Raimundo Matos de Leão, então com 19 anos, foi um dos que seguiu a orientação, embora a revolta.

“A plateia, quando ela grita, aplaude, canta, ao mesmo tempo havia um travo, um incômodo na garganta, mas esse grito saía. Há um momento de contradição, mas de muita vitalidade”, diz, ao recordar as bolhas coloridas projetadas no ciclorama.

Um dos dramas, no entanto, estava fora, com a ameaça de um grupo de hippies de invadir o TCA. Inaugurado dois anos antes, o teatro, até então considerado um "elefante branco", tinha capacidade para 1.700 espectadores, mas nunca lotava. Tudo mudou naqueles shows e, diante da necessidade de arrecadar o máximo de grana possível, foram vendidos 600 ingressos além da capacidade em cada apresentação.

Acontece que desceu uma renca de Arembepe, que não planejava pagar pra entrar. Diante da ameaça de invasão hippie, o Largo dos Aflitos parecia não ser bastante largo pra caber tanto policial. “Queriam assistir de graça. Tinha cinco mil hippies. Claro que não podia. (...) Montou-se um grande aparato policial vindo do Largo dos Aflitos. Aflito ficamos eu e o Paulinho Lima com a ameaça que, graças a Deus, não se concretizou, não aconteceu”, recorda Sant’Ana.

Quem gravou?

O disco, aliás, só aconteceu porque o percussionista Djalma Corrêa, que tocava com Gil, tinha mania de gravar tudo que era show ou manifestação cultural que presenciava. “Eu documentava tudo com uma forma bem livre, porque achava legal aquilo que tava acontecendo”, explica o músico que tinha gravações de Smetak, Koellreutter, Batatinha, Riachão, entre tantos.

“Esse show rolou de uma maneira muito inteira. Gil e Caetano levaram as coisas de uma forma bem livre”, relembra ele, que usou na empreitada um gravador Phillips de quatro canais que registrou apenas um dos shows.

A gravação, que pouca gente sabia que tinha rolado, foi passando de mão em mão até cair no ouvido do jornalista Nelson Motta. “Convenci o presidente da gravadora (Polygram), André Midani, a lançar o disco em LP. Havia muita resistência, o som era péssimo, mas valia como documento histórico”, relembra Motta, lamentando apenas uma decisão comercial equivocada.

“Convenci (Midani) a criar o selo ‘Pirata’ para lançar o disco, com o preço de venda impresso na capa. Desastre total, as lojas odiaram, grande fracasso comercial”, arrepende-se.

Djalma Corrêa também tem certo desapontamento em relação ao disco. “Eu peguei o material, dei a Perinho Albuquerque, e aí ele fez uma escolha. Escolheu alguns títulos, porque a gravação era longa. E aí editou em um disco, né? A escolha que ele fez talvez não seria a que eu fizesse, mas tudo bem”, comentou, entre risos. Entre as ausências no disco estão canções como Baby, Objeto Não Identificado e Tropicália, de Caetano, além de Procissão, Domingou, de Gil.

Mas se não houve sucesso financeiro por questão de qualidade técnica ou de escolha de repertório, as apresentações refletiram outra realidade. “Terminado o show, tinha uns seis sacos (cheios de dinheiro). Eu nunca tinha visto tanto dinheiro em minha vida. Saímos de lá e fomos pra Pituba, pra arrumar e contar”, relembra. Hoje faturando pela Europa, em turnês, Gil e Caetano não responderam às perguntas enviadas pela reportagem para essa edição.

Repercussão

Nos dias seguintes aos concertos antológicos, os jornais fizeram análises bastante entusiasmadas sobre a despedida. Um texto viajandão do Jornal da Bahia, do dia 23, comentava a sintonia fina entre artistas e público.

"Promover o turbilhão do insconsciente foi um objetivo definido na criação do show e, não importa a lembrança que possa trazer – daquilo que se poderia em outro caso, dizer efeitos assimilados a Kubrick. – A assimilação é consciente e, realmente plástica, não comportando jamais a caracterizaçãon técnica ou artificial que seja, do significado da palavra efeito", publicou.

O jornalista Jurandyr Ferreira, em sua coluna Teatro em Foco, no Diário de Notícias, fez menos rodeios.

"Um deslumbramento! Espetacular! Divino, maravilhoso! Tudo isto é ainda pouco para descrever o calor humano, a emoção coletiva que tomou conta de tantos quantos estiveram no Teatro Castro Alves para ver, ouvir e aplaudir Caetano Veloso e Gilberto Gil", escreveu.

Aquele abraço, Bahia

Na época, os cantores moravam juntos numa casa bem do lado de onde hoje é o Bar Palhoça, na Rua Rio Grande do Sul, na Pituba. “Quando apareceu o resultado da bilheteria, Dedé [Gadelha, então esposa de Caetano e irmã de Sandra Gadelha - Drão -, mulher de Gil na época] trouxe as contas de quanto necessitaria pra chegar até Lisboa [primeira parada do exílio]”, recorda Sant’Ana, que usou o restante da grana pra pagar os colaboradores.

Entre eles, Pepeu Gomes, que junto com os irmãos Carlinhos e Jorginho e o amigo Lico, formavam o Leif’s, grupo que acompanhou os astros na despedida. Torcedor do Vitória, Pepeu não recuou na hora de tocar o Hino do Bahia, que aparece no disco entre dois dos maiores sucessos de Caetano e Gil: Alegria, Alegria e Aquele Abraço.

Jurandyr Ferreira assim descreveu a cena: "De repente, nos sentimos cantando a plenos pulmões o Hino do Bahia, aquela vibração popular dos dias carnavalescos. Um canto uníssono, de alegria e vida, no famoso estribilho - Bahia! Bahia! Bahia!"

Aliás, se até pro rubro-negro Pepeu o hino do rival era bem conhecido, Aquele Abraço era coisa nova. “A plateia foi tomada pela música, e cantou-a com Gil como se já a conhecesse de muito tempo”, relembra Caetano. Era a música certa para aquele momento, p’resse canto do mundo do sonho profundo de liberdade.

Confira as faixas do disco Barra 69 - Caetano e Gil ao Vivo na Bahia.



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in Correio 24 Horas, 21.07.2019
 
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