Os bastidores da turnê de Gilberto Gil pelas festas de São João

Gilberto Gil é aquele tipo de cara antenado. Adora as mais modernas tecnologias, já enaltecia a internet banda larga muito antes de ela se tornar acessível à maioria dos mortais e profetizou em letra e melodia um futuro cibernético onde um mundo sem fronteiras se apresenta maior a cada segundo. A despeito disso tudo, porém, o bom baiano decidiu mergulhar novamente no genuíno universo interiorano e foi buscar nas festas juninas a inspiração para o CD e turnê “Fé na festa”, que, após atravessar cidades e cidades do país, chega ao exterior.

Os cariocas tiveram oportunidade de ver o arraial de Gil na Quinta da Boa Vista, no fim de maio, e com as bênçãos do “nhô” prefeito Eduardo Paes, o evento deverá entrar na agenda cultural da cidade.
— É muito bom que esta festa entre mesmo para o calendário oficial da cidade, pois o que realizamos foi deslumbrante e o local foi perfeito para armarem as barraquinhas e para que todos que lá foram, (mais de 300 mil pessoas segundo os bombeiros) pudessem ter uma boa visão do show que aconteceu sem nenhum incidente, felizmente. As festas juninas são festas familiares e não são propícias a brigas e confusões — comemora.

Com Gal Costa na Quinta da Boa Vista

Pula a fogueira, ioiô
O cantor se lembra bem de suas próprias incursões pelas quermesses e festas de São João no interior da Bahia. O então menino de 8 anos já adorava ouvir Luiz Gonzaga no rádio, praticamente uma celebridade local, o único ídolo de uma cidade de apenas 800 habitantes.
— Dançava quadrilha, pulava fogueira e me lembro desde sempre das festas juninas, sobretudo no período em que morei em Ituaçu, no sertão baiano, onde as noites eram estreladíssimas, iluminando a festa junto com as fogueiras nas portas das casas — recorda.

O ônibus que levou Gil e equipe país afora

É em suas andanças pelo interior nordestino que Gil encontra a preservação total de uma cultura que, aos poucos, parece estar caminhando em direção aos grandes eixos, como Rio e São Paulo. Por aqui, os arraiás, sejam eles tradicionais ou mais hypados, bombam em diversas regiões da cidade.
— Com certeza, as cidades menores preservam mais suas histórias, seu folclore, sua música... Mas nas cidades grandes tem se dado mais atenção a essas questões — avalia Gil, que em Senhor do Bonfim, município de 77 mil habitantes, por onde passou, ganhou rua com seu nome cruzando, vejam só, com a Rua Edson Arantes do Nascimento, vulgo Pelé.

As surpresas foram muitas. Foi na estrada que Gil completou 68 anos, e ganhou bolo no palco armado na Praça da Bandeira, em Jequié, também no interior baiano, com direito a parabéns cantado por Marrone, da dupla com Bruno, e viu uma multidão não arredar o pé do evento mesmo com uma chuva torrencial em Arcoverde.

Em Jequié comemorando 68 anos de vida

Pegação no São João
No repertório de “Fé na festa”, Gil faz uma verdadeira viagem pelos ritmos nordestinos, muito presentes no próprio folclore da região. Em “Livre atirador e a pegadora”, o baiano brinca com o novo padrão de comportamento entre casais que, na realidade, não chegam a ser casais (Não é casal porque não são casados/ Não é um par porque logo são três — ou mais/ O fato é que já estão acostumados/ Namoradas, namorados vários de uma vez):

— De longe vejo os livre-atiradores e as pegadoras em ação. A dança é muito propícia para a pegação e São João não fica nada a dever às micaretas.

Se a pegação está liberada nas comemorações de São João, a comilança também. No site que Gil preparou para mostrar tudo o que acontece na turnê, tem até receita de pratos típicos e quitutes de dar água na boca. O cantor, claro, tem aproveitado. Em Caruaru, por exemplo, Gil e equipe se esbaldaram com a perua ao molho pardo, que por lá se chama Perua Cabidela.

"A dança é muito propícia para a pegação e São João não fica nada a dever às micaretas"

— Gosto muito de batata-doce na brasa, milho cozido, pamonha, mungunzá, curau, bolo de aipim com coco, enfim, gosto de quase todas as guloseimas das festas juninas, mas, infelizmente, não sei fazer nenhuma delas. Até sei como se faz, na verdade, mas nunca me aventurei — confessa.

Em Arcoverde nem a chuva desanimou a multidão

Gente nova na área
Se não podem faltar os comes e bebes, o bom forró tem que tocar alto. E quem manda no som é o Rei do Baião, Luiz Gonzaga. Músicos jovens ou ainda desconhecidos do grande público das capitais, porém, mandam na pista caipira:
— Nos shows juninos não pode faltar Luiz Gonzaga, mas existem muitos compositores que não deixam de fazer músicas para essas ocasiões. Dominguinhos, Genival Lacerda e Geraldo Azevedo, e uma turma nova aí, como Targino Gondim, Nando Cordel e o repentista Bule Bule, entre outros.

A partir desta semana, toda essa atmosfera de interior será levada mundo afora, quando Gil leva a turnê para o exterior.
— Para uma festa ficar boa, para levar fé numa festa, é necessário boa música e muita animação. Fé na Festa e festa na fé!!!! — entusiasma-se o ex-ministro da Cultura, que leva fé nos santos padroeiros do furdunço junino: — Minha mãe é devota de Santo Antônio e eu gosto muito dos três santos de junho (Antônio, João e Pedro), mais por razões musicais do que por devoção. Mas em minha casa sempre teve a Trezena de Santo Antônio.
A fé não costuma “faiar”...



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in Extra/ RJ, 10.07.2010
 
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