Uma Noite em 67 é fundamental para MPB

Marco Tomazzoni

Documentário se torna referência obrigatória para entender música brasileira

Chico Buarque apresenta "Roda Viva" com o grupo MPB4 no Festival da Música Popular Brasileira

O documentário Uma Noite em 67 leva para os cinemas um dos momentos mais representativos da música brasileira contemporânea. Exibido na noite de ontem no Festival de Paulínia, onde foi aclamado pela plateia, e com estreia marcada para a próxima semana, o filme dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil compila imagens da terceira edição do Festival de Música Popular Brasileira, na TV Record, divisor de águas da cultura no país. Depois dele, nossa música nunca mais seria a mesma.

Desde a Jovem Guarda a polêmica sobre a guitarra elétrica esquentava os debates, mas os festivais na televisão ainda eram vistos como terreno estrito à música brasileira “pura”, com instrumentos acústicos, de preferência violão e piano, e artistas em roupa de gala, de vestidos longos a smoking. Chico Buarque era um exemplo perfeito: bonito, bem alinhado e excelente compositor, representava o bom rapaz, o “mocinho”. Os vilões variavam conforme o ano. Em 1967, nada alterava mais os ânimos do que a ameaça do imperialismo norte-americano, e as guitarras escolhidas por Caetano Veloso em “Alegria, Alegria” e Gilberto Gil em “Domingo no Parque” viraram alvo da fúria das torcidas, que beiravam a histeria.

A transformação dos participantes em personagens era um objetivo claro dos organizadores, e aí já começam os méritos do filme. Diante das câmeras, o diretor da TV Record na época, Paulinho Machado de Carvalho, assume que a ideia era fazer apenas um bom programa de televisão, e a divisão entre bons e malvados, natural, como na “luta livre”. O idealizador dos festivais, Solano Ribeiro, pensava da mesma forma: “ninguém tinha noção da importância histórica, sociológica que os festivais teriam depois”.

Aquele era o embrião do tropicalismo, movimento que incorporou o “som universal” à música brasileira. Universal por querer unir, como lembra Gil, Pífaros de Caruaru com Jefferson Airplane, ou berimbau com a guitarra, como fez com Os Mutantes em “Domingo no Parque”. Testemunhar Caetano falando sobre música pop e sua intenção de “assumir todas as formas da cultura massificada” num dos programas com maior audiência do país era o sinal de que, a partir dali, tudo seria possível.

Gilberto Gil levanta triufante ao fim de "Domingo no Parque", a segunda colocada no festival

Uma Noite em 67 registra os bastidores e o contexto daquela época de forma singela, mas potente – tudo é contado apenas com as imagens de arquivo da Record e, o grande mérito, entrevistas atuais com os protagonistas do evento. Até pessoas ariscas à imprensa, como Chico, comparecem, mas a surpresa maior fica mesmo com o quase eremita Roberto Carlos. Popstar máximo, símbolo do iê-iê-iê, participou do festival com um samba, “Maria, Carnaval e Cinzas”, e lembra no filme seu passado como crooner.

A contraposição feita na montagem entre passado e futuro põe lado a lado artistas inexperientes, com 20 e poucos anos, e os já alquebrados ícones da cultura nacional. Emociona ver Caetano dobrar as vaias para “Alegria, Alegria” e falar da saudade de sua juventude, ou Gil confessar seu medo de se apresentar ao vivo, ou assistir Edu Lobo dizer que praticamente fugiu para a França para escapar do sucesso de “Ponteio”, grande vencedora do festival, cantada com Maria Medalha. Sem contar o prazer que é ouvir Sérgio Ricardo tentar explicar por que espatifou um violão e o jogou para a platéia enfurecida.

Histórias saborosas não faltam – os diretores já comentam que descobriram ter feito uma comédia, tamanho o número de gargalhadas nas projeções –, mas o tom confessional de alguns depoimentos se destaca. Enquanto os baianos optaram por uma carreira transgressora e levaram com eles toda aquela geração, Chico seguiu, quase sozinho, fazendo música brasileira tradicional. “Fui o escolhido para o ser o cara da música conservadora, mas ninguém gosta de ser chamado de velho, ainda mais aos 23 anos”, ele lembra.

Só exibir as músicas – as cinco primeiras colocadas aparecem na íntegra – já seria um feito surpreendente, embora Terra e Calil, em sua estreia como diretores, tenham feito muito mais: criaram um registro praticamente definitivo para qualquer um que queira entender a música brasileira. A edição precisa ainda deixa o filme com o tempo ideal e termina de modo triunfante. Uma Noite em 67 é retrato objetivo e emocionante de um trecho mítico de nossa história. Obrigatório.

* o repórter viajou a convite do festival



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in Último Segundo - IG/ Online, 20.07.2010
 
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