'Uma noite em 67' faz público viajar pelo passado da MPB

André Miranda

O povo cantou como se 1967 fosse hoje, como se uma passeata contra a guitarra elétrica estivesse acontecendo do outro lado da rua, como se um violão acabasse de ser atirado contra a plateia, e como se a música brasileira ganhasse novos contornos. O povo, saudoso de seus ídolos e de seus principais hinos, cantou ao assistir ao documentário “Uma noite em 67”, de Renato Terra e Ricardo Calil. Primeiro longa-metragem exibido anteontem pela competição do Festival de Paulínia, o filme conquistou os espectadores com histórias deliciosas e ótimas imagens de arquivo sobre o III Festival da Música Popular Brasileira, ocorrido em 1967 sob produção da TV Record.
Depois dele, foi projetada a ficção “Dores e amores”, de Ricardo Pinto e Silva, uma comédia romântica cheia de defeitos que provocou risos de constrangimento em quem estava presente.
Muito melhor fizeram Terra e Calil. Primeiro, porque eles conseguiram aliar o respeito à inteligência dos espectadores com a simplicidade para se narrar uma história. Depois, porque escolheram um tema fascinante e de forte apelo popular, mas não se renderam a soluções óbvias. Com “Uma noite em 67”, aprende-se um pouco do passado da MPB. Sérgio Ricardo, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Edu Lobo , os protagonistas daquele festival, resumem ideias e estilos de um período.

— Esse filme é uma homenagem àquelas pessoas — disse Calil.
“Uma noite em 67” alterna longas cenas de arquivo com entrevistas, algumas divertidas, outras reveladoras. Chico Buarque fala da dificuldade de se posicionar frente às mudanças propostas pela Tropicália. “Eu fiquei com cara de smoking”, diz. Sérgio Ricardo lembra a vaia que recebeu, e explica por que atirou um violão na plateia. Pouco antes, as imagens da época passavam o nervosismo de Sérgio, encadeando bem causos de 40 anos atrás. O documentário, que estreia no dia próximo 30, foi mais um bom exemplo de como filmes musicais podem ser de grande valia à memória da cultura brasileira, desde que tenham qualidade. E isso, a qualidade, é um fator que “Uma noite em 67” tem de sobra.
Já “Dores e amores”, uma coprodução entre Brasil e Portugal, tem atores e investimento dos dois países. Kiara Sasso interpreta a protagonista, Julia, uma profissional bem-sucedida que procura o que seria “o grande amor de sua vida”.

— Eu queria fazer um filme sobre o amor. Então, num momento de isolamento, fui a um shopping e perguntei numa livraria sobre um bom autor com texto engraçado. Descobri a Claudia Tajes — contou Ricardo Pinto e Silva.
Claudia é autora do livro “Dores, amores e assemelhados”, em que o diretor se baseou.
O filme é inteiramente narrado por Kiara: ela antecipa o que vai acontecer antes de cada cena, eventualmente falando para a câmera. O formato parece o de um programa de TV moderninho, mas muito inferior. De todos os seus defeitos — atuações, locações, direção etc. —, o pior são os diálogos. Em uma cena, por exemplo, uma personagem fala para outro: “Seu texto é bom demais para você ser assessor de imprensa.”

O repórter viajou a convite do festival



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in O Globo/ RJ, 21.07.2010
 
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