Bastidores da gênese de um Brasil pop

Todo país tem o festival marco de sua música pop que merece. Em 1967, enquanto o rock'n'roll dava nos EUA um importante passo rumo à consolidação como um dos principais gêneros populares da história da música, no Brasil artistas - alguns nadando contra a maré - davam sua contribuição para que um evento semelhante, embora de diferentes proporções e repercussões, se transformasse em igual marco para o País: o Festival da TV Record. Aquele instante, presente na memória de quem viveu a época e de quem viu e reviu as cenas gravadas veiculadas a granel na telinha nos últimos 43 anos, é muito bem lembrado e ganha uma conotação diferente no documentário Uma noite em 67, que estreia hoje, no Cinema da Fundação.

O festival americano realizado três meses antes - Monterey Pop, do qual participaram artistas como The Who, The Jimi Hendrix Experience, Big Brother & The Holding Co. with Janis Joplin, Otis Redding, Johnny Rivers, The Animals, The Byrds, Grateful Dead, Canned Heat, Country Joe and The Fish, Buffalo Springfield e Jefferson Airplane, só para citar os principais - sequer é citado no longa-metragem brasileiro dirigido por Renato Terra & Ricardo Calil. Porém, são impressionantes as semelhanças naquele instante, tanto pelas convergências quanto pelas divergências. De um modo ou de outro, tudo se encaixa.

Uma diferença é que vários dos principais ídolos americanos morreram e os nossos estão vivos e são personagens do filme, o que nos ajuda a entender melhor o que acontecia há mais de 40 anos. Músicos como Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Roberto Carlos e o quarteto MPB4, o crítico musical Sérgio Cabral, o executivo da emissora paulista Paulinho Machado de Carvalho, além de jornalistas. Alguns deles trazem depoimentos reveladores - ou pelo menos sua versão - sobre episódios polêmicos.

Longe de ser um documentário arrebatador, Uma noite em 67 segue uma estrutura simples, convencional, mas desenhada com esmero e de forma bem resolvida. O filme tem como sua espinha dorsal a final do Festival da Record de 1967 - que teve em sua final Edu Lobo & Marília Medalha (vencedores com o tema Ponteio), Gilberto Gil & Mutantes, Chico Buarque & MPB4, Caetano Veloso e Roberto Carlos - e, com foco nos cinco melhores colocados, vai costurando o desenrolar daquele desfecho polêmico e emocionante que a própria história se encarregaria de torná-lo seminal para música popular brasileira.

O prólogo essencial fica por conta do músico (depois cineasta) Sérgio Ricardo, responsável pela principal polêmica extramusical. Antes de sua participação, os apresentadores anunciam que o artista vai mostrar uma versão da canção concorrente, Beto bom de bola, com um arranjo diferente. A vaia (mostrada na íntegra no filme) é tão sonora que o cantor não consegue nem ao menos se explicar. Para encurtar a história, ele deixa o palco não sem antes quebrar o violão e jogá-lo contra a plateia. Em traje black-tie, teve seu momento Pete Towshend (do The Who, uma das atrações de Monterey), mas por pura e real revolta, sem encenação.

A polêmica não fica por aí. Em uma época em que artistas como Elis Regina, Jair Rodrigues e Gilberto Gil puxavam passeatas contra a guitarra elétrica - que Townshend (The Who), Hendrix e Redding consagraram meses antes - em prol de um pueril nacionalismo (Gil conta que militou para dar uma força a Elis), Caetano é criticado por subir ao palco com um grupo de roqueiros argentinos para fazer Alegria, alegria, e Gil por cantar Domingo no parque com os Mutantes.

Gil e Caetano, mentores de um movimento que também tem sua gênese naquele ano, o tropicalismo, contudo, dobram o público, que se rende à beleza das harmonias e arranjos bem sacados em sintonia com o que estavam ocorrendo lá fora, porém, ainda sem a bandeira tropicalista. Gil até fala, em depoimento atual, que seu arranjo era uma mistura do regionalismo de Luiz Gonzaga com o psicodelismo do Jefferson Airplane (também de Monterey).

O ponto alto, claro, são imagens que todos já se acostumaram a ver, mas no filme ganham aura diferente comentadas pelos próprios personagens, hoje ídolos consagrados, e apresentadas na íntegra.

O filme ainda traça um interessante painel das mudanças de comportamento no Brasil desde os anos 70. Músicos e demais participantes que aparecem o tempo inteiro fumando dentro do teatro dão hoje seus depoimentos com os dentes amarelados de anos de nicotina. A espontaneidade de uma geração que vinha do rádio, onde não havia a formalidade das câmeras, também é marcante. Preste atenção também a figuras que apenas transitam em meio ao cenário, como o humorista Chico Anysio, um dos jurados do festival.



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in Jornal do Commercio/ PE, 30.07.2010
 
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