Azulay Andrucha eles

O reencontro não ia virar álbum, o diretor Andrucha Waddington sugere até que, em "Outros (doces) bárbaros", os ensaios foram até um pouco mais importantes do que os shows. Andrucha deu uma relevância histórica ao convite da gravadora Biscoito Fino. "Daqui a 30 anos, você vai ver o que aconteceu com estes artistas como seres humanos, 26 anos depois dos Doces Bárbaros". Sua dedicação pode ser avaliada pela quantidade de material que ele pessoalmente ajudou a montar, ao lado de Quito Ribeiro: 100 horas de filmagens que resultaram em 1h14min, descontando os extras. O que não significa qualquer tentativa de fazer algo semelhante ao filme de Jom Tob Azulay, recentemente restaurado.

Influenciado pelo Godard que registrou "Simpathy for the devil", hino dos Rolling Stones, em um estúdio, em 1968, sua câmera percorreu o estúdio de Gil sem maiores atropelos. "A gente procurou interferir o mínimo possível, para registrar a intimidade". Então, o foco não era Gil, nem qualquer outro "bárbaro", especificamente. "Interessava ter Gil, Caetano, Gal e Bethânia sempre no mesmo enquadramento. Como isso não era possível, a gente transformou essa idéia em linguagem: os outros, mesmo quando estão fora de foco, estão presentes". Uma linguagem documental por excelência. "No documentário, você dificilmente controla o que vai acontecer. Eu acho que o bom documentarista é o que está com a câmera ligada na hora certa".

Andrucha conta que conheceu o grupo quando era "moleque", através dos irmãos mais velhos. Muitos anos depois, faria um documentário para Gil, "Viva São João"; Gil, a trilha de "Eu Tu Eles"... "Mal ou bem tudo conspirava a favor. Eu fiquei quietinho no canto do estúdio com o câmera e o Hermano Vianna". O que não o poupou de alguns problemas na captação do som. "As músicas do ensaio tiveram um tratamento mais documental, com muitos diálogos. Mas eu sabia que era muito mais importante nesse filme falar do Gil mostrando a letra que ele tinha feito para cada um do que falar propriamente de fatos históricos. Se alguém quiser remeter ao original, vá assistir ao filme original. Não adianta refazer o que já foi feito. A grande brincadeira aqui era fazer um filme como se estivesse fazendo os ´Doces Bárbaros´ só que 26 anos depois. Vendo os dois, você tem uma comparação, eles são complementares". E que bom que o diretor do filme original entendeu essa importância e cedeu imagens para o show e para o final desse outro encontro dos quatro titãs que invadiram, em definitivo, a praia musical dos brasileiros.



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in Diário do Nordeste, 04.01.2005
 
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