Baticuns Bárbaros

Henrique Nunes

Gil continua querendo mudança. Agora, resolveu mesclar algumas sonoridades eletrônicas mais explícitas com os timbres dos violões e dos tambores que sempre o acompanham. O eterno inquieto músico, que tem tido pouco tempo para compor e para apresentar-se, diante dos afazeres como Ministro da Cultura, acaba de lançar "Eletracústico", em que esbanja energia e sua "natural mestiçagem musical", em um show esporádico, idealizado com a ajuda do ex-diretor artístico da Warner, Tom Capone, e gravado, em formato de CD e DVD, cerca de dez dias após a morte do produtor.

Sem maiores novidades no repertório, "Eletracústico" mata saudade com roupa nova, enquanto quem quiser recordar dos seus baticuns originais pode conferir sua performance no show que, em 2002, reconstituiu os Doces Bárbaros, através do DVD "Outros (doces) Bárbaros", de Andrucha Waddington. Outra opção é a coletânea "Gil Revisitado", que reúne as mestiçagens mais puras de um Gil ainda não tão mutante aos apel os dos produtores

Foi em setembro deste ano, no Canecão, Rio de Janeiro. Meses antes, o show fora apresentado em São Paulo, Barcelona e no Rock in Rio, em Lisboa... E exatamente um ano antes, em setembro de 2003, Gil balbuciara algo parecido na ONU, em formato intimista que teve 18 minutos registrados nos extras do DVD, sob a direção de André Luiz Oliveira. Um comentário sobre a apresentação na Organização das Nações Unidas encontra-se na continuidade desta matéria.

O comando das gruas e demais câmeras do Canecão ficou com Bernardo Palmério, Gian Carlo Beliotti e Pedro Serra. Houve ainda uma entrevista com o dono da festa e depoimentos dos parceiros de palco sobre o papel de cada um nesta mestiçagem sonora, como Gil define seu repertório. Então a Warner gravou tudo isso; mas ainda não se sabe se, seguindo a letra de "Baticum", parceria com Chico Buarque lançada em 1989, "a Globo vai passar". Quem sabe, num especial de final, ops, começo de ano...

Gil, Gil, quantos o expõem gratuitamente sem ao menos conhecer um pouco do seu poder, muito, muito além dos cenários políticos que ora o envolvem... Apesar de todo o corre-corre nesses quase dois anos de Ministério, sua ânsia por estar sempre em dia consigo, com sua visão política universalista e com a música ao redor de si, derruba qualquer feitiço contra a paz que você insiste em transcender. Sua "Batmacumba" é mais forte.

Esse "Eletracústico", simples manifestação de uma música sempre atual em si própria, é uma síntese da sua carreira, como só os grandes artistas deveriam ousar expor de vez em quando. Com a energia física e espiritual que esse senhor de tantos quânticos abraços e ritmos evoca quando está no palco, sua apresentação durou não menos que uma hora e trinta e nove minutos em cada uma das três noites editadas, ao final, para 1h47min.

A ela, conforme a Warner gravou. Primeiro, registre-se a infelicidade da programação visual, que apesar de bonita, tornou praticamente ilegíveis as informações do encarte do DVD, obrigando a retirá-lo para uma decodificação menos desgastante à vista. Por sinal, a programação visual também é um luxo na capa e nas vinhetas do DVD, explorando o conceito dos cabos dos equipamentos como cordas, quem sabe, do violão "eletracústico" de Gil. Tem também as projeções multi-coloridas, que ocuparam tanto a tela ao fundo do palco do Canecão, como as imagens em primeiro plano, sobre Gil e sua banda. São dos VJs Jodele e Spetto, aquele que trabalha com O Rappa.

Assim, imagens de nossas comunidades urbanas mais populares são mostradas ao longo de "Refavela", música do álbum homônimo, de 77, que abre este "Eletracústico", entre ruídos dos midis, samplers e demais apetrechos plugados às cordas de Sérgio Chiavazzoli, às percussões de Marcos Suzano e Gustavo di Dalva e ao teclado e ao acordeon de Cícero Assis. São eles que agora colocam os sempre bárbaros baticuns de Gil em dia com os atuais "salões das noites cariocas", expostos aos efeitos e às "tecno-ilusões" da "Máquina de Ritmo", irônica e lírica leitura desse seu novo usufruto estético, revelada no DVD "Outros (doces) Bárbaros", lançado pela gravadora Biscoito Fino. Outros deleites gilbertianos que conheceremos um pouco mais a seguir.



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in Diário do Nordeste, 04.01.2005
 
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