O som do vinil é cem com Gil

Paquito Moura

   

                                    Para Anna

O som do vinil, programa bacana do Canal Brasil, apresentado e concebido por Charles Gavin, completou cem edições na semana passada, e o entrevistado principal foi Gilberto Gil, que tratou da trilogia Ré, englobando os LPs Refazenda(75), Refavela (77) e Realce (79).

Gavin, ex-baterista dos Titâs, é colecionador de vinis e pesquisador apaixonado. Sendo músico, se aproxima naturalmente dos entrevistados, criando um clima de camaradagem e informalidade que só traz ganhos pro programa. E Gavin é suave ao perguntar, Com Gil, não foi diferente. Eles falaram a respeito de momentos cruciais da carreira do baiano, como o episódio da mudança de gravadora: a Philips, a que Gil pertencia, negou-lhe um milhão de cruzeiros para a compra de um ônibus com o qual excursionaria, e a Warner, através de André Midani, topou dar o "advance", jargão do meio para "adiantamento". Gil também falou do bisavô que pagou a própria alforria e se tornou comerciante próspero, e da família, que passou por um processo de "branqueamento" para se inserir socialmente. Dominguinhos, parceiro e músico de Gil no período da Refazenda, contou das excursões pelo Nordeste, numa Veraneio, e da passagem por lugares onde havia pouco público, "uns gatos pingados", até o reconhecimento popular final. Para se ter idéia da simplicidade da produção, Dominguinhos era também o motorista da Veraneio.

Em três discos, quase em sequência - pois Gil ainda teve tempo, durante o período, de excursionar com os Doces Bárbaros, gravar um álbum com Jorge Ben e fazer um show com Rita Lee - é de admirar que, em cerca de cinco anos, um artista tenha conseguido equacionar qualidade e quantidade, quase como os Beatles, que gravaram toda a obra em menos de dez anos. Deve ser a mágica daqueles anos 60, uma década que continuou na seguinte, e contaminou, no bom sentido, toda uma geração de artistas.

Mas Gil, mesmo sendo parte de um todo maior, é único. Em um depoimento no documentário sobre Jards Macalé, Um morcego na porta principal, em que a maioria das falas busca enaltecer o artista que não faz concessões - caso de Macalé -, Gil vai na contramão do óbvio e diz que, num mundo de diálogo, quem não faz concessões, não existe. Conceder é, também, enxergar o outro. Este conceito de concessão, vista com um valor positivo, se estende pela carreira de Gil, e torna possível o diálogo com os variados modos dele se expressar musical e midiaticamente. Também como os Beatles, Gil cultivou vários estilos sem deixar de ter sua marca.

O curioso é que esse artista, sempre visto como antenado, voltado pro futuro, tenha criado uma trilogia com o prefixo "re", que indica retomada e mesmo, como ele diz, "andar de ré". Gil sabe que a visada pra frente indica o diálogo, mais uma vez, com que está atrás, anterior, caso específico do disco Refazenda, que pretende esse vivenciar de uma ancestralidade mais imediata, da infância, mesmo que mediada por uma compreensão mais orientalizada da vida, como indicam as músicas Retiros espirituais e Meditação, e ainda a foto maior da capa do disco, com Gil de quimono, comendo com pauzinhos japoneses o que é, provavelmente, uma refeição macrobiótica. O diálogo, no entanto, que resulta mais transformador, é com o amor de pai e mãe, ressignificado no amor dos amigos e dos amores, Freud relido sem culpas, Édipo hippie: "a mulher que amei/ que amo, que amarei/ será sempre a mulher/ como é minha mãe (...) quando beijo um amigo/ estou certo de ser alguém como ele é (o pai)". O catingueiro, como Gil se definiu no programa de Gavin, é outro, sendo ele mesmo, afetivamente crescido, refeito.

No caso de Refavela, o diálogo é com a ancestralidade mais remota, não menos profunda, a mãe África. A canção que reflete mais precisamente a respeito é Babá Alapalá, com a pergunta que reverbera pra trás - onde é que tá?- mas não perde de vista o adiante. Aqui Gil não só se ressignificou, como influenciou Salvador e deu visibilidade a toda uma maneira de a população majoritariamente de origem negra se enxergar, com orgulho das origens e auto-admiração. Gil gravou a provocativa Ilê ayê, de Paulinho Camafeu, ampliando o alcance do que já se prenunciava, e veio a explodir, anos depois, no carnaval, nos blocos afro e até numa revalorização das influências caribenhas nos sons dos trios elétricos. Refavela é, portanto, proto-axé music. Imerso na africanidade, catingueiro em transe.

Com Realce, coincidindo com o início da abertura política, o catingueiro cai na farra, feérico, não sem desvelar mais ainda o reencontro com o feminino em Super-homem- a canção, a partir de uma conversa com Caetano, que lhe narra Super-homem, o filme. Gil recebe, também, com a gravação de Não chore mais, versão de uma música de Bob Marley, seu disco de ouro. E faz um inventário das tradições baianas, dos preconceitos ("preto não entrava no baiano/ nem pela porta da cozinha") aos preceitos e jeitos de vivenciar as relações pessoais-amorosas, quando trata do flerte com a garota do Barbalho e seu namorado . O catingueiro de origem re-habita Salvador, Rio, a África, o mundo. E dança. Como disse Mazola, produtor de Realce: ao gravar a faixa-título com músicos americanos, Gil deixou-os admirados com jeito de tocar violão, de trabalhar as harmonias, equacionando suingue e elaboração, inventividade e festejo.

Não é de estranhar que eu tenha ouvido o próprio Gil falar, anos mais tarde, antes de ser ministro, da falta de vontade de se inserir significativa e musicalmente nos contextos históricos-culturais. Nem precisa, após tanta estrada, agora é só fé na festa e no "salário mínimo de cintilância a que todos tivessem direito".



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in Terra Magazine, 25.08.2011
 
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