Era um, era dois, era cem

Amir Labaki

Eu não deveria me lembrar, mas me lembro. O Teatro Paramount ficava a 300 metros do apartamento de meus pais e a TV Record era uma espécie de babá doméstica. Foi assim que aquelas imagens e sons se agarraram na memória fragmentada do garoto de 4 para 5 anos.

Exibido na consagradora noite da abertura paulistana do É Tudo Verdade deste ano, "Uma Noite em 67", de Renato Terra e Ricardo Calil, entra neste fim de semana em cartaz. Um momento histórico da música popular brasileira contemporânea, que parecia já conhecido e hierarquizado, ganha novos significados, agora transformado em filme.

Nascidos depois do evento, a dupla de cineastas estreantes traz olhares frescos sobre a crônica daquela festa. A grande sacada dramática foi concentrar-se na noite da premiação.

Nada menos que 36 canções participaram das três eliminatórias. Entre as preteridas para a finalíssima, havia nada menos que "Eu e a Brisa" de Johnny Alf. Entre os compositores não classificados para a última fase, os já consagrados Mário Lago, Pixinguinha, Sidney Miller e Vinicius de Moraes e jovens revelações como Erasmo Carlos, Geraldo Vandré (às vésperas de "Para não Dizer Que não Falei das Flores"), Renato Teixeira. Entre os intérpretes, de Hebe Camargo a Elis Regina, de Elza Soares a Gal Costa, de Jair Rodrigues a Simonal, ambos no auge da carreira.

"Uma Noite em 67" sabiamente dribla esse cipoal de informações, assim como evita a tentação de abraçar todo o fenômeno dos festivais. Iniciada com o primeiro Festival da Record em 1960, a era dos festivais se estenderia até 1972, com nada menos que 15 disputas entre novas composições brasileiras. Seria preciso uma série, e não apenas um longa-metragem, para dar conta desse conjunto.

Renato e Ricardo focaram então o olho do furacão. Ou o "ápice da parábola", como prefere o principal consultor do documentário, além de entrevistado e um dos entrevistadores, Zuza Homem de Mello. Zuza empresta ao filme a dupla credibilidade de quem esteve lá, como técnico de som daquele III Festival da Record, e de quem é o maior historiador do fenômeno, autor do estudo definitivo "Era dos Festivais - Uma Parábola" (Editora 34, 2003).

"Basta apenas a gente atentar para o seguinte fator para concluir que de fato foi o ápice da parábola: havia tanta música boa que, se qualquer uma daquelas composições que obtiveram os cinco primeiros lugares fosse vitoriosa, haveria uma reação favorável da parte de todo mundo", depõe Zuza ao delicioso site www.eradosfestivais.com.br.

É assim que "Uma Noite em 67" se estrutura em cima da transmissão do confronto final, envolvendo, principalmente, "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso, "Domingo no Parque", de Gilberto Gil , "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, e "Roda Viva", de Chico Buarque. Temperam a disputa as histórias deliciosas envolvendo a interpretação inflamada de "Beto Bom de Bola" por Sérgio Ricardo e a nada "Jovem Guarda" interpretação por Roberto Carlos de "Maria, Carnaval e Cinzas", de Luiz Carlos Paraná.

Do ponto de vista histórico, o documentário frisa subliminarmente outras duas teses de Zuza. Primeira: a de que aquele festival é um marco de "quando o compositor assume a sua canção", consolidando-se o cantor-intérprete. Segunda: germinava ali "a semente do tropicalismo".

Como tantos documentários históricos, materiais de arquivo e entrevistas são os tijolos audiovisuais que edificam "Uma Noite em 67". Como poucos entre eles, porém, ambos são explorados com precisão e originalidade. Trechos esquecidos dos bastidores da disputa, a partir dos arquivos da TV Record, recuperam informalidade ao que se tornou algo mitológico. Muito do humor do filme aflora do impacto do tempo sobre as entrevistas nas coxias feitas por Randal Juliano e Cidinha Campos.

Com a colaboração essencial de Zuza, Renato e Ricardo revitalizam também o monótono circuito de entrevistas recentes com Caetano, Chico, Edu, Gil e até Roberto Carlos. Reservo os detalhes para preservar o prazer da descoberta de cada espectador, mas é como se, para o filme, eles falassem sobre aquela experiência pela primeira vez.

Há como a promessa de outro Brasil, melhor, mais aberto a trânsitos sociais entre classes, gerações e origens distintas, mais poderoso e livre, mais generoso e justo, naquele flagrante de talentos em confronto pacífico no Paramount. Para além das portas, uma ditadura militar começava a estreitar o garrote, como a própria antítese do que oferecia lá dentro o melhor da nação. Amanhã não tinha mais brincadeira. Jogaram a viola no mundo. A gente quer ter voz ativa. Por que não?

Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários.

E-mail: labaki@etudoverdade.com.br

Site do festival: www.etudoverdade.com.br



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in Valor Econômico/ Online, 30.07.2010
 
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