Acabou a seca

Arnaldo Bloch

Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz". A frase do poeta russo Vladimir Maiakovski ecoa uma milenar tradição de profecias e presságios que têm como objeto um paraíso chamado Brasil, seja ele o país descoberto há cinco séculos, seja um lugar imaginário. Nos mapas medievais aparecia como ilha mágica (Hy Brasil, ou "terra dos bem-aventurados", em língua celta). Joyce faz menção, o americano Walt Whitman chama de "vértice da suprema Humanidade", e o escritor Stefan Zweig, explicitamente, de "país do futuro".

Resumo da ópera: Jorge Mautner achou que a coisa dava samba, Gilberto Gil concordou e assim nasceu, no fim do ano passado - numa temporada esticada de Natal e réveillon na casa de Gil em Araras - o samba de exaltação "Outros viram", primeira canção composta pelo baiano desde que virou ministro da Cultura . A farra rendeu uma faixa-extra: o rock-balada "Os pais".

Humanidade que renasce no Brasil

As duas canções vão integrar o próximo disco de Mautner (Geléia Geral/Warner), que, em fase de mixagem, terá, além da voz de Gil, participações do AfroReggae, de Caetano Veloso e de Preta Gil.

- Ambas partiram de reflexões nossas, traduzidas para uma língua cotidiana - comemora Gil, que até recentemente dizia-se afastado da criação e não necessariamente voltaria a ela, e agora atribui o fim da seca criativa a algo tão fortuito quanto... o sol.

- Foi um completo bronzeamento do corpo criativo, pois ficamos oito dias expostos. E nem tudo é tão metafórico assim: ainda estou com as marcas do calção de banho - exulta o artista Gil, à varanda do apartamento em São Conrado, despido de Ministério, vestindo o branco de todas as sextas-feiras. Também de branco, Mautner pega carona no sol e evoca a física quântica:

- Havia muito eu queria abordar o Brasil mítico musicalmente, e com o sol as partículas foram rapidamente condensadas nas canções, tudo muito rápido.

Gil complementa:

- Na verdade tem um aspecto tarefeiro nisso. O Mautner encomendou as canções. As encomendas dão a emergência que leva à catarse. É ato de fé.

A fé, como diz a letra de outra música, não costuma falhar. Fé na canção. Mas essa coisa de fé no Brasil não soaria em descompasso com o tempo?

- Em princípio a canção passa uma idéia ufanista, naturalista, nacionalista. Mas não - sustenta Gil. - Ela é apenas um corte transversal nas dimensões enaltecedoras da nação através da História, sem ismos, sem ideologia. O Brasil é uma nau que vem balançando nas ondas da utopia. Na letra da canção, fomos nos valer das visões dos outros para que não digam que fomos nós que dissemos, ou que vimos.

Mautner eleva o tom:

- São constatações. Está tudo aí, nos livros. Os templários, que acabaram originando as grandes navegações, já sabiam. Ted Roosevelt quando esteve no Brasil impressionou-se com a miscigenação e disse que o futuro dos EUA estaria nesse melting pot . Tudo aponta para o Brasil. A Humanidade vem renascer no Brasil.

Animado, Gil dá voltas em torno do próprio corpo, gesticula:

- É legítimo exaltar o Brasil e a sua cultura. Quando eu digo Brasil, é a Humanidade, da qual o Brasil hoje é, mais que nunca, um símbolo contingencial. O Brasil opera o espírito do tempo. Eu me recuso a desqualificá-lo, em nome da minha humanidade. Precisamos nos livrar da negatividade explícita nos ismos redutores. Os homens vitais não podem mais falar em nome dos reducionismos ou adotá-los. É questão de fé.

De novo, a fé. Mas até que ponto tanta fé está impregnada de um deslumbre semeado pelos quatro anos de convivência com o poder político? Gil afirma o oposto.

- Vi os mecanismos do poder. Por isso mesmo precisei revigorar a utopia em relação à realidade, pois sem isso não há civilização. Não podemos nos submeter à tragédia do real, seria o mesmo que entregar o ouro aos bandidos.

As tensões entre o desejo e a ética

Bem mais sucinta, a canção "Os pais" dá margem a híbridas interpretações sobre a "moral flutuante" que orienta (e confunde) as famílias contemporâneas. Gil desenvolve.

- "Os pais" aborda o paradoxo permanente entre o desejo de avanço e libertação e os fluxos civilizatórios naturais, entre aceleração e frenagem nos planos político, moral, ético. A questão é resolver a tensão entre as polaridades. Nos momentos anteriores às civilizações, ela existia em apenas alguns aspectos fundamentais da vida. Hoje essa tensão fundamental está em escala global, em todos os lugares ao mesmo tempo. O centro está em tudo, mas onde está a circunferência?

OUTROS VIRAM

"O que Walt Whitman viu
Maiakovski viu
Outros viram também
Que a Humanidade vem
Renascer no Brasil
Ted Roosevelt sentiu
Rabindranath Tagore
Stefan Zweig viu também
Todos disseram amém
A essa luz que surgiu.
Roosevelt que celebrou nossa miscigenação
Até a considerou como sendo a solução
Pro seu próprio país
Pra se amalgamar
Natural melting pot feliz
Não conseguiu pois seu
Congresso não quis
Rabindranath Tagore também profetizou
Ousou dizer que aqui surgiria o ser do amor
Ser superior, da paixão, da emoção, da canção
Terra do samba, sim, e do eterno perdão
Maiakovski ouviu
A sereia do mar
Lhe falar de um gentil
De um povo mais feliz
Que habita esse lugar
Esta terra do sol
Esta serra do mar esta terra Brasil
Sob este céu de anil
Sob a luz do luar."

OS PAIS

"Os pais, os pais
Estão preocupados demais
Com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narcomarginais
Ou então na mão dos molestadores sexuais
E no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades atuais
Por isso não acham nada demais
Na seminudez de todos os carnavais
E na beleza estonteante e tão natural
Da moça que expressa no andar provocante
A força ondulante da sua moral
Amor flutuante acima do bem e do mal
Por isso não podem fugir do problema
Maior liberdade ou maior repressão
Dilema central dessa tal civilização
Aqui no Brasil sob o sol de Ipanema
Na tela do cinema transcendental
Mantém-se a moral por um fio
Um fio dental."



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in O Globo, 12.05.2006
 
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