Gilberto Gil diz que a crise é como terapia

Jotabê Medeiros

O ministro da Cultura, Gilberto Gil, desembarca em Paris no dia 13 para participar da 33ª Convenção Geral da Unesco. Na ocasião, estará em discussão um documento universal da diversidade cultural para os mais de 100 países-membros. Gil deu o pontapé inicial nisso há dois anos, em São Paulo, quando participaram então apenas oito países. Agora, são apenas quatro grandes dissidentes: Japão, Austrália, México e Estados Unidos, esse o mais resistente.

A convenção pode tirar da Organização Mundial do Comércio (OMC) a primazia de tratar das questões relativas ao tráfego internacional dos bens de serviço culturais - incluindo o cinema. A convenção pode afetar pesadamente o cinema de Hollywood, daí a grande preocupação dos Estados Unidos.

"Numa situação de livre mercado, eles têm vantagens competitivas. Mas nós queremos um fórum especial para o tratamento da cultura diferenciada, uma instância que atente para as questões simbólicas dos bens culturais e suas características próprias".

- O que o sr. achou da carta da professora Marilena Chauí aos seus alunos, na qual ela comentava achar difícil transmitir idéias e opiniões por meio da mídia?

- Gostei muito. Achei interessante. Acho que ela faz uma advertência muito pertinente da questão da falta de espaço, na mídia, para a visão pluralista, para os pequenos fragmentos. A grande mídia é um grande negócio. Apesar de seu compromisso em informar e abastecer a opinião pública com os fatos, ela está enredada numa grande rede de interesses. É preciso discutir tudo.

- O cineasta Fernando Meirelles, de Cidade de Deus, disse que "a crise dói, mas faz bem ao País".

- A crise é sempre isso, é terapia.

- O sr. se disporia a continuar à frente do Ministério por mais quatro anos?

- Se me convidarem para continuar, eu terei prazer em levar avante uma série de coisas, de continuar implementando a abordagem nova do ministério, de tratar da implantação do Sistema Nacional de cultura, dos problemas da propriedade intelectual, da diversidade cultural.

- Existem hoje alguns problemas na indústria cultural do Brasil. Segundo levantamento da Câmara Brasileira do Livro, as vendas de livros não didáticos no País voltou a níveis de 1991. E o balanço do mercado discográfico, revelado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos, mostra que há uma pequena reação do mercado, mas a pirataria continua sendo um grande problema. Como combater isso?

- Primeiro, a criação das Câmaras Setoriais foi um grande passo para atacar esses problemas. Setores culturais que têm porte industrial tem de vir para discutir suas leituras dos problemas, para daí buscar as políticas. O governo, no caso do livro, colaborou com a desoneração, com a abertura de linhas de crédito, além de um programa de implantação de bibliotecas. As queixas, as dúvidas, os receios e os entusiasmos que por acaso surjam têm as câmaras setoriais como fórum. É a interface do ministério com a sociedade para essas questões, para não ficar na vontade do governo ou no voluntarismo do Ministério da Cultura. Há um trabalho com o Ministério do Desenvolvimento e da Indústria e o do Turismo para o apoio às duas associações do disco independente que têm 200 selos no País. São políticas de apoio e estímulo ao produto brasileiro no Exterior.

- E no caso da pirataria, o que se pode fazer? (hoje, 52% do mercado brasileiro é dominado pelo disco pirata)

- A pirataria diz respeito, mas não é da atribuição do Minc. O ministério participa do combate, junto ao Ministério da Justiça. É uma atribuição compartilhada. Mas a questão da propriedade intelectual já é nossa. Colaboramos com os dados, a estatística, a informação. Nós queremos discutir a teoria, os limites da indústria cultural. Nessa discussão nós temos um papel, que vai desembocar no desestímulo à pirataria, ou ao desvio da energia gasta com o combate para outros problemas. Não é só o fabrico do disco pirata o problema. São também as tecnologias anarquistas, que facilitam a disseminação do acesso à música, que põem em xeque velhas formas de controle. Isso tudo pode exigir uma nova legislação.



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in Gazeta Digital, 07.10.2005
 
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