A noite da viola

Mauro Ventura

Quem dera agora que se tivesse um festival com o aquele. Na plateia, espectadores dignos de estádio de futebol, dispostos a aplaudir e vaiar com o mesmo entusiasmo. No júri, nomes como Ferreira Gullar, Chico Anysio, Sérgio Cabral e Julio Medaglia. E, na disputa, músicos como Chico Buarque, Roberto Carlos, Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil , Nana Caymmi, Nara Leão, Gal Costa, Jair Rodrigues, Martinho da Vila, Geraldo Vandré e Sidney Muller.

Deu Edu Lobo na cabeça. Com “Ponteio”, ele sagrou-se vencedor do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, no Teatro Paramount, em São Paulo.

A história daquela competição está registrada no documentário “Uma noite em 1967”, de Renato Terra e Ricardo Calil, que estreia na próxima sexta-feira.

— As pessoas eram alucinadas por aquele refrão (“Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”).

Na hora em que era cantado, elas se levantavam. Parecia gol — lembra David Tygel, que fazia parte do Momento Quatro, grupo que acompanhou a música.

E as imagens não deixam mentir. Numa das apresentações de “Ponteio”, o público vai ao delírio. Grita “Edu! Edu!” e “Já ganhou! Já ganhou!”.

Edu e Marília Medalha, que cantava a seu lado, sorriem de contentamento.

— Foi a grande festa da minha juventude — diz ela hoje.

Aquele foi o festival em que Sérgio Ricardo quebrou seu violão após as vaias que o impediram de cantar “Beto bom de bola”. Mais importante de tudo, foi o festival em que surgiu o tropicalismo. “Domingo no parque”, defendida por Gilberto Gil e Os Mutantes, e “Alegria, alegria”, representada por Caetano e os Beat Boys, eram sérias candidatas ao título, assim como “Roda viva”, cantada por Chico Buarque e pelo MPB-4. Mas Gil ficou em segundo, Caetano em quarto e Chico em terceiro. Entrevistado no filme, o jornalista Chico de Assis explica o sucesso de “Ponteio”: — Nada melhor do que ela como música de festival. Tinha todos os ingredientes. A mensagem política, que uniu a plateia. A letra excelente de Capinan. E músicos maravilhosos, que levavam para cima.

Faltou falar: e uma boa cantora.

Dois grupos acompanhavam Edu e Marília. O Momento Quatro, formado por Zé Rodrix, Ricardo Vilas (que depois faria par com Teca Calazans), Tygel e Maurício Maestro (que mais tarde estariam de novo juntos no Boca Livre). A outra banda, Quarteto Novo, também era integrada por músicos talentosos: Hermeto Pascoal, Theo de Barros, Heraldo do Monte e Airto Moreira.

A história de “Ponteio” é curiosa.

Edu tinha passado um tempo na Europa, após uma turnê, e quando voltou ao Brasil soube do festival. Mas já tinha vencido o da TV Excelsior em 1965 com “Arrastão”, na voz de Elis Regina, e decidiu não entrar.

— Eu não tinha música, não estava com vontade de jeito nenhum.

Ele hoje prefere falar do trabalho novo a relembrar o passado. Mas, à época das filmagens, deu um longo depoimento aos diretores. A maior parte do que falou não foi incluída no filme e permaneceu inédita: — Aí o Dori Caymmi ficou me ligando e disse: “Eu tenho uma música que eu queria que você ouvisse, que fizesse a letra.” Falei: “Pô, Dori, eu não sou letrista.” Ele me mostrou a música e achei linda. Era “O cantador.” Saí de carro de madrugada e veio a ideia do “Ah, quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar” para o refrão. Falei: “Dori, olha, eu descobri um mote aí legal, acho que vou fazer a letra.” Mas, no dia seguinte, Dori ligou com más notícias: — Ele disse que tinha uma confusão com o Nelson Motta, que queria fazer a letra. Eles eram parceiros.

Falei: “Dori, faz o seguinte, esquece essa parceria da gente.” E assim Motta fez os versos de “O cantador”, que foi defendida no festival por Elis Regina, eleita melhor intérprete. Mas Edu ficou com o refrão na cabeça. Na época, tinha um caderno em que anotava possíveis títulos de música. Um deles era “Ponteio”. De posse do título e do refrão, fez a melodia. Faltava o resto da letra. Aí é que entra Capinan, que morava a duas ruas de Edu em Copacabana, e tinha sido apresentado ao músico por Gianfrancesco Guarnieri, na época do espetáculo “Arena conta Zumbi”, em São Paulo. Capinan lembra: — Fiz a letra de uma sentada só. Ele deu o mote, que era o refrão, e foi um jorro. Saiu numa sessão.

Ficamos os dois sentados na casa dele, Edu tocando, eu escrevendo, a gente trocando ideias.

A letra tem uma mensagem política, mas não é um manifesto.

Diz um trecho: “Encerrar meu cantar/Já convém/Prometendo um novo ponteio/Certo dia que sei/Por inteiro/Eu espero não vá demorar/Esse dia estou certo que vem/Digo logo o que vim/Pra buscar/Correndo no meio do mundo/Não deixo a viola de lado/ Vou ver o tempo mudado/E um novo lugar pra cantar”.

— É uma letra de esquerda, contestatória. A referência social é bem forte. Fala de categorias que precisavam de voz, da utopia de um novo dia. Mas não é panfletária, não me considero um protestante de carteirinha — diz Capinan, explicando que “Ponteio” fecha um ciclo que tem uma alusão nacionalista de esquerda: — Há a passagem desse Nordeste referencial para a fase urbana.

Ricardo Vilas é da mesma opinião: — Edu reintroduziu as raízes nordestinas na MPB. “Ponteio” foi o ápice e o último exemplo dessa estética meio nordestina que ele inseriu.

Era a música politicamente, esteticamente e tematicamente correta. Tinha o ar um pouco de déjà vu. Incorreto era o libertário de Gil e Caetano, que dão a guinada. Nós éramos o lado mais sério. Continua na página 2



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in O Globo/ Online, 26.07.2010
 
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