Filme resgata parte da história da TV brasileira



Paulínia, SP. A memória do audiovisual é um valor recente no Brasil. Por isso muito se perdeu do acervo do cinema e da televisão brasileira. Desta última, do material que sobrou, existem imagens valiosíssimas, que, no entanto, ficam empoeirando nos arquivos. Este é o primeiro ponto a favor do filme "Uma Noite em 67", que já havia sido exibido no mês passado em Ouro Preto, na mostra CineOP, e teve nova sessão no festival de Paulínia nessa segunda-feira.

O documentário tira da gaveta e organiza certo arquivo de imagens com a etiqueta de 21 de outubro de 1967 - data em que acontecia, no Teatro Paramount, centro de São Paulo, a final do 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Naquela noite, Edu Lobo, Chico Buarque, Gilberto Gil , Caetano Veloso, Sérgio Ricardo enfrentavam, a duras penas, uma plateia em polvorosa. Não existia uma consciência disso, mas os festivais da Record haviam se tornado um lugar onde se canalizavam tensões culturais, estéticas, políticas, numa época de intensa repressão política. E, também não existia uma consciência disso, naquela noite o futuro da música brasileira estava sendo traçado.

Sérgio Ricardo sucumbiu à pressão das vaias do público, que escolhia de antemão seus favoritos e se recusava a ouvir os outros. Depois de várias tentativas de tocar sua "Beto Bom de Bola", ele explodiu - quebrou o violão e o arremessou contra o público. "Eu era um animal acuado", disse ele, em entrevista para o documentário, mais de 40 anos depois. Assim, pouco popular, com sua música restrita apenas aos bons apreciadores mais curiosos, continuou Sérgio Ricardo. Chico Buarque apareceu de smoking alugado para interpretar "Roda Viva", com o MPB4. Paulo Machado de Carvalho Filho, então o dono da Record, diz em entrevista atual que pensava o festival com uma estrutura dramática. "Tinha o mocinho, o vilão, a heroína". Chico era o mocinho.

Paulo conta também que encontrou Gilberto Gil apagado numa cama depois de um porre, duas horas antes de ele apresentar "Domingo no Parque". "Estava morrendo de medo", justificou o baiano hoje. Paulo deu um banho em Gil, que foi então cantar sua canção, acompanhado pelo rock n' roll dos Mutantes, completamente desconhecidos, sorridentes e com suas roupas extravagantes. Enquanto isso, Caetano Veloso, com seus sorrisos e carisma, atravessou as vaias e fez o público cantar com ele "Alegria, Alegria". Caetano era claramente o mentor daquela turma - da qual estavam alheios os "velhos" e caretas Edu e Chico, o solitário Sérgio Ricardo e o moleque fanfarrão do Roberto Carlos (presente naquela noite com o samba "Maria, Carnaval e Cinzas") - que não tinha consciência do que se tornariam, mas sabia que queria fazer uma revolução na música brasileira.

A criação de "Uma Noite em 67" já começa com tudo isso - um acervo precioso, com uma produção da TV Record de uma qualidade surpreende para tempos tão remotos da televisão brasileira. O grande mérito do documentário, dirigido pelos jornalistas e cineastas estreantes Renato Terra e Ricardo Calil, é ter respeitado a integridade desse arquivo, colocando sequências inteiras, como diversas entrevistas e, por exemplo, todo o crescente da tensão da apresentação de Sérgio Ricardo até a explosão violenta. Os diretores merecem o crédito também por terem aprofundado a personalidade desses personagens com as entrevistas atuais, o que acaba por confirmar certos mitos e desconstruir outros.



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in O Tempo/ Online, 21.07.2010
 
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