Gil volta para o forró com a energia dos tempos em que tocou os primeiros acordes das músicas de Gonzagão

Irlam Rocha Lima

Antes dos acordes dissonantes do violão de João Gilberto, Gilberto Gil apaixonou-se pelo som da sanfona de Luiz Gonzaga. As músicas do “rei do baião” fizeram a trilha sonora da infância do menino nascido no bairro do Tororó, em Salvador, que foi morar com a família em Ituaçu, no interior da Bahia. Lá, também, ele tomou gosto pelos festejos juninos, manifestação da cultura popular brasileira, principalmente no Nordeste.

Ritmos nordestinos, sempre foram utilizados por Gil nas composições ao longo da carreira. Dois dos seus maiores sucessos, Só quero um xodó (Dominguinhos e Anastácia) e Esperando na janela (Targino Gondim, Manuca e Raimundinho do Acordeon) pertencem a esse universo. Em 2005, o cantor lançou um CD com a trilha sonora do filme Eu, tu, eles (Andrucha Wadington) voltada para o chamado forró pé de serra.

Cinco anos depois, ele declara outra vez seu amor a esse segmento da música brasileira com Fé na festa, álbum recém-lançado pelo selo Geleia Geral e distribuído pela Universal Music, inteiramente junino e praticamente autoral. Nove das 13 faixas são inéditas. A elas se juntam quatro regravações — uma das quais, Norte da saudade, Gil compôs com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque para o LP Refavela (1977), que ganhou novos arranjos.

Feito para projeto patrocinado por uma indústria de cosméticos, Fé na festa levou Gil a voltar ao tempo de fertilidade criativa, anterior ao período em que ocupou o Ministério da Cultura, no governo do presidente Lula. As nove inéditas foram compostas entre o carnaval e a entrada no estúdio, em abril. O livre atirador e a pegadora, primeira faixa a tocar nas rádios, foi inspirada numa música que fez muito sucesso no carnaval da Bahia deste ano, Vale night, de Durval Lelys, do Asa de Águia.

Ouve-se na abertura a canção que dá nome ao CD (Fé na festa). Já Vinte e seis, Gil fez para o dia do seu aniversário; enquanto Não tenho medo da vida, um contraponto à Não tenho medo da morte (do CD Banda larga cordel, de 2008), foi composta depois de uma visita a Rogério Duarte, companheiro do movimento tropicalista, que está com a saúde seriamente abalada.

Marmundo, Estrela azul do céu e Assim, sim são igualmente do compositor, que em Fé na festa inaugura parceria com Vanessa da Mata, em Lá vem ela; e com Nando Cordel, coautor de São João carioca. Neste trabalho, Gil tem a companhia de sua banda companheira de estrada: Arthur Maia (baixo), Sérgio Chiavazzolli (guitarras), Jorginho Gomes (zabumba), e Gustavo de Dalva (percussão).

A eles se juntam dois importante reforços, que contribuíram para dar uma cara nordestina que o disco propõe, o sanfoneiro Toninho Ferragutti e o violinista francês Nicolas Krassik, estudioso e pesquisador dos ritmos do Nordeste. Aliás, neste fim de semana, Gil apresenta o show do Fé na festa em cidades daquela região. Hoje ele está em Caruaru. No próximo mês, leva-o para uma turnê pela Europa.



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in Correio Braziliense, 12.06.2010
 
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