Resenha de Show - Gil Luminoso

Mauro Ferreira

Resenha de Show
Título: Concertos para Amazônia - Gil Luminoso
Artista: Gilberto Gil (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro Tom Jobim (RJ)
Data: 6 de novembro de 2008
Cotação: * * * *

Artista pautado por aguçada consciência ambiental, Gilberto Gil foi escolhido para abrir a série Concertos para Amazônia, realizada dentro de uma programação de eventos que ocupa o Jardim Botânico, a reserva florestal carioca onde foi inaugurado recentemente o Teatro Tom Jobim. Na companhia de seu violão e do filho Bem Gil, que se revezou na percussão e num segundo violão, o cantor apresentou o show Gil Luminoso, inspirado no belo disco homônimo (encartado em livro de 1999 e relançado em 2006 pela gravadora Biscoito Fino em edição avulsa) em que o compositor alinhou reflexões espiritualistas em regravações intimistas de canções próprias e alheias. Este Gil interiorizado se iluminou em alguns números e especialmente no bis que encadeou Tempo Rei, A Linha e o Linho (com outra costura harmônica) e Retiros Espirituais. No todo, o roteiro do show extrapolou o repertório e o conceito espiritual do disco que o inspirou. A ponto de ter fechado com Soy Loco por Ti, America, tema de vivacidade rítmica que culminou num diálogo vivaz dos violões de Bem e Gil.

Dotado de musicalidade ímpar, Gil se iluminou sobretudo ao manipular seu violão, sua máquina de ritmo. Já no primeiro número, Flora, canção transmutada para o universo do samba, o artista brincou com o ritmo cheio de dengo que imprimou a esta composição de múltiplos sentidos. À vontade, Gil experimentou tons e divisões, explorando nuances ainda escurecidas de músicas como Esotérico e Metáfora (com citação assoviada de Penny Lane ao fim). Exímio contador de histórias (não por acaso escolhido para ser o primeiro artista nacional a gravar DVD e CD ao vivo na série Storytellers, que em 2009 passa a ser produzida também no Brasil pelo canal de TV VH1), Gil também discursou sobre questões ambientais, celebrou a eleição do mulato Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos ("Um avanço histórico já considerável em si mesmo") e dissertou sobre as dinastias da música brasileira antes de anunciar a entrada em cena do filho Bem Gil a partir de Chiclete com Banana. Bem teve seu melhor momento quando assumiu o pandeiro para acentuar as quebradas rítmicas do samba Amor até o Fim, (bem) gravado por Elis Regina.

Com Bem, Gil ressaltou a atmosfera lúdica de Gueixa no Tatame - música do disco Banda Larga Cordel (2008) que cresceu na abordagem intimista - e reviveu samba antigo, Senhor Delegado(Antoninho Lopes e Ernani Silva, 1957), regravado pelos Titãs em 1998 no Volume Dois. Escorado na sua máquina de múltiplos ritmos, Gil acentuou a batida de samba de roda que acompanha Andar com Fé, sintetizou no violão a pegada nordestina que originou Expresso 2222 e apimentou a levada de xote que envolve Despedida de Solteira - pretexto para discurso sobre a malícia característica do gênero, ilustrado com o improvisado canto a capella de Peba na Pimenta, xote composto em 1957 por João do Vale (1933 - 1996) em parceria com José Batista e Adelino Rivera.

Ao aproximar Se Eu Quiser Falar com Deus de Não Tenho Medo da Morte em bloco mais intimista, Gil enfatizou a superioridade da canção de 1981 sobre o tema gravado em seu último álbum. Tanto no que diz respeito à arquitetura das melodias como às divagações transcendentais feitas nas letras das duas canções. Na seqüência, outro link temático - bem mais inusitado - encadeou O Rouxinol (da lavra do próprio Gil) com Three Little Birds, o tema de Bob Marley (1945 - 1981). Foi momento espirituoso de um show que transcendeu a espiritualidade do CD Gil Luminoso em favor da musicalidade multifacetada de Gilberto Gil. Concerto iluminado...



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in O Dia, 06.11.2008
 
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