Cantar na condição de ministro é interessante

Osmar Martins

Inspirado numa pequena apresentação que fez em 2003, na ONU - Organização das Nações Unidas -, a convite do secretário-geral Kofi Annan, (que também tocou percussão), e aproveitando uma discussão levantada na imprensa envolvendo músicos eruditos e a turma da música eletrônica, o novo show do cantor, compositor e ministro da Cultura Gilberto Gil, Eletracústico, será apresentado amanhã, a partir das 19h, na Concha Acústica do TCA. Com isso o "ministrartista" quebra um jejum de dois anos depois da última apresentação em solo baiano, quando foi uma das atrações do Festival de Verão. O show resultou na gravação de um CD, produzido por Liminha, e um DVD, ambos dedicados à memória do produtor musical e diretor artístico da Warner Music Tom Capone, morto em acidente nos Estados Unidos.

Acompanhado por Sérgio Chiavazzoli (cordas e vocais) Gustavo Di Dalva e Marcos Suzano (percussão e vocais) e Cícero Assis (acordeom e teclado),

Gil apresenta um repertório que reúne músicas que falam da paz, da construção de um mundo compartilhado, à exemplo de Andar com fé, Imagine, Se eu quiser falar com Deus, Refavela, Soy loco por ti, América, além de resgatar o tango Cambalache e uma canção composta em parceria com Capinan, La lune de Gorée, que passou batida no álbum Quanta.

Em conversa com a reportagem do Folha, via telefone do escritório do Ministério da Cultura em São Paulo, Gil falou sobre o show - "Como eu não tenho tempo de lançar um trabalho com repertório novo e havia um desejo de que eu fizesse alguma coisa, aproveitei e montei o Eletracústico; demonstrou entusiasmo sobre as comemorações do Ano do Brasil na França, que ele está organizando; e revelou que está satisfeito com seu trabalho como ministro - "Enquanto me quiserem por lá eu vou ficando". Confira a entrevista:



FOLHA - Como nasceu o show Eletracústico?

GILBERTO GIL - Eu aproveitei uma discussão levantada nos cadernos de cultura sobre reclamação dos músicos eruditos, que andaram se queixando de que a turma da música eletrônica estava se apropriando do termo eletracústico. E para não ficar apenas no campo teórico, batizando o show com esse nome, eu resolvi misturar a percussão eletrônica (samplers, ociladores) comandada por Marcos Suzano,que lida muito bem com esse mundo e a percussão mais artesanal (timbau, berimbau, pandeiro) de Gustavo de Dalva com o violão eletracústico de Sérgio Chiavazzoli, o acordeom e o teclado de Cícero Assis, o Cissinho. Como eu não tenho tempo para lançar disco com repertório novo, pois estou sem poder compor, e havia um desejo muito grande de que eu fizesse algum trabalho, então resolvi aproveitar toda essa situação e fazer o Eletracústico.

F - O resultado final lhe agradou?

GG - Eu gostei muito, principalmente pela receptividade do público, que foi muito boa. E eu estou chegando a Salvador dois anos depois de minha última apresentação na cidade, na fase mais madura do show, na fase pós-adulta.

F - Em paralelo aos show do Eletracústico, à frente do Ministério da Cultura, você está empenhado no grande evento que será o Ano do Brasil na França. Como estão os preparativos?

GG - Tive encontro com empresários franceses em São Paulo e senti que está havendo uma mobilização muito ampla. O entusiasmo e a adesão das empresas são visíveis. Ao todo, serão 13 estados brasileiros que vão participar do evento com suas representações artísticas, culturais e gastronômicas.

F - Um dos pontos altos da programação é o show que será realizado em Paris, reunindo você, Caetano Veloso, Daniela Mercury e Ivete Sangalo, entre outros. Como vai ser esse encontro?

GG - Serei uma espécie de anfitrião desse show na Bastilha, no dia 13 de julho, véspera da festa maior dos franceses, no dia 14. O show está sendo organizado por Sérgio Azenmberg, da produtora Divina Comédia. A princípio, o que eu posso adiantar é que, nesse dia, a comitiva do presidente Lula será recebida pelo presidente da França, Jacques Chirac, e nós devemos nos apresentar juntos.

F - Artistas da nova geração resgataram duas antigas músicas de seu repertório: Ivete Sangalo regravou Soy loco por ti, América (em parceria com Capinan) e o Skank, o reggae Vamos fugir (com Liminha). O que você achou das interpretações?

GG - Vamos fugir eu já ouvi e achei maravilhoso. Ainda não tive tempo de conversar com o Samuel. Inclusive, nos shows avulsos que estou fazendo, exceto o Eletracústico, que tem um repertório próprio, eu faço questão de abrir com essa música que já tem 20 anos. Quanto a Soy louco por ti, América, um dia eu estava lendo e a televisão ligada quando passou a chamada da novela da Globo. Lá no fundo, ouvi trechos da música e tive a impressão de que era a voz de Ivete. Agora que você está me falando tenho certeza de que não era fantasma (risos).

F - Além de atuar como ministro, você é uma espécie de embaixador

cultural, se apresentando em palcos pouco convencionais. Como está sendo conciliar a atividade burocrática com a agenda artística?

GG - O fato de eu cantar em alguns lugares na condição de ministro é interessante, mas minha carreira fica complicada porque só faço show nos finais de semana e, como já disse, não tenho mais tempo para compor.

F - Três anos depois de assumir o cargo, você ainda está gostando de ser ministro?

GG - Eu estou gostando porque tem muita gente também gostando. E, enquanto me quiserem por lá, eu vou ficando.



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in Correio da Bahia, 14.03.2005
 
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