Memórias e revelações de um peixe fora dágua

Sérgio Ricardo

Como peixe fora d’água, não sabia que havia um tipo específico de música de festival, nem assimilado que por trás daquilo houvesse uma armação. Só vim a saber agora, 43 anos depois, depois de ter visto o filme “Uma noite em 67”.
O filme é fundamental, porque surge num momento em que a música popular está por baixo.
Ele mostra que a sintonia do artista com a realidade de seu país era essencial.
Muito revelador em suas entrelinhas, deveria ser visto por todos: pelos profissionais da música popular, para reaprenderem a canalizar seus talentos a serviço da transformação, seja política, social, estética etc., e não tornarem-se escravos do mercado de consumo; pelos brasileiros que lotam os auditórios, para tomarem consciência de que não representam a opinião do povo, e deixar a histeria pra lá; e por produtores de emissoras, para que percebam a distância entre a manipulação e o conteúdo que generosamente lhes colocamos nas mãos. Só por essas coisas, o filme “Uma noite em 67” já cumpriu seu papel.
As declarações de Paulo Machado de Carvalho, diretor da Record, esclareceram tudo: “Para o êxito do megaespetáculo era preciso se escolher o mocinho, o bandido, a heroína etc.” Então não seria pelo mérito das canções? Zuza Homem de Melo, encarregado do som, confessa ter pendurado no teto do teatro um microfone para manipular o volume da plateia. Quando, nas eliminatórias, Nana Caymmi, às lágrimas, cantou até o final uma canção maravilhosa, sob uma vaia ensurdecedora, vi que havia algo muito cruel e desrespeitoso naquele esquema, mas não percebi o microfone no teto. Nos bastidores, os comentários dos artistas eram de constrangimento e temor.
A plateia, transformada em personagem, vestia a toga de júri supremo, e esmagava o júri soberano com ovos e vaias.

Mesmo tendo sido apresentado com um arranjo infeliz na eliminatória, meu samba foi selecionado pelo júri e ficara entre os 12 finalistas. Era só o que faltava para eu virar o bandido do filme, pois já se contava com a vaia na final. Não deu outra. A quebra do violão levou à desclassificação da canção. Os jurados, ofendidos com a perda de sua soberania, redigiram um protesto, que foi rejeitado.
Claro. Não perderiam a chance de sacrificar o bandido de seu bangue-bangue. Que se conformassem o júri e o artista. Primeiro a armação e as “macacas de auditório”.
Eu era o mais velho daquele elenco. Tinha 35 anos. Já consagrado, era intimado a todo momento, ora pelo Dops, ora pela Censura, a esclarecer posicionamentos políticos ou letras de música.
Exercia certa influência na nova geração, e não tive problema em quebrar o violão em protesto contra aquela farsa. Depois de chamar a plateia de animais (o que a Censura cortou), saí do palco para o abraço comovido de Elis Regina. Não me cabia engolir aquele sapo. Afinal, se serviu à minha dignidade, serviu tambem à de todos os colegas vaiados. De quebra, à caixa registradora da emissora.
Edu mereceu o primeiro prêmio, como Chico Buarque ou Gilberto Gil mereceriam, naquele contexto de música de festival. Não há como negar isso. A questão era outra. Estávamos ali para participar de uma transformação. Não para enfrentar o zumbido de uma plateia monitorada por um xerife à cata de ibope.
Quanto à volta dos festivais, enquanto as TVs continuarem enfatizando a participação das “macacas de auditório”, não dará resultado. Os melhores compositores e cantores tenderão a ficar de fora, como nas últimas tentativas. Um impasse a ser revisto com urgência, sob a pena de o povo brasileiro ser atirado definitivamente nos braços da mediocridade. A vaia a Chico Buarque e Tom Jobim no Maracanãzinho cantando uma obra-prima como “Sabiá” encerrou esse ciclo. O Brasil já tem outra cara. Há que se buscar uma nova forma. Não estamos aí para servir de bucha de canhão. Eu não teria condições, como disse no filme, de quebrar nem mesmo um cavaquinho.

Que fiquei marcado por aquele gesto, não resta dúvida. Como me orgulho dele, não chega a me incomodar. Mas atribuí-lo como causador de meu afastamento me incomoda, pela falta de informação.
Quem calou minha voz na mídia foi a Censura, não o violão quebrado. Fui proibido de execução no rádio e na TV, pelo nível de enfrentamento de minhas canções contra a ditadura.
Aos 78 anos, já um tanto combalido, vim apenas caminhar pelas lembranças, colhendo revelações através desse filme cujas imagens propõem interrogações que se perderam na poeira jogada em nossos olhos e nos olhos do tempo. Parabéns aos realizadores de “Uma noite em 67”, e salve a MPB!

Sérgio Ricardo é compositor e quebrou seu violão ao ser vaiado no III Festival de MPB da TV Record



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in O Globo, 30.07.2010
 
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