Crítica: Novo CD de Gilberto Gil capta tensões e conexões do mundo tecnológico

Mauro Ferreira

Rio - Gilberto Gil religou a antena parabolicamará, chave e título do festejado CD que editou em 1992. Em ‘Banda Larga Cordel’, seu primeiro disco de inéditas em 11 anos, o compositor capta tensões, conexões e contradições do mundo tecnológico.

Abuso eletrônico

Em 16 faixas, o CD oscila entre o acústico e o eletrônico. Às vezes, Gil se excede nos recursos eletrônicos, como em ‘La Renaissance Africaine’, mas, no todo, o disco é pautado pelo equilíbrio.

Na verborrágica faixa-título, ‘Banda Larga Cordel’, Gil festeja a inclusão digital do interior do Brasil em tema que evoca sons do sertão nordestino no arranjo. Na corrosiva ‘O Oco do Mundo’, o grande momento do disco, o discurso de alta voltagem poética adquire tom quase indignado. Gil rumina sobre a esfera sombria do mundo tecnológico em música urdida com ‘sujeiras’ e distorções. ‘O oco do mundo é o bobs no cabelo da perua’, sentencia o autor.

Nem sempre a música de ‘Banda Larga Cordel’ está à altura do discurso. Balada de atmosfera soul, ‘Olho Mágico’, por exemplo, exibe melodia de menor inspiração. O mesmo podendo ser dito de ‘Gueixa no Tatame’, faixa cheia de quebradas rítmicas, e de ‘Canô’, samba de manemolência baiana com que o artista saúda os 100 anos de Dona Canô, mãe de seu amigo Caetano Veloso.

O álbum oscila também entre as reflexões existenciais e a malícia nordestina. Na canção ‘A Faca e o Queijo’, feita para Flora Gil, mulher do compositor, Gil aborda com poesia o resfriamento da chama da paixão. A música é envolvente. Já em ‘Não Tenho Medo da Morte’ o compositor esboça reflexão pouco expressiva sobre a finitude. “Quem sabe eu sinta saudade, como em qualquer despedida?”, pondera na faixa pontuada por cordas de realce excessivo.

A malícia nordestina se faz presente no bom xote ‘Despedida de Solteira’, que narra o espirituoso ‘causo’ lésbico de uma ‘cabrita’ à beira do altar, e em ‘Não Grude, Não’, música em que Gil tangencia o forró pop.

Duas regravações reafirmam a musicalidade ímpar do artista. Gil dá outro recorte rítmico ao samba ‘Formosa’, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, e deita e rola nas quebradas do ‘Samba de Los Angeles’, extraído de ‘Nightingale’, um disco de 1978, feito para o mercado norte-americano. No todo, o CD ‘Banda Larga Cordel’ — nas lojas somente em 17 de junho — conecta Gil ao seu tempo.



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in O Dia, 23.05.2008
 
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