Cantar com FÉ

Silvana Arantes

Em meio à crise política no Brasil, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, entoará amanhã à noite, na praça da Bastilha, em Paris, uma ode à perseverança. "Andar com fé eu vou, que a fé não costuma "faiá'" diz o refrão da música com a qual o ministro/cantor abrirá o show na capital francesa -refrão que poderá ser ouvido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Gil será o quarto artista (de sete) a se apresentar no "Viva Brasil", espetáculo ao ar livre e gratuito, com início programado para as 20h (hora local). Em visita oficial de quatro dias à França, a partir de hoje, o presidente Lula deverá, salvo alterações de última hora em sua agenda, ir ao show acompanhado do prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, que o receberá antes em coquetel.

O "Viva Brasil" integra as comemorações do Ano do Brasil na França. É também uma antecipação aos festejos do 14 de julho, quando se comemora a Queda da Bastilha, ápice da Revolução Francesa (1789), conduzida sob o lema "liberdade, igualdade e fraternidade".

Não haverá na praça espaço exclusivo para o presidente, segundo Sérgio Ajzenberg, produtor do show, promovido pelas redes de supermercado Pão de Açúcar (brasileira) e Casino (francesa). "Lula circulará pelo backstage [bastidor]", diz.

Revolução baiana

Para o jornalista francês Rémy Kolpa Kopoul, da rádio Nova, "ter o [grupo baiano] Ilê Ayê se apresentando na praça da Bastilha é outra revolução".

O Ilê Ayê tocará no final, sucedendo Daniela Mercury, que convidará o grupo ao palco com a canção "O Mais Belo dos Belos". Além de Gil, Ilê e Mercury, apresentam-se Gal Costa, Jorge Benjor, Lenine e Seu Jorge.

Especialista em música brasileira e um de seus divulgadores na França, Kopoul observa que o "Viva Brasil" relaciona "alguns artistas mais conhecidos, outros menos; alguns mais populares, outros menos". O francês aprova a mistura: "O interessante neste tipo de evento é proporcionar ao público o que ele já espera e também o inesperado", diz. "[Na França] só quem já foi à Bahia conhece o Ilê Ayê", diz Kopoul.

Ajzenberg afirma que o objetivo do "Viva Brasil" não é apresentar novos talentos brasileiros ao público francês e diz que a ênfase em nomes consagrados tem em conta a meta de atrair público numeroso. "É um show ao ar livre, de graça, para a população. Precisamos ser populares, para que o público venha e se divirta."

A afirmação evidencia que o número de espectadores será a medida de sucesso do show. "Nosso papel é fazer uma coisa importante para a música brasileira, para os patrocinadores e para a Prefeitura de Paris, que cedeu o espaço onde sempre faz um show importante nesta data", diz o produtor.

A cessão do espaço pela prefeitura não implica o custeio da estrutura requisitada pelo espetáculo -palco, luz, som, telões, banheiros químicos e segurança.

Pão de Açúcar e Casino estão gastando no show 600 mil (R$ 1,698 milhão), sendo 30% desembolsados pelo primeiro, e o restante pelo segundo, de acordo com Ajzenberg.

O produtor diz que a quantia é um investimento direto das empresas, sem benefício das leis brasileiras de incentivo à cultura por meio de renúncia fiscal.

O MinC (Ministério da Cultura) diz que Gil não receberá cachê. O ministro está em férias e seguirá em turnê com sua banda pela Europa, após o show em Paris.

Desistência

Caetano Veloso, que recentemente classificou de "um caos" a administração Lula da Silva, sem excluir o MinC, havia sido anunciado entre os artistas do "Viva Brasil". A supressão do nome de Caetano foi assim explicada pelo produtor Sérgio Ajzenberg: "Caetano não se interessou. Ele está numa fase em que não está querendo fazer shows".

A assessoria de Caetano não desautoriza a informação. Contudo, o cantor tem show agendado para a próxima segunda, em Roma, no formato "voz e violão".



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in Folha de São Paulo, 12.07.2005
 
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