A simplicidade que cai muito bem em Gil e seu companheiro violão

João Pimentel

Em gravação de DVD, acompanhado do filho Bem, Gil relê sua obra

Pode-se dizer irresponsavelmente, à primeira vista, que um show de Gilberto Gil de voz e violão não acrescenta muito à sua fabulosa obra, que inclui bons registros semelhantes.
Mas quem pôde assistir à gravação do DVD “Bandadois”, na noite de terça-feira, na préinauguração do Teatro Bradesco, em um shopping paulistano, o Bourbon, viu que a simplicidade casa muito bem com o artista baiano.
Gil abriu os trabalhos com “Máquina de ritmos” para depois dar o seu boa-noite, primeiramente elogiando o teatro, que será oficialmente inaugurado em meados deste mês, e depois contando um papo que teve com o produtor musical do show, Liminha.

— A gente estava agora, antes do show conversando e eu perguntei: “Como fazer um show em um espaço tão grandioso apenas de violão e voz?”.
Então ele me respondeu que era só voltar ao começo, ao aconchego de lugares e lares. E o início de todos nós foi assim, abraçando o violão.
E essa conversa bem poderia servir de conceito para tudo o que se viu na noite. Desde o cenário, ou a quase total ausência dele — um pequeno palco montado dentro do principal, com banquinhos, uma mesinha com água, os violões e as caixas de retorno, passando pelo jogo de luzes brancas azuis e amarelas até o repertório de 23 músicas, quase todas sucessos.

Releituras dão ar de novidade a antigas canções

Se a sensação que dá após o artista cantar “Esotérico”, “Andar com fé” e outras é a de que ele joga para a plateia, por outro lado, ao ouvir as releituras desnudas de canções como “A linha e o linho” e “Metáfora” o sentimento é de frescor, de estar reaprendendo sua bela poesia.

— “A linha e o linho” eu fiz para Flora, com quem vivo há 30 anos. Fiz e ainda faço canções pensando nela. Estávamos em Paris, no hotel, já havíamos nos recolhido. Fiquei observando ela dormir e cismei de fazer uma canção.
Acompanhado durante quase todo o show pelo filho e violonista Bem Gil, o cantor lembrou suas referências em “Saudade da Bahia” e “Chiclete com banana”.

— Me lembrei de falar da fonte, aquela onde a gente vai beber da música, da inspiração.
Tem muitas, mas a minha primeira foi Dorival Caymmi.
Ao mesmo tempo, ou talvez antes, veio o Gonzagão, e logo depois, Jackson do Pandeiro.

O show teve a participação de Maria Rita. Antes de ela subir ao palco para cantar “Amor até o fim”, Gil lembrou de sua chegada a uma São Paulo já cosmopolita, em 1965, e do furor que Elis Regina causava quando soltava sua voz em rodas informais de música. Depois da apresentação da cantora, ele comentou: “Tem o suingado da mãe”.
O repertório traz três inéditas de Gil: “Quatro coisas”, “Pronto pra preto” — que forma um bloco em homenagem à África com “Um banda um”, a única canção que não soa bem no formato de dois violões, e “La renaissance africaine” — e a linda “Das duas, uma”, feita a pedido da filha Maria, que se casou recentemente. “Se por ventura a vida dura lhes for madrasta e voraz/ Sejam capazes, audazes e bons/ Façam das pazes noturnos bombons”.
No encerramento, Gil recebeu outro filho, o baixista José Gil, para cantar “Refavela”, “Alapalá” e “Expresso 2222”.
Vale elogiar a dinâmica da gravação do DVD, dirigido por Andrucha Waddington. Gil repetiu apenas duas canções, “Flora” e “O rouxinol”, depois do show, e ainda atendeu a um pedido do público: “Se eu quiser falar com Deus”.



twitter
in O Globo, 02.10.2009
 
3017 registros:  |< < 286 287 288 289 290 291 292 293 > >|