Gilberto Gil lança álbum pela internet

Luiz Fernando Vianna

Doze anos depois de ser o primeiro artista brasileiro de ponta a lançar uma canção pela internet (exatamente "Pela Internet"), Gilberto Gil lançou ontem um disco inteiro pela rede: "Banda Larga Cordel", que chegará às lojas em junho.
Porém, os melhores momentos das mais de duas horas de entrevista coletiva virtual remeteram a 40 anos atrás. Parece uma contradição, mas não é, ao menos para Gil. Ele vê no mundo digital de hoje a concretização das idéias tropicalistas.

"São tempos irremediavelmente tropicalistas, porque o tropicalismo era a capacidade de operar com fragmentos, o que hoje é a linguagem corrente", disse ele, que respondeu num estúdio a perguntas enviadas por meio de um chat por jornalistas de vários países.

Gil concordou com uma repórter que opôs à sua visão otimista do mundo digital a pessimista de parte da "geração 68".

"A esquerda sacrificada, que era comprometida com uma idéia de revolução, tem uma tendência justificada, por causa de traumas, a ter uma leitura pessimista desse maravilhoso mundo novo. Eu nunca acreditei muito na possibilidade de um comunismo idealizado. Fui fazer o tropicalismo, execrado por essa visão racionalista."

Por enquanto, "Banda Larga Cordel" só estará disponível na internet para streaming (a pessoa pode ouvir as músicas, mas não baixá-las para seu computador). Em 17 de junho, quando os CDs (um com 14 faixas e outro com 16) serão lançados em 24 países, as canções estarão à venda em lojas virtuais.

"É a primeira vez que não me preocupo com a ordem [das faixas] de um disco", disse ele, prevendo para breve lançamentos musicais apenas por meio da internet.
"Será tudo pelo terminal de TV. Nos Estados Unidos, o disco físico já é quase peça de museu. Aqui, ainda temos necessidade de uma segunda ou terceira abolição, para que todos tenham acesso às máquinas do mundo contemporâneo."

Gil não respondeu a perguntas específicas sobre o Ministério da Cultura -do qual vai se licenciar em junho e julho para uma turnê. Mas deixou claro que sairá em breve.

"Passei quatro anos sem deixar espaço para inspiração. Agora, estou retomando o processo criativo. Sei que não vou ser ministro a vida inteira. Daqui a pouco acaba. Esse disco é para dizer: "Estou de volta, me reconciliei com a musa"."

A maior parte das músicas é inédita em disco, como "Despedida de Solteira", "Não Tenho Medo da Morte", "O Oco do Mundo", "Máquina de Ritmo" e "Canô" -feita para a mãe de Caetano Veloso. Outras já tiveram outros registros, como "Os Pais" e "Outros Viram" (parcerias com Jorge Mautner), "A Faca e o Queijo" (para Flora, sua mulher), "Samba em Los Angeles" (do disco "Nightingale", de 68) e "Formosa" (Baden Powell/ Vinicius de Moraes).



twitter
in Folha de São Paulo, 15.05.2008
 
3017 registros:  |< < 288 289 290 291 292 293 294 295 > >|