Novo disco tem muito da visão de um ministro da cultura, diz Gilberto Gil

Músico baiano participou de entrevista virtual sobre o álbum 'Banda larga cordel'.
Trabalho será lançado em junho; artista faz shows no Brasil a partir de agosto.


Gilberto Gil está de volta ao mundo artístico. O músico baiano e atual ministro da cultura falou à imprensa nesta quarta-feira (14) em entrevista coletiva virtual sobre o seu mais novo álbum, “Banda larga cordel”, que será lançado no dia 17 de junho no Brasil e em diversos outros países. As faixas estarão disponíveis em streaming na internet a partir desta quinta-feira. O último disco de inéditas de Gil foi "Quanta", de 1997.

“Passei os últimos quatro anos sem compor por causa dos compromissos públicos, e agora estou fazendo a minha reentrada no mundo artístico. Este disco é pra dizer ‘estou de volta, reconciliado’”, declarou.

Segundo o artista de 65 anos, seu novo trabalho, produzido por Liminha, “tem muito da visão de um ministro de cultura”. “Estou me sentindo muito mais livre com o processo criativo, e isso tem a ver com a pequena contribuição que tenho dado como homem público. Aliás, a arte da prestação de serviço [à sociedade] é algo que a humanidade tem de incorporar. Estou mais feliz por ser um ser humano no sentido integral.”

‘Tropicalista até morrer’

“Sempre tive esse fetiche com as máquinas. Elas são quase extensões do corpo humano”, falou. “As rodas dos carros são extensões das pernas, os microfones são extensões das gargantas. ‘Parabolicamará’ (1991) já representava essa junção do mundo técnico e do mundo artístico, e ‘Banda larga cordel’ faz isso de novo. Espero que eu não vire um especialista nisso”, brincou.

“Uma vez tropicalista, tropicalista até morrer”, comentou. “É a idéia de unir o local e o global. Eu já falava sobre o tema em outros trabalhos mais antigos. Músicas como ‘Cérebro eletrônico’ e ‘Futurível’ (1969) são exemplos. Na própria construção do disco, na época, o maestro Rogério Duprat utilizou recursos que estão sendo usados agora, ele fez coisas incríveis em termos de experimentos sonoros.”
Para o músico, sentir-se mais livre também tem a ver com a idade. “Estou entrando nos últimos quarteirões da minha vida, e tenho de lidar com a finitude de maneira mais séria. Os jovens tendem a flertar com a idéia da imortalidade, e a idade te pressiona a se estabilizar. O ser maduro é mais consciente de que está instalado na fresta entre a vida e a morte”, disse Gil, que planeja fazer shows em São Paulo e no resto do Brasil a partir de agosto, quando voltar de sua excursão pelos EUA e pela Europa.

Na nova turnê, Gil apresentará suas composições mais recentes – incluindo “Banda larga cordel”, “Não grude não” e “A faca e o queijo” – acompanhado de Arthur Maia (baixo), Alex Fonseca (bateria), seu filho Bem Gil (guitarra), Sergio Chiavazzolli (guitarra), Claudio Andrade (teclados) e Gustavo de Dalva (percussão).

Software livre

Defensor da licença Creative Commons, Gil diz que o recurso é “um experimento gradual”. “As formas de distribuição ainda requerem que você siga antigos padrões, é um aprendizado e as possibilidades têm de ser usadas moderadamente pra não tomar um porre de liberalização que não vai dar em nada. Eu estaria blefando se achasse que isso não faz sentido nenhum.”

“Veja o exemplo do tecnobrega no Pará”, continuou. “Os artistas editam os discos e vendem o material logo depois dos shows. Isso possibilita uma cena própria que se desenvolve e se remunera. Há muitas bandas que constroem carreiras produtivas e comerciais. Essas são realidades que se multiplicam cada vez mais.”

Foto: Divulgação
Divulgação
O músico e ministro da cultura Gilberto Gil. (Foto: Divulgação)

O músico disse ainda que pretende desenvolver idéias que possibilitem disponibilizar seus fonogramas para uso público. “Meu diálogo com a Warner tem sido interessante”, falou. “Vamos criar um espaço chamado provisoriamente de ‘recanto para recombinações criativas’, ou seja, vamos disponibilizar as vozes das canções, partes instrumentais, versões alternativas, para que as pessoas possam reprocessar essas faixas da maneira que quiserem e criar novos produtos.”

Segundo Gil, também faz parte dos planos “pensar novas formas de licenciamento para usos comerciais”. “Será um espaço experimental aberto”, disse o músico, comentando que em ‘Banda larga cordel’ abriu mão do conceito de álbum. “São 16 faixas, o máximo que eu poderia querer era dar um título. Esse álbum representa o alargamento de todas as bandas e a poesia popular. O título foi o máximo de amarração que pude dar ao repertório, já que na era digital as pessoas podem comprar músicas soltas nas lojas virtuais.”

Novas tecnologias

Seguindo o conceito de fragmentação, o público dos shows continuará sendo estimulado a fazer registros e gravações com câmeras digitais e celulares. Os shows, bastidores e viagens serão lançados na rede, na medida do possível, nas mais variadas plataformas virtuais. “As câmeras vão estar em todos os lugares”, ressaltou.

Mesmo com tanta consciência a respeito do assunto, Gil diz que se considera um usuário “menos do que básico” das novas tecnologias. “Não tenho iPod, lá em casa quase todo mundo tem. O computador eu uso para escrever textos, receber e mandar e-mails. Outro dia descobri um programa de gravação que permite a abertura de múltiplos canais, enfim, um pequeno estúdio de que fica no computador. É possível que eu comece a usá-lo.”

E como o cordel citado no disco sobrevive na era digital? “Eu não sei até que ponto as associações de trovadores estão pensando no impacto das novas tecnologias na vida deles e na produção deles. Como seria uma versão computadorizada do cordel? Daqui a pouco eles vão ter de pensar como é que vai ficar isso. Vai ser o que eles quiserem, se quiserem. Podem escolher, podem optar pela extinção, assim como aconteceu com os dinossauros ou os Maias, que se deixaram desaparecer. Mas aquilo ainda vai ficar como um fetiche durante muito tempo.”



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in G1, 14.05.2008
 
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