Gil tem ótimas respostas. E melhores perguntas

O artista Gilberto Gil foi um ministro da Cultura fascinante. Como repórter, cobri sua gestão tão insistentemente que, a certa altura, o ministro já me reconhecia entre a turma de jornalistas que invariavelmente estavam à sua espera na saída de cada evento oficial de que ele tomava parte. Muitas vezes, Gil, a quem eu invariavelmente chamava de “senhor”, conforme exige a liturgia do cargo, devolvia meu interesse com um gesto de grande cortesia. Antes de dar a conversa com o grupo de repórteres por encerrada, ele dizia: “Podemos terminar aqui? Mais alguma pergunta, Silvana?”.

Sempre havia mais uma pergunta, porque o assunto da cultura é inesgotável.

Fora do ministério, o artista Gilberto Gil continuou formulando e respondendo perguntas, mas em outro tom. Com Ana Oliveira, lançou Disposições amoráveis (Editora Iya Omin), que reúne diálogos seus com pensadores de diversas áreas e é um ótimo registro do pensamento atual do próprio Gil e do percurso que o levou a decantar suas ideias. Para o Canal Brasil, gravou Amigos, sons e palavras, em que assume o papel do perguntador numa conversa com pessoas próximas.

Íntimo dos mistérios do mundo (Se eu sou algo incompreensível/Meu Deus é mais), Gilberto Gil parece à vontade com a assertiva roseana de que “vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas”.

Em Ok ok ok, carro-chefe de seu novo disco, ele observa: “Ainda querem a minha opinião/Um papo reto sobre o que eu pensei/Como interpreto a tal, a vil situação”. Consciente das demandas, mas mais ainda fiel ao seu modo de ser, responde: “Me calo sobre as certezas e os fins/Meu papo reto sai sobre patins/ A deslizar sobre os alvos e as metas”.

Quando a função pública e a voz de cantor tornaram-se alternativas excludentes, o ministro Gilberto Gil decidiu entregar o cargo. Naquela que foi sua última coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, antes de formalizar o pedido de saída, quebrei o protocolo das indagações. Antes de pedir que escolhesse uma música de seu repertório para resumir o que foi sua gestão à frente do Ministério da Cultura, afirmei que, da perspectiva da repórter, “deixar você ir não vai ser bom”.

“As coisas vão e vêm. Deixa as coisas irem, Silvana”, disse o senhor ministro, embora eu desconfie de que tenha partido do artista Gilberto Gil essa resposta. E eis que, muitos anos depois, a estreia da turnê de Ok ok ok veio dar nesta cidade sem praia de onde eu havia ido, mas para a qual vim de volta. Os ingressos esgotados do show desta noite confirmam que muitos ainda querem a opinião de Gil, na forma de perguntas ou de respostas. Seja como ele decidir entregá-las ao seu público, só resta dizer: seja muito bem-vindo, ministro/artista.



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in Estado de Minas - BH, 24.11.2018
 
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