O passo à frente de Caetano Veloso e Gilberto Gil

Augusto de Campos

   

Em dois artigos que escrevi, há mais de um ano atrás, "Da Jovem Guarda a João Gilberto" e "Boa Palavra sobre a Música Popular", previ, de certa forma, as transformações mais recentes da música popular brasileira e o papel relevante que nelas haveria de ter um jovem sobre o qual pouco se falava então: Caetano Veloso.

Numa época em que os pruridos dos puristas do samba estavam à flor da pele devido ao sucesso da jovem guarda, chamei a atenção - no primeiro daqueles artigos - para alguns aspectos positivos desse movimento musical. Mostrei, por exemplo, que enquanto a música popular de raízes nacionalistas, apelando à teatralização e a técnicas derivadas do bel canto, descambava para o "expressionismo" interpretativo e voltava a incidir no gênero grandiloqüente, épico-folclórico, de que a bossa-nova parecia ter-nos livrado para sempre, a jovem guarda de Roberto e Erasmo Carlos estava muito mais próxima, sob o aspecto da interpretação, da sobriedade de João Gilberto e conquistava o público, descontraidamente, usando "só a lâmina da voz", "sem a arma do braço".

Desenvolvi o tema no segundo artigo, para afirmar a inocuidade da "guerra santa" que muitos moviam ao iê-iê-iê, sem perceberem a lição que esse fato novo musical estava dando, de graça, para a música popular brasileira.

Como disse naquela oportunidade, os novos meios de comunicação de massa, jornais e revistas, rádio e televisão, têm suas grandes matrizes nas metrópoles, de cujas, "centrais" se irradiam as informações para milhares de pessoas de regiões cada vez mais numerosas. A intercomunicabilidade universal é cada vez mais intensa e mais difícil de conter, de tal sorte que é literalmente impossível a qualquer pessoa viver a sua vida diária sem de defrontar a cada passo com o Vietnã, os Beatles, as greves, 007, a Lua, Mao ou o Papa. Por isso mesmo, seria inútil preconizar uma impermeabilidade nacionalística aos movimentos, modas e manias de massa que fluem e refluem de todas as partes para todas as partes. Marx e Engels já o anteviam: "Em lugar do a ntigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolve-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se propriedade comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; das inúmeras literaturas nacionais e locais, nasce uma literatura universal".

Era difícil encontrar, àquela altura, quem concordasse com essas idéias. Era o momento prós-protesto da Banda e da Disparada. Saudades do interior. Saudades do sertão. Crise de nostalgia dos bons tempos d´antanho. Pode ter servido para tonificar, momentaneamente, a abalada populariedade da nossa música popular. Mas eu já adivinhava que a solução não poderia ser voltar para trás. A Banda e a Disparada passariam e deixariam tudo no seu lugar, como estava: Chico, por certo, um grande compositor (já o era antes), e a jovem guarda com seu prestígio inalterado. Impossível fazer o novo com o velho. Pois o novo ainda era Tom & João. E foi justamente por não temer as influências e por ter tido coragem de atualizar a nossa música com a assimilição das conquistas do jazz, até então a mais moderna música popular do Ocidente, que a bossa-nova deu a virada sensacional na música brasileira, fazendo com que ela passasse, logo mais, de influenciada a influenciadora do jazz, conseguindo que o Brasil passasse a exportar para o mundo produtos acabados e não mamis matéria-prima musical (ritmos exóticos), "macumba para turistas", segundo a expressão de Oswald de Andrade.

Numa entrevista de Caetano Veloso para a Revista Civilização Brasileira, n. 7 (maio 66), descobri o que me pareceu ser a mais lúcida autocrítica da música popular brasileira, naquele impasse: "Só a retomada da linha evolutiva - dizia Caetano - pode nos dar uma organicidade para selecionar e ter um julgamento de criação".

Tão justas me pareceram as palavras de Caetano Veloso que quis fazer delas o lema e o tema do meu artigo, intitulado, por isso, "Boa Palavra sobre a Música Popular", em alusão à música Boa Palavra com que o compositor concorrera ao 2.o Festival de Música Popular, na TV-Excelsior de São Paulo. "É preciso saudar Caetano Veloso - escrevi - e sua oportuna rebelião contra a "ordem do passo atrás".

A atualidade dessas considerações justifica - espero - a sua revivescência, agora que as músicas apresentadas por Caetano e Gil no recente Festival da Record vêm confirmar as minhas previsões, operando o salto para a frente prometido na "boa palavra" do jovem compositor. Pois Alegria, Alegria e Domingo no Parque são, precisamente, a tomada de consciência, sem máscara e sem medo, da realidade da jovem guarda como manifestação de massa de âmbito da música popular brasileira, no sentido da abertura experimental em busca de novos sons e novas letras.

Ainda antes do "fato musical" do último Festival, um evento que passou meio despercebido ao grande público, o LP "Gal e Caetano Veloso", saído este ano, confirmava, a meio caminho, a posição sempre lúcida do compositor baiano. Falando de Gal Costa - essa excepcional cantora que ainda não teve a oportunidade de aparecer como mecere -, Caetano voltava a denotar sua preocupação com o novo: "Gal participa dessa qualidade misteriosa que habita os raros grandes cantores do samba: a capacidade de inovar, de violentar o gosto contemporâneo, lançando o samba para o futuro, com as espontaneidade de quem relembra velhas musiquinhas". E, mais adiante: "Acho que cheguei a gostar de cantar essas músicas porque minha inspiração agora está tendendo pra caminhos muito diferentes dos que segui até aqui. (...) A minha inspiração não quer mais viver apenas da nostalgia de tempos e lugares, ao contrário, quer incorporar essa saudade num projeto do futuro". Nesse disco, que engloba as primeiras composições de Caetano ao lado de algumas mais recentes, como Um Dia, e de outras de Edu, Gil e Sidney Miller, aparece já bem nítida, para quem souber ouvir, a grande personalidade musical do futuro autor de Alegria, Alegria, sob o signo geral da "saudade da Bahia". Aliás, o que se verifica não é um corte brusco, mas uma verdadeira continuidade entre as letras das músicas "É de manhã, Um dia e Alegria, Alegria, todas elas com uma semântica itinerante, definida pelos temas-refrões que têm como dominante o verbo "ir": de "vou pela estrada / e cada estrela é uma flor etc." (É de manhã) e "vou voltanod pra você", "vou voltando como um dia" (Um Dia), ao singelo "Eu vou" de Alegria, Alegria. Denotando a influência de João Gilberto, Jobim e Caymmi, o jovem baiano se notabiliza pelos achados de suas letras e por uma incomum invenção melódica. Um Dia, a mais madura das composições do disco ( onde há outras coisas definitivamente belas como Meu coração vagabundo e Quem me dera), tem achados desta qualidade: "no brilho longo dos trilhos", "entre avencas verde brisa", "como um dia numa festa / realçavas a manhã / luz de sol, janela aberta / festa em verde o teu olhar".

Embora premiado nos Festivais da Excelsior e da Record, com Boa Palavra e Um Dia (prêmio de letra), Caetano Veloso só se tornou popular mesmo, em São Paulo, por um acidente: a participação no programa "Esta Noite se Improvisa", onde o seu conhecimento musical e sua simpatia, o seu "coração de criança", lhe granjearam uma estima pessoal do público, repetindo-se o que acontecera com Chico Buarque de Hollanda. Dessa conquista individual, partiria o compositor para a conquista musical de auditório, assumindo todos os riscos do desafio explosivo de sua Alegria, Alegria. Caetano não foi o vencedor do Festival. Mas venceu todos os preconceitos do público, acabando com a "discriminação" musical entre MPB e jovem guarda. Alegria, Alegria estabeleceu uma "ponte de amizade" entre essas manifestações da nossa música jovem; e, mais ainda; sendo, com Domingo no Parque, a mais original, acabou também como a mais popular das composições laureadas do Festival.



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in Livro Gilberto Gil Expresso 2222, 30.11.1973
 
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