Entrevista
Laymert Garcia dos Santos

Como você vê o impacto da cultura digital?

O impacto o digital na cultura é imenso e as pessoas não têm muita noção do que isso significa, porque as pessoas pensam que a cultura pode ser a mesma no mundo digital, ou que a cultura pode ser a mesma, você digitalizando a cultura, levando-a, digamos, para o mundo digital. Traduzindo para o mundo digital. Na minha perspectiva, é outra história, porque não se trata só de uma digitalização da cultura, mas da criação de uma outra cultura, com outros referenciais, com uma outra cientificidade operatória (ou seja, uma outra maneira, um outro conceito de cultura) e uma outra maneira de conceber o que deve ser considerado ou não cultura e de como é que você olha as outras culturas, que não são a cultura de um cibernético. Eu prefiro chamar cultura cibernética do que cultura só digital. Inclusive porque eu considero que essa cultura cibernética trata a cultura moderna como uma cultura tradicional, apagando a fronteira que existia aqui entre o tradicional e o moderno (as chamadas culturas tradicionais e a cultura moderna). E, ao tratar a cultura moderna como também sendo de um outro tempo, como cultura tradicional, ela permite uma reavaliação completa das outras culturas com relação ao moderno, e da moderna e das tradicionais com relação a essa cibercultura. Então é uma questão muito maior do que só uma utilização, uma tradução ou transposição do que é cultura para o mundo digital ou, enfim, para a chamada realidade virtual. É muito mais do que isso. É uma reconfiguração da própria noção de cultura e da noção de conhecimento, inclusive, que está junto com a noção de cultura. Foucault percebeu que talvez a gente esteja indo para uma formação outra, esteja entrando numa outra formação histórica e que há uma transformação de fundo no campo da vida, do trabalho e da linguagem. Que são os três campos fundamentais para mostrar que nós estamos caminhando para uma outra configuração. Hemínio Martines, um sociólogo da tecnologia português, que era professor em Oxford, um erudito que realmente acompanha o processo de evolução, fez um mapeamento, depois da virada cibernética, do que é que se cibernetizou, e fala da física à teologia. Quer dizer, passa de todo o campo das ciências chamadas duras, para ciências humanas, para filosofia, para os estudos de linguagem, para a teologia – o que dá uma idéia da reconfiguração, do próprio modo de entender o mundo, o entendimento do humano. Portanto, toda a cultura está passando por esse processo de transformação. E o modo como isso é pensado é diferente do que o modo tanto de como essas questões eram pensadas nas culturas tradicionais, quanto na cultura moderna.

Você prefere o termo cibercultura à cultura digital?


Quando você fala cultura digital,está falando só da dimensão novas mídias e está falando, digamos, dos processos de digitalização da cultura. Como eu acho que é mais amplo, eu prefiro cultura cibernética, porque esse termo abrange, até do ponto de vista conceitual, não só os processos todos, mas a transformação da forma que lidamos com eles. Nesse sentido eu prefiro a expressão cibernética ao invés de digital. De qualquer forma, o termo cultura digital já pegou, portanto ele é um elo importante. Mas você pode dar uma consistência maior para esse conceito e fazer entrar nele a dimensão de conhecimento que o referencial é outro, o pensamento é outro e o modo de pensar a cultura é outro. O que estamos vivendo não é um prolongamento do que ocorria antes. No meu entendimento, pelo menos, não é. Há uma ruptura.

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in Cultura Digital.br
Azougue Editorial