Aqui dentro do lado de fora Há algum tempo tento entender o motivo que me leva a gostar tanto dos discos do Los Hermanos. A questão me intriga menos pelo fato de eu ter pouca familiaridade com o universo do indie e do pop rock, mas sobretudo pela própria forma desse “gostar”, que inverte o modo pelo qual eu sempre me aproximei intelectual e afetivamente das canções: o sentido narrativo e poético de suas letras. Ouço incansavelmente as músicas do Los Hermanos sem sequer atentar para o sentido ou mesmo para o tema do que está sendo dito, como se fossem todas cantadas numa língua estranha. Claramente, essa outra forma de audição tem muita relação com o fato de que quase já não ouço música abandonando-me àquele ocioso e ritualizado “tempo estético” da escuta. Os CDs do Los Hermanos combinam bem com a audição dentro do carro, sem encarte na mão, em meio a um trajeto urbano: um eterno meio sem começo nem fim. Assim também parecem ser as canções: umas se emendando nas outras, sem uma marcação clara que as individualizem, gerando um moto-contínuo. Pois bem, ocorre que essa nebulosa de sentido tem um grande poder de encantamento. Quero dizer, me parece que esse tipo de audição traz um torpor (parecido com a experiência de estar sempre em trânsito, no carro) que se soma de modo produtivo a uma energia vital de base, que essas músicas têm, e que conservam a nossa atenção sempre colada nelas – o que não acontece, a meu ver, no disco solo de Marcelo Camelo, um tanto desvitalizado e dispersivo. O resultado é um antilirismo que nos mantém magnetizados na superfície da canção, na medida em que veda qualquer acesso à sua interioridade formal (e também poética, portanto). E como não há a possibilidade de um mergulho vertical, de uma interiorização, a canção não se realiza em nós enquanto experiência, não se metaboliza – daí que ela também não se esgote: todas as audições parecem ser sempre a primeira. O curioso é que, por essa descrição, eu poderia estar me referindo a grupos de rock hardcore, ou de música eletrônica, ou a trabalhos experimentais muito exigentes, cuja exterioridade radical da forma tivesse paralelo com a assepsia antissubjetiva e puritana da Minimal Art, por exemplo. E, no entanto, estou falando de um grupo pop contemporâneo de enorme sucesso comercial, particularmente entre os adolescentes. E é nesse ponto que a coisa fica realmente intrigante. O universo entrópico do Los Hermanos está a milhas e milhas de distância da trova verborrágica e linear do Legião Urbana, que é, provavelmente, o seu equivalente de vinte anos atrás. Comecei a entender isso melhor assitindo ao show do Radiohead, e curtindo não apenas a música, mas também o seu forte apuro visual, baseado em uma atmosfera sofisticada de luzes e imagens em movimento. Tudo é exteriorizado sem, no entanto, ser dançante e catártico. Há uma espécie de alucinação letárgica. Esse é um interessante sinal dos tempos: se na Arte Minimalista dos anos 60 a exterioridade opaca da forma industrial declarava o fim da interioridade (a “morte do sujeito”), o sensualismo cool da arquitetura contemporânea pós-industrial, dita “minimalista” (sic), mantém a promessa de um interior velado sob o mistério de capas de vidro leitoso ou jateado em back-light: “peles”, “véus” ou “escamas” de luz. Hoje, se diz que a ênfase da arquitetura se deslocou do esqueleto para a pele, isto é, da estrutura para o invólucro externo, que vai ganhando um aspecto orgânico ou biomórfico, e deslocando a essência mecânica da construção para a sua dimensão energética. É uma arquitetura “viva” e “vestida”, muito mais fashion do que maquinista. O que está sendo cancelado, com isso, é exatamente a essência metalingüística de toda arte moderna: a clara exposição do seu funcionamento, do seu processo de constituição, aquilo que nos dava a possibilidade da experiência formal através da arte como algo transformador. Tanto nas canções do Los Hermanos e do Radiohead quanto nos edifícios de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, por exemplo, ficamos presos na exterioridade anêmica e sensual da forma, entretidos pela miragem de um interior que se insinua a todo momento, mas que, no entanto, nunca acessaremos. Guilherme Wisnik é arquiteto e ensaísta, mestre em História Social pela USP e crítico de arquitetura da Folha de S. Paulo. |
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