Extra
Gilberto Gil
Baixa
Santo Salvador
Baixa
Seja como for
Acha
Nossa direção
Flecha
Nosso coração
Puxa
Pelo nosso amor
Racha
Os muros da prisão
Extra
Resta uma ilusão
Extra
Resta uma ilusão
Extra
Abra-se cadabra-se a prisão
Baixa
Cristo ou Oxalá
Baixa
Santo ou orixá
Rocha
Chuva, laser, gás
Bicho
Planta, tanto faz
Brecha
Faça-se abrir
Deixa
Nossa dor fugir
Extra
Entra por favor
Extra
Entra por favor
Extra
Abra-se cadabra-se o temor
Eu, tu e todos no mundo
No fundo, tememos por nosso futuro
ET e todos os santos, valei-nos
Livrai-nos desse tempo escuro
BRWMB9900486
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
voz e guitarra – Gilberto Gil
memory moog – Jorjão Barreto
baixo, guitarra e bateria digital – Liminha
trompete – Bidinho
sax – Leo Gandelman
Outras gravações:
“Acústico Negra”, Cidade Negra, Sony Music
“Felicidade urgente”, Elba Ramalho, Polygram Music
“Desassossego”, Isabel Padovani, Eldorado
“Telma Tavares”, Telma Tavares, ROB Digital
“Cores vivas”, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, Tratore Distribuição de CD 2015
“A música foi inspirada pelo conjunto de referências da literatura que associava as aparições descritas na Bíblia (o anjo Gabriel, as carruagens de fogo) a seres extraterrenos e discos voadores. É, nesse sentido, tardia para mim, porque não corresponde ao momento do meu interesse profundo por essas coisas. Para mim, o assunto esteve mais em voga na década de 70, em Londres e na volta ao Brasil, na época do Refazenda, do general Uchôa e das reuniões de ufologia. Extra chegou, portanto, dez anos depois. É uma espécie de oração, de pedido de socorro, de invocação aos céus, na expectativa de que a vinda do ET, assimilado a um santo, traga um melhoramento do ser humano e da vida no planeta Terra.”
E lá poeira
Gilberto Gil
Beto Saroldi
Celso Fonseca
Gerson Santos
Jorjão Barreto
Repolho
Rubens Sabino (Rubão)
Wilson Meirelles
Elá, poeira
Elá, poeira
Poeira, iaiá Maria
Poeira, que levantou
Por causa da ventania
Que o seu samba provocou
Você quando rodopia
É pior que um furacão
Ainda bem que vem da alegria
A poeira desse chão
Elá, poeira
Elá, poeira
Poeira, iaiá Maria
Leva um dia pra assentar
Por causa dessa magia
Que você deixa no ar
Você quando rodopia
É pior que um furacão
Ainda bem que é de alvenaria
Que é feito meu barracão
BRWMB9900487
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
arranjo – Gilberto Gil
voz e guitarra – Gilberto Gil
piano Rhodes e vocais – Gerson Santos
moog, OBXA, piano acústico e vocais – Jorjão Barreto
congas – Repolho
arranjo – Liminha
bateria – Téo Lima
vocal – Nara Gil e Neila Carneiro
timbales, cowbell, pandeiro e ganzá – Chacal
Outras gravações:
“Tonho Materia”, Tonho Materia, Polygram
Mar de Copacabana
Gilberto Gil
Já mandei lhe entregar o mar
Que você viu
Que você pediu pra eu dar
Outro dia em Copacabana
Talvez leve uma semana pra chegar
Talvez entreguem amanhã de manhã
Manhã bem seda tecida de sol
Lençol de seda dourada
Envolvendo a madrugada toda azul
Quando eu fui encomendar o mar
O anjo riu
E me pediu pra aguardar
Muita gente quer Copacabana
Talvez leve uma semana pra chegar
Assim que der, ele traz pra você
O mar azul com que você sonhou
No seu caminhão que desce
Do infinito e que abastece o nosso amor
Se o anjo não trouxer o mar
Há mais de mil
Coisas que ele pode achar
Tão lindas quanto Copacabana
Talvez tão bacanas que vão lhe agradar
São tantas bijuterias de Deus
Os sonhos, todos os desejos seus
Um mar azul mais distante
E a estrela mais brilhante lá do céu
BRWMB9900488
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
arranjo – Gilberto Gil
voz e violão Ovation – Gilberto Gil
guitarra – Celso Fonseca
piano Rhodes, memory moog, synergy e GSII – Jorjão Barreto
tamborim – Repolho
baixo – Rubens Sabino (Rubão)
bateria – Wilson Meirelles
arranjo – Gilberto Gil e Banda Um
Outras gravações:
“Samba academia”, Banda Academia, John Kenedy De Araújo 2010
“Tourada”, Eduardo Gomes, Eduardo Porfirio Gomes 2004
“Elisa Addor”, Elisa Addor, Bolacha Entretenimento 2011
“Em concerto”, Gilberto Gil, Geleia Geral 1987
“The very best of Gilberto Gil the soul of Brazil”, Gilberto Gil, Warner Music 2005
“Extra”, Gilberto Gil, Warner Music 2002
“Les indispensables de Gilberto Gil”, Gilberto Gil, Warner Music 1989
“Songbook Gilberto Gil 1”, Leny Andrade, Lumiar 1992
“Lumiar e trama apresentam coleção songbook vol. 2 por Almir Chediak”, Leny Andrade, Lumiar 2005
“Copacabana Palace – onde o Rio é mais glamour”, Leny Andrade, Universal Music 2006
“A máquina – trilha sonora do filme”, Maciel Salu 2005
“Ituaçú – Gilberto Gil”, Orquestra De Sopros Da Pro Arte E Flautistas Da Pro Arte 2012
“Todo azul do mar”, Paulinho da Viola, Dubas- Warner 1998
A linha e o linho
Gilberto Gil
É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão
A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza
BRWMB9900460
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
voz e violão – Gilberto Gil
arranjo – Gilberto Gil
piano Yamaha – Jorjão Barreto
sax-alto – Leo Gandelman
piano Rhodes e memory moog – Serginho Herval
baixo – Nando
Outras gravações:
“Songbook Gilberto Gil 1”, Gal Costa e Marco Pereira, Lumiar Discos 1992
“O amor de uns tempos pra cá”, Andrea Dutra e Marcus Nabuco, Saladesom 2007
“Zé Maurício”, Zé Maurício 2008
“Diogo Poças”, Diogo Poças, Warner Music 2009
“Meu amanhã, Carla Bezerra, Carla Ribeiro Amorim Bezerra 2014
“Tributo MPB”, Gal Costa, Som livre 2013
“Luar”, Gilberto Gil 1998
“Bandadois”, Gilberto Gil, Gege Produções 2009
“Acústico”, Gilberto Gil, Warner Music 2001
“Extra”, Gilberto Gil, Warner Music 1983
“Eletracústico”, Gilberto Gil, Warner Music 2004
“Bandadois”, Gilberto Gil, Warner Music 2009
“Unplugged”, Gilberto Gil, Warner Music 1994
“Gil + 10”, Gilberto Gil & Lenine, Pedra da Gavea 2011
“Ivete, Gil e Caetano”, Universal Music 2011
“Com o som no coração”, Joana D`arc Menegaz 2014
“Nascente musica”, Margareth Reali 1998
“Amor até o fim”, Mauro Senise, Alma brasileira 2016
”Taís Nader”, Taís Nader 2012
“Zé Mauricio”, Zé Maurício, Goinva 2008
“Na vida a dois, a pessoalização do amor; o êxtase pré-samádico; nas gradações religiosas, um estágio no qual, ainda em corpo, tem-se a dimensão divina; um ponto onde humano e sobre-humano superpõem-se.
“Nós estávamos em Paris, no Hotel Meurice, onde Hitler havia feito o seu quartel-general quando da Ocupação, e onde também saiu Extra na mesma ocasião. Flora tinha acabado de adormecer; ainda a acariciei um pouco e já estava entrando num estado de torpor quase sonho, quando me chegaram as primeiras frases. Havia a maciez da pele dela, a do tecido do lençol e os bordados na colcha – todos os elementos; minha sensação era de leveza, paixão e afeto. Aquelas palavras ficaram como que boiando num éter, e eu já tinha me deitado, mas resolvi me levantar e completar a letra toda. No final ainda me lembrei da minha mãe e da minha avó bordando nos panos os motivos que eu cito. Dias depois fiz a música.
“Recentemente, eu recebi de uma família de bordadeiras, mãe e filhas, de Três Marias, interior de Minas, um lenço bordado junto com uma carta de agradecimento pela canção. No lenço, a inscrição ‘A Linha e o Linho’. Para mim foi instigante o fato de, nesses dois substantivos, apenas o o e o a finais os diferenciarem, determinando também a diferença dos sexos. E propiciando que um momento tocante, especial, se transformasse em poesia, como num lance de ilusionismo, prestidigitação.”
Preciso de você
Gilberto Gil
Um dia de glória
Uma triste história de amor
Tudo
Solto na poeira de luz
Atrás do coração
Coração, meu motocross
Das estradas da ilusão
Um dia me acho
Um dia relaxo e gozo
Férias
Paro na soleira da paz
Em frente ao coração
Coração, meu aprendiz
És e hás de ser feliz
Sou a garota papo firme que o Roberto falou
Continuo a merecer
A confiança que essa juventude depositou
No meu jeito de dizer
Tudo que a bondade achar por bem que eu diga
Tudo que a cidade queira ouvir da amiga
E pra que eu prossiga
Eu preciso de você
BRWMB9900489
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
ovation, vocal e percussão – Gilberto Gil
sax – Beto Saroldi
guitarra – Celso Fonseca
piano Rhodes – Gerson Santos
piano Yamaha, memory moog, Synergy e GSII – Jorjão Barreto
conga, pandeiro e cowbell – Repolho
baixo – Rubens Sabino (Rubão)
arranjo – Liminha
voz – Nara Gil
bateria – Téo Lima
arranjo – Gilberto Gil e Banda Um
Punk da periferia
Gilberto Gil
Das feridas que a pobreza cria
Sou o pus
Sou o que de resto restaria
Aos urubus
Pus por isso mesmo este blusão carniça
Fiz no rosto este make-up pó caliça
Quis trazer assim nossa desgraça à luz
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
Ter cabelo tipo índio moicano
Me apraz
Saber que entraremos pelo cano
Satisfaz
Vós tereis um padre pra rezar a missa
Dez minutos antes de virar fumaça
Nós ocuparemos a Praça da Paz
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
Transo lixo, curto porcaria
Tenho dó
Da esperança vã da minha tia
Da vovó
Esgotados os poderes da ciência
Esgotada toda a nossa paciência
Eis que esta cidade é um esgoto só
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
BRWMB9705415
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
arranjo – Gilberto Gil
voz e guitarra – Gilberto Gil
baixo, guitarra e bateria digital – Liminha
solo de sax – Leo Gandelman
bateria – Serginho Herval
Funk-se quem puder
Gilberto Gil
Funk-se quem puder
É imperativo dançar
Sentir o ímpeto
Jogar as nádegas
Na degustação do ritmo
Funk-se quem puder
É imperativo tocar
Fogo nas vértebras
Fogo nos músculos
Música em todos os átomos
A nossa atlântica e atlética
Romântica e poética
República da música
Conclama os físicos, místicos
Bárbaros, pacíficos
Índios e caras-pálidas
Nossos exércitos, políticos
Poder eclesiástico
E o comitê do carnaval
É hora de salvar a pélvis
Soltá-la, libertá-la
Agitá-la como o Elvis
Grande guerreiro e mártir
Da nação do rock’n’roll
Funk-se quem puder
Se é hora da barca virar
Não entre em pânico
Jogue-se rápido
Nade de volta à mãe África
Funk-se quem puder
Se é tudo que resta a fazer
Não perca o ânimo
Chegue mais próximo
Sambe e roque-role o máximo
Na degustação do ritmo
Música em todos os átomos
Nade de volta à mãe África
Sambe e roque-role o máximo
BRWMB9900490
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
arranjo – Gilberto Gil
voz e violão Ovation – Gilberto Gil
arranjo de base e vocal – Gilberto Gil
guitarra – Celso Fonseca
piano Rhodes, Polisix e vocais – Gerson Santos
baixo – Liminha
bateria – Téo Lima
vocal – Pi, Nara Gil e Neila Carneiro
arranjo de metais – Léo Gandelman e Tony Costa
Outras gravações:
“Myrian Eduardo”, Myrian Eduardo
“Cada tempo em seu lugar”, Cacala carvalho e João Braga, Mills Records
“Extra”, Gilberto Gil, Warner Music
Dono do pedaço
Gilberto Gil
Waly Salomão
Antonio Cicero
Sou um gato esperto
Não sou tatu, não
Não sou nem do mato
Quando eu ganho a rua
Eu ganho corpo
Nada eu acho chato
Gingo, tiro chinfra
Dono do pedaço
Escrevo e driblo amor e dor
Soberano, traço
Quem eu quero, eu sei ser
Quadro, giz e apagador
Eu e meus amigos
Temos nesta vida
Poderosos aliados
Cor, calor, sabor da rua
E de repente
Um coração que eu já fiz
Que eu já fiz
Tão feliz
BRWMB9900491
© Gege Edições Musicais / © Warner/Chappell Edições Musicais LTDA.
Ficha técnica da faixa:
arranjo – Gilberto Gil
voz e violão Ovation – Gilberto Gil
arranjo – Liminha
baixo e bateria digital – Liminha
synergy e GSII – Marcos Rezende e Jorjão Barreto
Outras gravações:
“Extra”, Gilberto Gil, Warner Music
Lady Neyde
Gilberto Gil
Antonio Risério
Lady Neyde
Pivete dengosa
Candeia de azeite
Escurinha gostosa
Pandeiro de pele de gata
É chinfra de malê, iaô
Persona muitíssimo grata
Convido-te para um melô
Chispa da Rua do Fogo
E vai me ver no meu barracão
Lá na Ladeira do Caminho Novo
Bate o tambor do meu coração
BRWMB9900492
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
voz e violão Ovation – Gilberto Gil
sax – Beto Saroldi
guitarra – Celso Fonseca
piano Rhodes – Gerson Santos
percussão – Repolho
baixo – Rubens Sabino (Rubão)
bateria – Wilson Meirelles
vocal – Nara Gil e Neila Carneiro
arranjo – Gilberto Gil e Banda Um
O veado
Gilberto Gil
O veado
Como é lindo
Escapulindo pulando
Evoluindo
Correndo evasivo
Ei-lo do outro lado
Quase parado um instante
Evanescente
Quase que olhando pra gente
Evaporante
Eva pirante
O veado
Greta Garbo
Garbo, a palavra mais justa
Que me gusta
Que me ocorre
Para explicar um veado
Quando corre
Garbo esplendor de uma dama
Das camélias
Garbo vertiqualidade
Animália
Anamélia
Ó, veado
Quanto tato
Preciso pra chegar perto
Ando tanto
Querendo o teu pulo certo
Teu encanto
Teu porte esperto, delgado
Ser veado
Ser veado
Ter as costelas à mostra
E uma delas
Tê-la extraída das costas
Tê-la Eva bem exposta
Tê-la Eva bem à vista
BRWMB9900493
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
arranjo – Gilberto Gil
voz e violão Ovation – Gilberto Gil
arranjo – Jorjão Barreto
piano Rhodes e memory moog – Jorjão Barreto
baixo – Liminha
arranjo – Liminha
sax – Leo Gandelman
“O fator estimulante da canção foi a minha fantasia infantil com o animal – bonito e demasiadamente arisco, difícil de ser caçado, fugidio, ágil, lépido, desviando-se com facilidade do perseguidor – associada à visão do estereótipo do homossexual assumido, a bicha louca que faz da sua condição uma linguagem e gosta de se expressar como tal, com um modo de dar ao tórax e à bunda, como nas estátuas gregas, uma proeminência que estes, nas posturas relaxadas, não teriam.
“Naquele momento o tema estava muito associado a nós, artistas que fazíamos a defesa da estética do androginismo – incorporando inclusive a ornamentália feminina em princípio proibida ao homem mas enfim assumida por nossa geração como forma de afirmação de autonomia de idéia, proposta, gosto, de contestação do conservadorismo – e que nos colocávamos contra a histórica perseguição policial e a matança de homossexuais no Rio, em São Paulo, nas grandes cidades, como resultado de uma intolerância social em relação a eles. Por tudo isso, O Veado é uma música ideológica.
“É também a expressão da necessidade que eu sentia de aproximação e compreensão da homossexualidade, e de participação nela. Não sou homossexual (poderia ser, mas não sou), não foi algo necessário na minha vida; mas da veadagem eu faço questão: é o que eu tenho reivindicado sempre para mim. Nesse aspecto, a música é aquilo que o Haroldo de Campos falou muito bem: o ‘veado viável’. É como nós podemos ser veados.
“O interessante é que a letra faz a defesa disso com isso, quer dizer, com uma elaboração que tem a ver com a veadagem mesmo (e que, desse modo, participa dela): com a costura, o bordado, o brocado, o barroco. O encadeamento sonoro é melífluo; as palavras brotam com volúpia, com tempero, condimento, pimenta. E com garbo – de Greta Garbo, ela mesma uma figura andrógina, uma das grandes deusas da veadagem planetária (uma vez eu fiquei hospedado numa casa em Estocolmo onde ela tinha morado).
“Se você é artista, tem que aprender a ser veado. É o meu caso: eu sou aprendiz.”
E lá poeira
Gilberto Gil
Beto Saroldi
Celso Fonseca
Gerson Santos
Jorjão Barreto
Repolho
Rubens Sabino (Rubão)
Wilson Meirelles
Elá, poeira
Elá, poeira
Poeira, iaiá Maria
Poeira, que levantou
Por causa da ventania
Que o seu samba provocou
Você quando rodopia
É pior que um furacão
Ainda bem que vem da alegria
A poeira desse chão
Elá, poeira
Elá, poeira
Poeira, iaiá Maria
Leva um dia pra assentar
Por causa dessa magia
Que você deixa no ar
Você quando rodopia
É pior que um furacão
Ainda bem que é de alvenaria
Que é feito meu barracão
BRWMB0201319
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
voz e guitarra – Gilberto Gil
Outras gravações:
“Tonho Materia”, Tonho Materia, Polygram
Punk da periferia
Gilberto Gil
Das feridas que a pobreza cria
Sou o pus
Sou o que de resto restaria
Aos urubus
Pus por isso mesmo este blusão carniça
Fiz no rosto este make-up pó caliça
Quis trazer assim nossa desgraça à luz
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
Ter cabelo tipo índio moicano
Me apraz
Saber que entraremos pelo cano
Satisfaz
Vós tereis um padre pra rezar a missa
Dez minutos antes de virar fumaça
Nós ocuparemos a Praça da Paz
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
Transo lixo, curto porcaria
Tenho dó
Da esperança vã da minha tia
Da vovó
Esgotados os poderes da ciência
Esgotada toda a nossa paciência
Eis que esta cidade é um esgoto só
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
BRWMB0201321
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
guitarra – Gilberto Gil
Punk da periferia
Gilberto Gil
Das feridas que a pobreza cria
Sou o pus
Sou o que de resto restaria
Aos urubus
Pus por isso mesmo este blusão carniça
Fiz no rosto este make-up pó caliça
Quis trazer assim nossa desgraça à luz
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
Ter cabelo tipo índio moicano
Me apraz
Saber que entraremos pelo cano
Satisfaz
Vós tereis um padre pra rezar a missa
Dez minutos antes de virar fumaça
Nós ocuparemos a Praça da Paz
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
Transo lixo, curto porcaria
Tenho dó
Da esperança vã da minha tia
Da vovó
Esgotados os poderes da ciência
Esgotada toda a nossa paciência
Eis que esta cidade é um esgoto só
Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia
BRWMB0201320
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
voz e guitarra – Gilberto Gil
Funk-se quem puder
Gilberto Gil
Funk-se quem puder
É imperativo dançar
Sentir o ímpeto
Jogar as nádegas
Na degustação do ritmo
Funk-se quem puder
É imperativo tocar
Fogo nas vértebras
Fogo nos músculos
Música em todos os átomos
A nossa atlântica e atlética
Romântica e poética
República da música
Conclama os físicos, místicos
Bárbaros, pacíficos
Índios e caras-pálidas
Nossos exércitos, políticos
Poder eclesiástico
E o comitê do carnaval
É hora de salvar a pélvis
Soltá-la, libertá-la
Agitá-la como o Elvis
Grande guerreiro e mártir
Da nação do rock’n’roll
Funk-se quem puder
Se é hora da barca virar
Não entre em pânico
Jogue-se rápido
Nade de volta à mãe África
Funk-se quem puder
Se é tudo que resta a fazer
Não perca o ânimo
Chegue mais próximo
Sambe e roque-role o máximo
Na degustação do ritmo
Música em todos os átomos
Nade de volta à mãe África
Sambe e roque-role o máximo
BRWMB0201610
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
voz e violão Ovation – Gilberto Gil
Outras gravações:
“Myrian Eduardo”, Myrian Eduardo
“Cada tempo em seu lugar”, Cacala carvalho e João Braga, Mills Records
“Extra”, Gilberto Gil, Warner Music
O veado
Gilberto Gil
O veado
Como é lindo
Escapulindo pulando
Evoluindo
Correndo evasivo
Ei-lo do outro lado
Quase parado um instante
Evanescente
Quase que olhando pra gente
Evaporante
Eva pirante
O veado
Greta Garbo
Garbo, a palavra mais justa
Que me gusta
Que me ocorre
Para explicar um veado
Quando corre
Garbo esplendor de uma dama
Das camélias
Garbo vertiqualidade
Animália
Anamélia
Ó, veado
Quanto tato
Preciso pra chegar perto
Ando tanto
Querendo o teu pulo certo
Teu encanto
Teu porte esperto, delgado
Ser veado
Ser veado
Ter as costelas à mostra
E uma delas
Tê-la extraída das costas
Tê-la Eva bem exposta
Tê-la Eva bem à vista
BRWMB020161
© Gege Edições Musicais
Ficha técnica da faixa:
voz e violão Ovation – Gilberto Gil
“O fator estimulante da canção foi a minha fantasia infantil com o animal – bonito e demasiadamente arisco, difícil de ser caçado, fugidio, ágil, lépido, desviando-se com facilidade do perseguidor – associada à visão do estereótipo do homossexual assumido, a bicha louca que faz da sua condição uma linguagem e gosta de se expressar como tal, com um modo de dar ao tórax e à bunda, como nas estátuas gregas, uma proeminência que estes, nas posturas relaxadas, não teriam.
“Naquele momento o tema estava muito associado a nós, artistas que fazíamos a defesa da estética do androginismo – incorporando inclusive a ornamentália feminina em princípio proibida ao homem mas enfim assumida por nossa geração como forma de afirmação de autonomia de idéia, proposta, gosto, de contestação do conservadorismo – e que nos colocávamos contra a histórica perseguição policial e a matança de homossexuais no Rio, em São Paulo, nas grandes cidades, como resultado de uma intolerância social em relação a eles. Por tudo isso, O Veado é uma música ideológica.
“É também a expressão da necessidade que eu sentia de aproximação e compreensão da homossexualidade, e de participação nela. Não sou homossexual (poderia ser, mas não sou), não foi algo necessário na minha vida; mas da veadagem eu faço questão: é o que eu tenho reivindicado sempre para mim. Nesse aspecto, a música é aquilo que o Haroldo de Campos falou muito bem: o ‘veado viável’. É como nós podemos ser veados.
“O interessante é que a letra faz a defesa disso com isso, quer dizer, com uma elaboração que tem a ver com a veadagem mesmo (e que, desse modo, participa dela): com a costura, o bordado, o brocado, o barroco. O encadeamento sonoro é melífluo; as palavras brotam com volúpia, com tempero, condimento, pimenta. E com garbo – de Greta Garbo, ela mesma uma figura andrógina, uma das grandes deusas da veadagem planetária (uma vez eu fiquei hospedado numa casa em Estocolmo onde ela tinha morado).
“Se você é artista, tem que aprender a ser veado. É o meu caso: eu sou aprendiz.”