Músicas

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Sábio sabiá

Gilberto Gil

 

Eu sou sábio
Eu sou sábio, sim
Eu sou sábio, sim, senhor
Meu pai é quem sabe

Eu sou sabiú
Pra poder ser sabiá
Eu sou sabiá
Minha mãe que tratou de me ensinar
Quem tratou de ensinar a ela foi Lidu
Minha avó, eu menino, agora Ituaçu
Eu me lembro

Eu sou sábio
Eu sou sábio, sim
Eu sou sábio, sim, senhor
Meu pai é quem sabe

 
 
© Gege Edições Musicais

Saci-Pererê

Gilberto Gil

 

Vou prestigiar o time do Saci-Pererê
Ê, ê, ê, ê, ê
Vou prestigiar
O neguinho deve ser da grande escola Pelé
É, é, é, é, é
Vou prestigiar

O moleque Saci-Pererê com uma perna só
Ó, ó, ó, ó, ó
Vai ver que é melhor
Do que muitos por aí com duas pernas-de-pau
Ah, ah, ah, ah, ah
Vai ver que é melhor

Entra um time novo, troca o time inteiro, mudo tudo
Tem jeito não
Falta alguma coisa tipo liberdade, profissão de fé
Devoção
Vou buscar a fantasia no conto da carochinha
Com a varinha
De condão

Moleque Saci
Vou prestigiar
Um gol Pererê
Pra gente vibrar

Moleque Saci
Saci-Pererê
Um gol de Pelé
Que é pra gente ver

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravação

Banda Black Rio – Saci Pererê, 1980 – Sony Music

Sala do som

Gilberto Gil

 

Vou me deitar
Na sala do som
Só quem pode entrar
É Milton
Se ele resolver
Me acordar
Diga que é melhor
Me deixar dormir
E que é pra ele também
Se deitar
Na sala do som
Se ele descansar
Vai ser bom
Amanhã vai ser
De arrasar
Temos que fazer
Cinco ou seis horas de show
E a turma tem
Que deitar
E rolar no som
Temos que escolher
Qual o tom
Do samba que vai
Encerrar
E uns detalhes mais
Pra acertar
Diga ao Bituca pra ele entrar
Sem bater
Na sala do som
 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – Quanta, 1997 – Warner Music

Gilberto Gil – Satisfação (raras e inéditas), 1999 – PolyGram

 

Comentário*

Uma música para Milton. Ele passava uns dias na casa do Caetano, na rua Delfim Moreira, no Leblon, no Rio, onde ficou uns cinco, seis dias, quase uma semana. Eu chegava e sempre o encontrava lá; aí conversávamos. Ele ficava num quarto que a gente chamava a “sala do som”. De repente eu resolvi fazer essa canção, que eu gravei para o Refavela, mas acabei não colocando no disco; ela ficou como sobra. Depois a música foi perdida, permanecendo sem paradeiro por muito tempo. Eu esqueci como ela era, já não sabia cantá-la. O único registro dela que eu sabia haver era a gravação que tinha sido feita para o Refavela, mas eu mandei procurar no arquivo da PolyGram [a gravadora que havia lançado o disco] e ela não foi encontrada. Eu cheguei a mencionar a existência e o sumiço dela para o Milton; ele brincou e disse: “Faça outra; você perdeu, faça outra”. E quando eu já estava pretendendo fazer o trabalho que eu vim a fazer com ele, o do disco e show Gil Milton, o [pesquisador] Marcelo Fróes a descobriu, e eu finalmente a recuperei, vindo a gravá-la no Quanta.

Eu admirava Milton desde sempre. Me comovia muito a voz dele, uma voz comovida e comovente: ele trabalha com o aspecto profundo da comoção, que a sua voz manifesta de imediato. Eu gostava muito disso e também da composição dele, da maneira como ele se movia no folclore mineiro, de como ele incorporava a negritude mineira, embora ele seja menos saltitante do que eu — apesar de a música dele, em muitos momentos (“Cravo e canela”, por exemplo), ser bastante percussiva, conter a matéria dos tambores de Minas e incorporar outras coisas. Ele é louco por Jorge Ben, de quem ele tem uma influência sutil. Eu fiquei muito contente de lhe fazer a homenagem especial que foi essa canção. 

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Samba

Gilberto Gil

 

Vem da sua tristeza o meu amor
Vem da sua amargura o meu viver
Vem da sua frieza o meu calor
Vem de tudo que é seu, vem de você

Seu olhar é triste, e mesmo assim
Faz, alegre, o meu coração saltar
O seu beijo é tão frio, mas enfim
Faz meu ser de amor queimar

Meu benzinho, deixe de chorar
Meu benzinho, deixe de sofrer
Meu benzinho, viva para amar
Pois a vida ainda tem
Belas coisas pra lhe dar

 
 
© Gege Edições Musicais

Samba de Los Angeles

Gilberto Gil

 

Olha que o samba foi
Foi quebrando, foi
Foi quebrando, foi
Foi quebrar
Lá na beira do mar

Tanto que água mole
Em pedra dura bate, que fura
Da pedra rachar
Tanto que racha a rocha
Que relaxa, afrouxa, que vira
Areia do mar
Tanto que a areia arenga
Que a sereia canta pelo pé
Que areia pisar

Olha que o samba foi
Foi quebrando, foi
Foi quebrando, foi
Foi quebrar
Lá na beira do mar

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – Nightingale, 1978 – Elektra

Gilberto Gil – Banda Larga Cordel, 2008 – Warner Music

Samba de roda

Gilberto Gil

 

Instrumental
 
 
© Gege Edições Musicais

Gravação

Gilberto Gil – Soy loco por ti América, 1987 – Warner Music

Samba louco

Gilberto Gil

 

Olhe o meu samba
Todo sem jeito
Samba feito
Em contramão
Todo quebrado
Desafinado
Isto não é samba, não

Samba desse jeito
Não se pode conceber
Que melodia
Que harmonia de doer

Mas como sou louco
Também fiz um samba louco
E esta loucura
Já não consigo entender

 
 
© Gege Edições Musicais

Sampa Milano

Gilberto Gil

 

Sampa Milano
Napoli Salvador
Roma e Rio

Sampa Milano
Napoli Salvador
Roma e Rio

Mestre Caymmi
o exemplo melhor
o melhor do que for
mescla Itália Brasil

Mestre Caymmi
canção do mundo inteiro cantar
canção da mãe rainha do mar
o mesmo mar daqui e de lá
o mesmo mar azul do Brasil
mediterrânea Itália

Sampa Milano
Napoli Salvador
Roma e Rio

Sampa Milano
Napoli Salvador
Roma con Rio

Mastro Caymmi
Il mondo intero canta già
Come la tua Regina del mar
Lo stesso mare aqui e di là
Lo stesso azurro del tuo Brazil
Mia Mediterranea Italia

Sampa Milano
Napoli Salvador
Roma e Rio

Sampa Milano
Napoli Salvador
Roma e Rio

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravação

Gilberto Gil e Simona Molinari – Single, 2011 – Warner Music

 

Comentário*

[Canção com produção italiana para um evento que teve por intuito louvar uma união Itália-Brasil, assinalando pontos de contato entre as duas nações. Na letra, Gil propôs um jogo de afinidade associando três das principais cidades de cada país: Milão como São Paulo, Napoli como Salvador, Roma como Rio de Janeiro. “A ideia foi cantar as semelhanças entre as cidades São Paulo e Milão, Napoli e Salvador, Roma e Rio — capitais, metrópoles históricas que abraçam a ideia da completude nacional”, conta Gil. Estabelecendo o elo poético, a figura do compositor baiano Dorival Caymmi, de mãe negra e ascendência paterna italiana. “Mestre Caymmi. O avô dele teria sido um engenheiro que veio da Itália para construir o elevador Lacerda. Isso faz inaugurar a família Caymmi no Brasil”.

[Washington Olivetto informa: “O evento chamava Momento Brasil/Italia, uma iniciativa do embaixador da Itália, Gherardo de La Francesca, meu amigo. Dois anos antes tínhamos tido o ano França/Brasil, com o Gil ministro da Cultura. Sugeri ao Gherardo que utilizasse a palavra “momento” ao invés de “ano”, porque ela tem o mesmo significado nas duas línguas. Falei com o Gil, que gostou da ideia e fez a canção. O Sergio Affonso, que dirigia a Warner, fez a ponte com a Simona Molinari, que também era da Warner e fã do Gil.”]

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sandra

Gilberto Gil

 

Maria Aparecida, porque apareceu na vida
Maria Sebastiana, porque Deus fez tão bonita
Maria de Lourdes
Porque me pediu uma canção pra ela

Carmensita, porque ela sussurou: “Seja bem-vindo”
(No meu ouvido)
Na primeira noite quando nós chegamos no hospício
E Lair, Lair
Porque quis me ver e foi lá no hospício

Salete fez chafé, que é um chá de café que eu gosto
E naquela semana tomar chafé foi um vício
Andréia na estréia
No segundo dia, meus laços de fita

Cintia, porque, embora choque, rosa é cor bonita
E Ana, porque parece uma cigana da ilha
Dulcina, porque
É santa, é uma santa e me beijou na boca

Azul, porque azul é cor, e cor é feminina
Eu sou tão inseguro porque o muro é muito alto
E pra dar o salto
Me amarro na torre no alto da montanha

Amarradão na torre dá pra ir pro mundo inteiro
E onde quer que eu vá no mundo, vejo a minha torre
É só balançar
Que a corda me leva de volta pra ela:
Oh, Sandra

 
 
© Gege Edições Musicais
 

Gravação

Gilberto Gil – Refavela, 1977 – Philips

 

Comentário*

Em 94, eu estava dando uma entrevista coletiva em Curitiba, quando uma moça entrou e disse: “Não se lembra de mim?”. Eu fiquei olhando, olhando, e ela então gritou: “Andreia na estreia!”. E eu: “Claro!”. Andreia era a menina que eu tinha conhecido, em 76, na passagem do show dos Doces Bárbaros pela cidade (antes de seguirmos para Florianópolis, onde eu fui preso por porte de maconha e posto em tratamento ambulatorial numa clínica, episódio em que a canção é baseada). Tínhamos ficado juntos na ocasião, e ela que me levou a um armarinho para comprar as fitas com que me enlaçou os cabelos trançados. Desde então nunca mais tínhamos nos reencontrado.

Todas as meninas mencionadas em “Sandra” foram personagens daqueles dias que eu vivi entre Curitiba e Florianópolis. Maria Aparecida, Maria Sebastiana e Maria de Lourdes me atenderam no hospício durante o internamento imposto pela Justiça, enquanto eu aguardava o julgamento. A de Lourdes me falava a toda hora: “Você vai fazer uma música pra mim, não vai?”. “Vou.” Carmensita: essa — foi interessantíssimo —, logo que eu cheguei, ela veio e me disse, baixinho: “Seja bem-vindo”. Lair era uma menina de fora, uma fã que foi lá me visitar. Salete era de lá: “Meu café é muito ralo”, me falou. “É exatamente como eu gosto, chafé”, respondi. Cíntia: também de Curitiba, como Andreia. Quando passamos pela cidade, me levou ao sítio dela uma tarde; foi quem me deu uma boina rosa com a qual eu compareceria ao julgamento mais adiante, em Florianópolis, e com a qual eu apareço no filme Os Doces Bárbaros. Ana: ficou minha amiga até hoje; de Florianópolis. E Dulcina, que era a mais calada, a mais recatada de todas na clínica, a mais mansa — era como uma freira —, foi a única que um dia veio e me deu um beijo na boca.

Sandra, citada no final da letra, era minha mulher, que preferiu não ir a Florianópolis e com a qual eu associei a ideia do hexagrama da torre, tirado no I Ching, um dos meus livros de cabeceira naquele período: a que tomava conta de tudo; onde eu estivesse, o seu olhar espiritual me acompanharia; seu ente se espraiaria, estendendo-se por todas as mulheres com quem eu convivesse. A ela as mulheres citadas na letra remetiam por representarem o feminino, a minha sustentação naquele momento.

Mas o que ninguém sabe, e que não se revela de nenhuma maneira na canção — o seu lado oculto —, é que há duas Sandras, a que é mencionada no fim e a do título, que não se refere à Sandra com quem eu era casado, mas a uma menina linda, maravilhosa, também chamada Sandra, que tietava o Caetano em Curitiba, amiga da Andreia — que me tietava.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

São João carioca

Gilberto Gil
Nando Cordel

 

O Rio de Janeiro vai ser só animação
É forró, é alegria, é festa de São João
O Rio de Janeiro vai ser só animação
É forró, é alegria, é festa de São João

São Cristóvão, eu te convido pro chamego
São Conrado, vem que o fogo vai pegar
São Januário, pode vir com seu molejo
Diga a São Sebastião que a festa vai começar
São Judas Tadeu, Santo Antônio, Santa Bárbara
Traga São Vicente, São Bento e muita energia
São José, São Jorge e São João Batista
Santa Marta, todo mundo vai cair nessa folia

No Rio de Janeiro vai ter festa pra chuchu
Na praça da Zona Norte, na praça da Zona Sul
No Rio de Janeiro vai ter festa pra chuchu
Na praça da Zona Norte, na praça da Zona Sul

Vem Flamengo, Madureira, Botafogo
Vem pro jogo lindo que nem futebol
Nas firulas do baião e do xaxado
Driblando tristeza e fado, dançando de sol a sol
A cidade será tão maravilhosa
Quanto mais acesa no seu coração
Estiver sua fogueira, sua brasa
Aquecendo sua casa, ardendo sua paixão

 
 
© Gege Edições Musicais / © Aconchego

Gravação

Gilberto Gil – Fé na festa, 2010 – Gege

São João, Xangô menino

Gilberto Gil
Caetano Veloso

 

Ai, Xangô, Xangô menino
Da fogueira de São João
Quero ser sempre o menino, Xangô
Da fogueira de São João

Céu de estrela sem destino
De beleza sem razão
Tome conta do destino, Xangô
Da beleza e da razão

Viva São João
Viva o milho verde
Viva São João
Viva o brilho verde
Viva São João
Das matas de Oxossi
Viva São João

Olha pro céu, meu amor
Veja como ele está lindo
Noite tão fria de junho, Xangô
Canto tanto canto lindo

Fogo, fogo de artifício
Quero ser sempre o menino
As estrelas deste mundo, Xangô
Ai, São João, Xangô Menino

Viva São João
Viva Refazenda
Viva São João
Viva Dominguinhos
Viva São João
Viva Qualquer Coisa
Viva São João
Gal Canta Caymmi
Viva São João
Pássaro Proibido
Viva São João

 
 
© Gege Edições Musicais / © Guilherme Araújo Produções Artísticas LTDA. (adm. por Warner/Chappell Edições Musicais LTDA.)

Gravações

Doces Bárbaros – Doces Bárbaros, 1976 – Philips

Gilberto Gil – Gilberto Gil (Ao Vivo em Montreux), 1978 – Gege

Caetano Veloso – Muito (Dentro da Estrela Azulada), 1978 – Philips

Caetano Veloso e Gilberto Gil – Dois Amigos, Um Século de Música, 2015 – Uns Produções Artísticas e Gege sob licença de Sony Music

Gilberto Gil – São João em Araras (Ao vivo), 2021 – Gege

 

Sarará miolo

Gilberto Gil

 

Sara, sara, sara, sarará
Sara, sara, sara, sarará
Sarará miolo

Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
De querer cabelo liso
Já tendo cabelo louro
Cabelo duro é preciso
Que é para ser você, crioulo

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – Nightingale, 1978 – Gege

Gilberto Gil – Realce, 1979 – Gege

Gilberto Gil e BaianaSystem – Gil Baiana ao vivo em Salvador, 2020 – Gege e Máquina de Louco

 

Comentário*

A criação dessa música, durante uma viagem que eu fiz pelo Nordeste, teve dois estágios. Começou numa jam session de três violões num fim de tarde em Aracaju, eu e dois amigos na casa de um músico da cidade chamado Marquinho. Nós ficamos horas improvisando, e no meio do improviso eu comecei a cantar: “Sara, sara, sara, sarará/ Sara, sara, sara, sarará”, ficando só nisso por muito tempo. Chegando em Fortaleza dias depois, eu, que tinha ficado com o tema na cabeça, peguei o violão e o retomei. Aí fui desenvolvendo-o e fiz a canção, aproveitando o mote do sarará. O “sara”, na jam, ocorreu só pelo som, eu nem estava pensando em “sarará”, que me veio como uma complementação automática.

“Sarará miolo” é uma expressão baiana para designar um tipo específico de sarará, o mais louro e mais carapinha, um albino negro ou mestiço com negro.

Por que essa doença de branco, essa doença infantil da hegemonização, essa necessidade de anular qualquer traço do negro possível, se submetendo inteiramente ao valor da raça branca e desvalorizando completamente a raça negra? Esse é o sentido de “Sarará miolo”, em que me valho da ideia de que se trata de um mestiço por acaso louro, de um mestiço no qual a cor prevalecente é a branca, um sarará alvíssimo, albino, que tem o cabelo crespo. O que nele caracteriza o negro são os traços fisionômicos, pois o cabelo é carapinha, no entanto louro. Então eu faço essa brincadeira com ele: “Deixa essa doença de branco, essa hipertrofia do branco em você, você não precisa disso. Você já tem uma parte branca, aceite então sua parte negra, admita que você tem uma coisa negra”.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sargento Pimenta e a Banda Solidão

Gilberto Gil

 

Há vinte anos o sargento fez
Sua banda pra tocar pra nós
Hoje já tanto tempo depois
Sempre o mesmo pique e solidez
Agora, aqui, mais uma vez
Apresentamos pra vocês
Sargento Pimenta e a Banda Solidão

Sargento Pimenta e a Solidão
Que todos curtam pra valer
Sargento Pimenta e a Solidão
Até o dia amanhecer
Sargento Pimenta, Sargento Pimenta
Sargento Pimenta e a Banda Solidão

Que maravilha estar aqui
É grande a emoção
Plateia tão bonita assim
Eu até mesmo levaria pra casa, no fim

Mais uma coisa só para avisar
Antes da nossa banda atacar
É que já na primeira canção
Todos devem cantar o refrão
Sem mais cascatas, com vocês
O que arrebata a multidão:
Sargento Pimenta e a banda Solidão

 
 
© Gege Edições Musicais

Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band,
de John Lennon e Paul McCartney ]

Gravação

A Cor do Som – Magia Tropical, 1982 – Elektra 

 

Comentário*

Banda é onde a música começa para mim: meu fascínio por música surgiu na minha infância com meu fascínio por banda. Uma das pontas importantes da minha história foram as alvoradas com os músicos, todos fardados, da filarmônica de Ituaçu — a Lira Ituaçuense — tocando pelas ruas. Eu acordava sozinho às quatro, cinco horas da manhã, e ia para a porta ver a banda passar. Por isso fiquei encantado com “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”: foi como se a canção tivesse sido feita para mim; como se fosse uma rememora- ção de coisas vividas por mim em minha cidade. Eu achava incrível o mundo das bandas e achei incrível os Beatles terem feito uma música para um músico de banda da mocidade deles, ainda que imaginário (pelo menos, eu nunca cheguei a saber se o sargento Pimenta existiu mesmo). “Sgt. Pepper’s” era demasiadamente emblemática desse mundo. A canção, uma homenagem às bandas, fala muito a todos nós, músicos; e a mim particularmente: Pepper, um músico de banda de coreto, era igual ao Sinésio, fogueteiro de Ituaçu, na minha visão. [Eis por que um dia Gil acabou vertendo a canção — que acabou, naturalmente, sendo gravada por uma banda: A Cor do Som.]

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sarro

Gilberto Gil
Jorge Ben Jor

 

 
© Gege Edições Musicais / © Warner/Chappell Edições Musicais LTDA.

Satisfação

Gilberto Gil

 

Agora olhe pro céu
Agora olhe pro chão
Agora repare a luz
Que vem lá do caminhão

Rolling’s tão tocando bem
Rolling’s tão tocando mal
Rolling’s tão tocando mil
Na boca do pessoal

Posso ter não satisfação
Posso ter não satisfação

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – Gilberto Gil, 1975 – Philips

Gilberto Gil – Satisfação (raras e inéditas), 1999 – Universal Music

Saudade

Gilberto Gil

 

Saudade
Fantasma de minha vida
Consequência da despedida
Que entre nós há de vir
Saudade
Triste resto de esperança
Saudade, amarga lembrança
Do louco amor que vivi

Agora
Quando já tenho no peito
A dor de um sonho desfeito
E o presságio da solidão
Quisera
Nunca tê-la encontrado
Para não ser ao seu lado
Candidato à desilusão

 
 
© Gege Edições Musicais

Se ela me chamasse

Gilberto Gil

 

Se ela me chamasse, eu iria correndo
Atirar-me em seus braços, e em prantos
Lhe diria que a amo, que a adoro
Que ela é minha vida, a musa dos meus sonhos
Das preces que elevo, das canções que canto

Se ela me chamasse, eu iria correndo
Atirar-me em seus braços ardentes
E a sonhar, loucamente extasiado
Contemplaria aquele rostinho tão amado
E morreria em seus braços, feliz e contente

 
 
© Gege Edições Musicais

Se eu morresse de saudade

Gilberto Gil

 

Se eu morresse de saudade
Todos iriam saber
Pelas ruas da cidade
Todos poderiam ver

Os estilhaços da alma
Os restos do coração
Queimado, pobre coitado
Pelo fogo da paixão

Se eu morresse de saudade
Mandariam lhe prender
O povo suspeitaria
Que o culpado foi você

Pois seu retrato estaria
Estampado em cada grão
Do que de mim restaria
Feito areia pelo chão

Fantasia, fantasia, sedução
Desde o dia
Que eu segurei sua mão

Se eu morresse de saudade
Nunca iria conhecer
O prazer da liberdade
O dia de lhe esquecer

Se eu morresse de saudade
Não poderia dizer
Que bom morrer de saudade
E de saudade viver

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Maria Bethânia – Maricotinha, 2001 – Sony Music

Maria Bethânia – Maricotinha (Ao vivo), 2002 – Biscoito Fino

Gilberto Gil e Maria Bethânia – Duetos 2, 2008 – Warner Music

Maria Bethânia – Noite Luzidia, 2012 – Biscoito Fino

 

Comentário*

[De novo o tema de saudade, de novo uma canção pra Bethânia e também de novo, ainda que obliquamente, a polícia no meio de um caso amoroso: “Mandariam lhe prender”.] “Se eu morresse de saudade” é uma canção prima de “A notícia”.

Rola um parentesco com “A notícia” porque também ocorre uma notícia aqui: a da morte de saudade. — É, mesmo teor imagético, ideológico. Um ataque ao corpo da interioridade, um atentado àquilo que pertence ao mundo interior; o amor, a paixão, o afeto.

Também é recorrente em vários momentos de minha obra esse revolver da minha interioridade como psiquismo e ao mesmo tempo fisicalidade. Essa ideia da junção permanente entre a dimensão psíquica, a dimensão do etéreo, a dimensão do pensamento, volatilidade pura e pensamento, sentimento como materialidade; incorporação, somatização.

“Pois seu retrato estaria/ Estampado em cada grão”. — Em cada grão o retrato do culpado: como as marcas, as digitais impressas em cada grão daquela areia. Isso eram também imagens vindas de filme onde super-heróis pulverizavam pessoas e coisas. Um pouco tirado dessa fantasia.

É interessante o fato de que a distância no tempo-espaço permita que a gente hoje se debruce sobre esse modus, esse campo poético, esse rosário diverso de fragmentos poéticos, e possa elaborar sobre eles essas memórias que não poderiam haver se não fosse o tempo tendo passado. São interpretações sobre essas canções que não poderiam ser, a não ser através da memória. São interpretações que são memoriais. É engraçado. Esse é um dos lados convidativos desse trabalho.

Você sente que isso ilumina pra você mesmo a compreensão que você tem da sua obra e quem sabe de si próprio? — Acende uma luz aqui, apaga outra ali. A luz na escuridão sempre.

Tem a ver com o envelhecer; com a transformação da espera pelas coisas num já estar nas coisas esperadas, já sê-las. Eu associo isso à velhice. À experiência. À coisa que eu guardo muito deste verso extraordinário do Caetano: “O homem velho é o rei dos animais”. A velhice traz essa capacidade de você poder reger sua orquestra inteira; você entra no mundo da regência mais plena, mais próxima do Absoluto. É nesse sentido que você pergunta se esse processo todo traz mais luz?

Sim, mais autoconhecimento, no exercício de reautoconhecer a obra. — Sobre meu próprio ser, sobre minha obra, tudo junto. Na verdade, estamos aqui falando da obra, interpretando, dando significados, desdobrando significados sobre ela, e no fundo, no fundo, sou eu sabendo cada vez mais de mim mesmo e me ignorando cada vez mais. Não tem outra coisa, não.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Se eu quiser falar com Deus

Gilberto Gil

 

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – Luar, 1981 – Warner Music

Elis Regina – Elis Regina, 1982 – EMI/Odeon

Gal Costa – Songbook Gilberto Gil, Vol. 2, 1992 – Lumiar Discos sob licença exclusiva de Sony Music

Cesar Camargo Mariano e Pedro Mariano – Piano & Voz, 2003 

Gilberto Gil – Eletroacústico (Ao vivo), 2004 – Warner Music

Maria Rita – Redescobrir, 2012 – Universal Music

Margareth Menezes – Para Gil & Caetano, 2015 – Estrela do Mar

 

Comentário*

“O Roberto me pediu uma canção; do que eu vou falar? Ele é tão religioso — e se eu quiser falar de Deus? E se eu quiser falar de falar com Deus?” Com esses pensamentos e inquirições feitos durante uma sesta, dei início a uma exaustiva enumeração: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que isso, que aquilo, que aquilo outro”. E saí. À noite voltei e organizei as frases em três estrofes.

O que chegou a mim como tendo sido a reação dele, Roberto Carlos, foi que ele disse que aquela não era a ideia de Deus que ele tem. “O Deus desconhecido.” Ali, a configuração não é a de um Deus nítido, com um perfil claro, definido. A canção (mais filosofal, nesse sentido, do que religiosa) não é necessariamente sobre um Deus, mas sobre a realidade última; o vazio de Deus: o vazio-Deus.

Esse nada-Deus. — [Num dos encontros com Gil para as entrevistas que resultariam nas edições de seus comentários aqui apresentadas, o coordenador deste livro lhe entregou, a pedido do editor, Luiz Schwarcz, um exemplar do livro Uma história de Deus, da scholar norte-americana Karen Armstrong, uma ex-freira. Na mesma noite Gil começou a lê-lo, e na tarde seguinte leu para este interlocutor uma longa passagem que ele relacionou com o tema de “Se eu quiser falar com Deus”, que, por coincidência, tinha sido objeto das conversas no dia anterior.

Parte do trecho dizia: “Sem dúvida, [Deus] parece estar desaparecendo da vida de um número crescente de pessoas, sobretudo na Europa ocidental. Elas falam de um buraco em forma de Deus em suas consciências, onde antes Ele estava: onde antes havia Deus, hoje há um buraco em forma de Deus”. Segundo o compositor, essas observações da autora imediatamente o fizeram pensar na canção. “Alguma coisa desse Deus-buraco parece estar contida na letra de ‘Se eu quiser falar com Deus’”, disse, querendo se referir especialmente ao seu trecho final.]

O pós possível. — A criação do efeito veio por impulso, instintivamente: a sequência de “nadas” (treze no total) insinuando sucessivas camadas de buraco, criando a expectativa de algo e culminando com uma luz no fim (do túnel, da estrada, da vida), quer dizer, deixando entrever, embutida na morte, a possibilidade de realização de uma existência num plano diferente de tudo que se possa imaginar, mas que de qualquer maneira se imagina existir; a possibilidade de transmutação — com o desaparecimento do corpo físico, da entidade psíquica que chamamos de alma, inconsciente, eu — para outra coisa, outra forma de consciência de todo modo imprevisível, se não for mesmo nada.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sebastian

Gilberto Gil
Milton Nascimento

 

Sebastian, Sebastião
Diante de tua imagem
Tão castigada e tão bela
penso na tua cidade
Peço que olhes por ela

Cada parte do teu corpo
Cada flecha envenenada
Flechada por pura inveja
é um pedaço de bairro
é uma praça do Rio
Enchendo de horror quem passa

Oô cidade, oô menino
Que me ardem de paixão
Eu prefiro que essas flechas
Saltem pra minha canção
Livrem de dor meus amados

Que na cidade tranquila
Sarada cada ferida
Tudo se transforme em vida
Canteiro cheio de flores
pra que só chorem, querido,
Tu e a cidade, de amores

 
 
© Gege Edições Musicais / © Nascimento Edições Musicais LTDA.

Gravação

Gilberto Gil e Milton Nascimento – Gil & Milton, 2000 – Warner Music

Sei que me amavas

Gilberto Gil
Giuseppe Carella
Alfredo Rapetti

 

Non dire no, che ti conosco e lo so cosa pensi
Non dirme no
Os tempos vão
Foram-se os tempos e agora te calas
Tu já não falas se falo de amor
Se tens as malas prontas, não finjas, tudo acabou
Porque já não se vê
O teu sorriso ao amanhecer
Porque já não sou mais teu bem-querer
Se ami sai quando tutto finisce
Se ami sai come un brivido triste
Come in un film dalle scene già viste
Che se ne va oh no !
Se o amor acaba a ninguém cabe a culpa
Se o amor acaba não cabe desculpa
Agora aperte as minhas mãos, sim
Pra que reste o recordar, sim.
Amanhã.
E non si può
Chiudere gli occhi e far finta di niente
Come fai tu quano resti con me
E non trovi il coraggio di ddirmi che cosa c´è
Erá dentro di me come una notte d´inverno perché
Será da oggi in poi senza di te
Sei que me amavas e agora é tão tarde
Sei que me amavas e agora é saudade
No nosso filme o fim será triste
Não quero ver, oh não !
Sabes que é chegada a hora das dores
Dores de quando se acabam os amores
Agora aperte as minhas mãos, sim
pra que reste o recordas, sim
Amanhã
Não estarás
Mais aqui.
 
 
© Gege Edições Musicais / © Cheope

Versão de Gilberto Gil da música “Seamisai” de Giuseppe Carella e Alfredo Rapetti.

Gravação

Laura Pausini – Le cose che vivi, 1996 – EastWest

Serafim

Gilberto Gil

 

Quando o agogô soar
O som do ferro sobre o ferro
Será como o berro do bezerro
Sangrado em agrado ao grande Ogum

Quando a mão tocar no tambor
Será pele sobre pele
Vida e morte para que se zele
Pelo orixá e pelo egum

Kabieci lê – vai cantando o ijexá pro pai Xangô
Eparrei, ora iêiê – pra Iansã e mãe Oxum
“Oba bi Olorum koozi”: como deus, não há nenhum

Será sempre axé
Será paz, será guerra, serafim
Através das travessuras de Exu
Apesar da travessia ruim

Há de ser assim
Há de ser sempre pedra sobre pedra
Há de ser tijolo sobre tijolo
E o consolo é saber que não tem fim

Kabieci lê – vai cantando o ijexá pro pai Xangô
Eparrei, ora iêiê – pra Iansã e mãe Oxum
“Oba bi Olorum koozi”: como deus, não há nenhum

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – Parabolicamará, 1991 – Warner Music

Gilberto Gil – To Be Alive Is Good (Anos 80), 2002 – Gege

Gilberto Gil – Serafim, 2023 – Gege

 

Comentário*

Religiosamente incorreta. — Quando “Serafim” foi lançada, eu cantava “carneiro” onde hoje está “bezerro” — um erro religioso: o carneiro é um animal rejeitado por Ogum e não podia ser referido em sua homenagem. A correção veio depois (no show Tropicália 2 eu fiz a substituição), por advertência do Caetano e da Flora, que havia se iniciado no candomblé. Eu tinha usado “carneiro” porque é um animal comumente sacrificado no candomblé.

Em “Lavagem do Bonfim” [canção composta para Gal Costa em 1993] também há algo que pode ser visto como uma incorreção, mas que é proposital. Ao citar o caruru — que não é uma comida para Oxalá — eu não estou me referindo ao caruru como uma comida específica de oferenda a um santo, mas ao caruru como o somatório das comidas de santo, que na Bahia chamam caruru. “Vou ao caruru da dona Fulana”, quer dizer, “lá vai ter abará, acarajé, vatapá, arroz, feijão, inhame etc.” “Caruru” ali está portanto no sentido transreligioso, profano, de “ceia”, “refeição”, comida de todos os santos.

Iorubá. — “Kabieci lê”: saudação para Xangô; “eparrei”: para Iansã; “ora iê, iê”: para Oxum. “Oba bi Olorum koozi”: a expressão eu vi inscrita num para-choque de caminhão em Lagos, acompanhada da tradução em inglês: “No king as God”. “Um dia ainda vou usar isso numa música”, pensei. Guardei na memória e usei, acompanhada da tradução (livre) em português [“Como Deus não há nenhum” — “nenhum” rimando com “Oxum”].

Da utopia da poesia de as palavras serem as coisas, e da relação de correspondência entre som e sentido, fundo e forma. — [“O som do ferro sobre o ferro será como o berro do bezerro”: as aliterações em “r” e “b” parecem exprimir aquilo a que a frase alude, estabelecendo biunivocamente a conformidade fônico-semântica, como se os versos não apenas falassem de um ruído: fossem o ruído.]

Os recursos sonoros empregados na construção dessa letra são mesmo muito fortes, de profunda inspiração. Tinha que ser assim, porque a música é sobre a potência — do axé, dos orixás.

[Um deles, Exu — aliás, aludido em outro bloco de carregada sonoridade, uma sucessão tríplice de “trs” e vês e esses —, é destacado pelo compositor:] Tenho por ele uma particular admiração. No sincretismo, Exu é assimilado ao demônio, visto como uma entidade do mal, mas não é nada disso. Embora traquino, travesso, ninguém, nenhum orixá trabalha nem vive sem ele. Exu é o eixo, o mensageiro; o que dá energia a tudo — como a luz solar para a Terra.

[Explicitação poética desse pensamento pode ser conferida numa música de Gil intitulada justamente “O eixo e Exu”, de 1996. E de 1995 é “Dança de Shiva”, outra canção em que a mesma referência reverenciadora à entidade é feita pelo compositor.] 

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Serenata de teleco-teco

Gilberto Gil

 

O tamborim bateu, chamando o pessoal
Um violão gemeu num ritmo legal
E começou assim em plena madrugada
Um tamborim no samba de calçada
Visitando o sono da cidade

A lua a iluminar o grupo barulhento
Um guarda a reclamar silêncio
Silêncio pra quem dorme
E eu, que escuto ao longe
O som do meu telecoteco
Sinto o romantismo feito à porta
À porta de um boteco

Seresta de samba também tem suavidade
Samba também fala de saudade

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravação 

Gilberto Gil – Sua música, sua interpretação, 1963 – JS Discos

Jair Rodrigues e Elis Regina – Dois na Bossa, número 3, 1967 – Philips

Gilberto Gil – Salvador, 1961 – 1963, 2002 – Warner Music

Gilberto Gil – Retirante, 2010 – Discobertas 

 

Comentário*

A propósito do termo “teleco-teco”, que não consta nos dicionários. — Acho que está ligado ao tamborim. Ao teleco- -teleco-teco-teco-teleco-teleco-teco-teco-teco-teteco do instrumento. À percepção do percutir da percussão, com os timbres saídos dos instrumentos. Tele-teleco-teco-teco-teco-teleco-teleco-teco, é o mais provável que seja, é a onomatopeia de um ritmo. Que foi viajando para vários contextos, letras de canções, crônicas, artigos jornalísticos. O teleco-teco foi se espalhando por aí.

Em certa altura, a letra diz: “E eu, que escuto ao longe/ O som do meu teleco-teco”. — É que é isso: o som do batuque. O som da batucada. A canção faz uma combinação de seresta e samba. — Sim, porque à época dessa composição eu frequentemente me juntava a grupos de músicos para fazer serestas no centro de Salvador, nas praças, nos lugares. Era uma atividade muito costumeira naquele momento; então a “serenata de teleco-teco” é por causa disso. Sou eu, ali no ponto, cantando nas reuniões, nos grupinhos.

No DVD Outros (doces) bárbaros, de 2002, Caetano vê pela primeira vez você tocando e cantando “Máquina de ritmo” e o associa a “Serenata de teleco-teco” como um tipo de samba que você não visitava fazia muito tempo. — Eu me lembro do dia que ele ouviu “Máquina de ritmo”: “Ah, parece aqueles sambas seus antigos, como ‘Serenata de teleco-teco’”. O que eu propriamente, pessoalmente, não sinto muito. Mas como esses sambas, especialmente esse primeiro, insinuaram um estilo composicional, um modo mais próprio de batida de violão, um sambar violonístico mais pessoal, eu acho que foi isso que acabou dando margem a que ele associasse “Serenata de teleco-teco” e “Máquina de ritmo” como do mesmo gênero.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sereno

Gilberto Gil
Bem Gil

 

Vovô gostou do nome Sereno
Vovó gostou do nome Sereno
Tem mais dois aqui
Tem mais dois aqui
Tem mais dois irmãos pra te curtir

Será que vem peixinho
Será que vem depois
Será que vem um pouco dos dois

Sereno quer dizer que você será
Será suave, ameno e tranquilo, será (?!)
E quando for mamar na mamãe, será
Não vai querer morder seu mamilo,
será (?!)

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – OK OK OK, 2018 – Gege

Gilberto Gil – Em Casa Com os Gil, 2022 – Gege

 

Comentário*

Essa é uma canção que o Bem propôs. Foi ele que escreveu: “Vovô gostou do nome Sereno”. Aí a Flora exigiu “vovó também gostou do nome Sereno”, e ele foi adiante: “Tem mais dois aqui […]”: porque a canção era para o terceiro filho dele. Eu só entrei na última parte (o resto é todo do Bem): “Sereno quer dizer que você será […]? Quando for mamar na mamãe, será?/ Não vai querer morder seu mamilo, será?”. Não foi assim. Ele mordia o mamilo dela. E de Sereno, no sentido mais exigente da palavra, ele não tem nada.

“Será que vem peixinho?” Porque ele estava pra nascer entre o signo de Peixes e o de Touro. “Será que vem um pouco dos dois?” Porque poderia ser cúspide, estar ali na fronteira.

[“Sereno”, para o neto, faz parte da série de temática “familiar”, da safra de composições feitas para o álbum OK OK OK, que inclui a dedicada à mulher (“Na real”), uma para outro neto (“Tartatuguê”) e uma para a bisneta, “Sol de Maria”. A obra ainda incluiu “Uma coisa bonitinha”, sobre uma vó e uma mãe, de 2003, recuperada e então aproveitada.]

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sete sílabas

Gilberto Gil
Perinho Santana

 

Sete sílabas juntei
No primeiro verso da canção
Sem mesmo saber por que juntei
Qual o motivo, a razão
Irresponsavelmente até
Até porque não sei de nada
Sob o sol
Que você não saiba também
Quanto eu sei, tão mal, quanto eu sei
O que eu sei não vale um tostão

O que eu possa lhe dizer
Não é verdade nem salvação
O que eu possa lhe dizer de cor
Não tem cor de coração
Paradoxalmente até
Até porque não há palavras
Para Deus
O mel você tem que provar
Pra saber o doce que tem
As sílabas juntei em vão

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravação

Lúcia Turnbull – Aroma, 1980 – EMI/ Odeon

Seu olhar

Gilberto Gil

 

Há no seu olhar
Algo que me ilude
Como o cintilar
Da bola de gude
Parece conter
As nuvens do céu
As ondas brancas do mar
Astro em miniatura
Microestrutura estelar

Há no seu olhar
Algo surpreendente
Como o viajar
Da estrela cadente
Sempre faz tremer
Sempre faz pensar
Nos abismos da ilusão
Quando, como e onde
Vai parar meu coração?

Há no seu olhar
Algo de saudade
De um tempo ou lugar
Na eternidade
Eu quisera ter
Tantos anos-luz
Quantos fosse precisar
Pra cruzar o túnel
Do tempo do seu olhar

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravação

Gilberto Gil – Dia Dorim Noite Neon, 1985 – Warner Music

 

Comentário*

Eu tinha chegado da Europa, ia gravar um disco, não tinha nenhuma música feita ainda e não sabia nem por onde começar. Uma noite sentei para compor. ‘Você tem de fazer alguma coisa para o disco’, pensei. Eu e Flora estávamos morando num pequeno apartamento que tínhamos comprado na Barra da Tijuca [no Rio]; à meia-noite ela se recolheu, foi dormir, e eu fiquei lá, meditando. Não tinha ideia nenhuma, nada na cabeça. Fiquei horas e horas, violão de um lado, caderno na frente, folha completamente em branco. ‘O que é que eu faço?’, eu pensava.

De meia-noite às quatro eu fiquei ali, sentado no chão, levantava de vez em quando, tomava água, eu ali quieto, pensando, meditando, tentando evitar a ansiedade, evitar o atropelamento da emergência, mas ao mesmo tempo tendo que fazer alguma coisa, tendo que acionar, que dar partida no motor, apertar a ignição, estava no meio da estrada, o carro parado, tinha que fazer a chave fazer o carro pegar, não adiantava apelar. Fiquei resignadamente esperando, até que lá pelas três e meia, quatro horas da manhã, começou a vir a ideia do olhar. Olhar… olhar… Aparecia vagamente aquele olhar… Tinha um pouco a ver com Flora; ‘essa música é para ela’, eu pensei, ‘o olhar dela’. Eu não tinha nada para fitar,
não havia nada no horizonte; então eu ‘vi’ o olhar dela e comecei a fazer uma descrição fantasiosa do seu olhar, e assim a canção saiu, saíram as três estrofes. A última eu comecei mas não terminei naquela noite, apenas no dia seguinte. Foi assim.

Essa música tem um significado particular, porque ela marca nitidamente um turning-point, um momento de indefinição. Eu tinha adiado a gravação de um disco, a princípio tinha ficado de compor músicas durante a excursão na Europa, não tinha conseguido, tinha chegado com o compromisso de compor para em seguida gravar. Aí fiz essa canção e, pronto, no dia seguinte fiz mais uma, depois outra…

Deslocamento inesperado – ‘Seu olhar’ é toda bem amarradinha e tem um trecho na segunda estrofe que eu particularmente adoro, quando a poesia faz um deslocamento e eu pergunto ‘quando, como e onde vai parar meu coração’ (‘parar’ relacionado tanto com paradeiro como com morrer: nos dois sentidos). Na primeira estrofe eu destaco também a imagem da bola de gude como se fosse o planeta Terra, empregada porque as bolas de gude se parecem com a Terra vista nas fotografias.

No abismos da ilusão – Eu não costumo usar ‘ilusão’ no significado corriqueiro. Eu uso a palavra preferentemente na acepção budista; é dessa forma que mais frequentemente ela aparece nas minhas letras. Nunca há a ‘ilusão’ no sentido do engano trivial, do equívoco comum, somente ‘ilusão’ no sentido do profundo engano (o que se associa com o viver). É assim em ‘Seu olhar’, como no final de ‘Cada tempo em seu lugar’, onde já aparece a palavra ‘desilusão’ (‘Solidão:/ Quando a desilusão chegar’) – ali há a conformidade com o estar só e com o morrer também. Já que temos o enigma da morte a esclarecer, só sendo a vida uma ilusão, poderá a morte ser alguma coisa; só o desiludir-se da vida pode fazer da morte alguma coisa.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Show de Me Esqueci

Gilberto Gil
Capinan

 

Ah, foguete
Com teu cone
Teu atômico
Combustível
Com teu jato
E parafuso
Ah, poderoso
Poderoso míssil
Quando for a uma estrela
Me leve daqui
Quando for a uma estrela
Me leve de Me Esqueci

Ha-ha-ha!
Hi-hi-hi!
Quero ir para uma estrela
Bem longe daqui
Ha-ha-ha!
Hi-hi-hi!
Bem longe de Me Esqueci

No tempo em que ouvi dizer
Que a bomba era um perigo
Eu fiquei tranquila e disse:
“Isso aqui não é comigo”

Mas um dia, dia, foi
Cata-pum-pum-pum
Lá se veio a guerra
Um e dois, já se foi
Três e quatro, lá se vão
Lá se foi um soldado
Lá se vai um batalhão

Mas um dia, dia, foi
Cata-pum-pum-pum
Um cogumelo azulado
Silenciou num segundo
Os industrializados

E lá se foi o presente
O que ficou é passado

Cata-pum
Cata-pum-pum-pum
Cata-pum
Cata-pum
Cata-pum-pum-pum

Eu ontem
Era mandado
Mas o mundo
Se acabou
Não tenho quem
Me mande rir
Ou chorar
Minha terra
Tem foguete
Onde canta o sabiá
Minha terra
Tem foguete
Onde canta o sabiá

Ha-ha-ha!
Hi-hi-hi!
Quero ir para uma estrela
Bem longe daqui
Ha-ha-ha!
Hi-hi-hi!
Bem longe de Me Esqueci

O foguete vai subir
Não encontro o meu radar
Estou cheia de culpa e de fome
Vim correndo perguntar

Engrenagem
Indestrutível
Onde está
Teu combustível?
Como vai
Você subir
Sem ninguém
Pra pilotar
E a contagem
Regressiva
Qual de nós pode contar?

Pode existir um índio
Ao lado de um foguete?
Quero mergulhar no céu
Quero ser um cosmonauta
Em vez de usar um penacho
Quero ter um capacete

Ah-ah-ah!
Ih-ih-ih!
Quero ir para uma estrela
Bem longe daqui
Ah-ah-ah!
Ih-ih-ih!
Bem longe de Me Esqueci

 
 
© Gege Edições Musicais / © Direto

[ para o filme Brasil, Ano 2000 ]

Gravação

Gal Costa, Bruno Ferreira e Ênio Gonçalves – Brasil ano 2000 (filme), 1967 – Forma (1969)

Sítio do Picapau Amarelo

Gilberto Gil

 

Marmelada de banana
Bananada de goiaba
Goiabada de marmelo
Sítio do Picapau Amarelo

Boneca de pano é gente
Sabugo de milho é gente
O sol nascente é tão belo
Sítio do Picapau Amarelo

Rios de prata piratas
Voo sideral na mata
Universo paralelo
Sítio do Picapau Amarelo

No país da fantasia
Num estado de euforia
Cidade Polichinelo
Sítio do Picapau Amarelo

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – lançado por ocasião da estreia da série homônima da Rede Globo, 1977

Gilberto Gil – Unplugged (Ao vivo), 1994 – Warner Music

Gilberto Gil – To Be Alive Is Good (Anos 80), 2002 – Warner Music

Gilberto Gil – Sítio do Picapau Amarelo, 2005 – Gege

Nicolas Krassik – Interpreta Gilberto Gil, 2021 – Gege

Gilberto Gil – Em Casa Com os Gil, 2022 – Gege

Gilberto Gil, Flor Gil e Galinha Pintadinha – Galinha Pintadinha, 2023 – Bromelia [dist. Tratore]

 

Comentário*

Essa foi feita de encomenda, para o programa homônimo da Rede Globo. Dori Caymmi, encarregado da trilha sonora, estava encomendando as músicas aos colegas, pedindo a um que fizesse a canção da Narizinho, a outro que fizesse a canção do Pedrinho, a outro que fizesse a canção do Visconde… Quando ele veio me pedir uma, eu perguntei: “Mas eu não posso fazer uma canção, um jingle, para o sítio?”. Ele respondeu: “Se você quiser, pode; se ficar legal, se couber, tudo bem”.

Eu preferi fazer uma canção que falasse de todos os personagens e do sítio todo, que ocupasse aquele espaço inteiro e nela coubesse Taubaté toda. Aí fui trazendo os personagens — boneca de pano, a Emília; sabugo de milho, o Sabugosa — e sempre procurando uma rima para “Sítio do Picapau Amarelo” ao final de cada parte, terminando com “cidade Polichinelo”, que é um personagem de um outro sítio, o polichinelo europeu.

A canção ficou muito popular por causa da série. Por nove, dez anos, todo dia, toda tarde, ela tocou, martelou. Mais tarde, após ela ter entrado no show Tropicália 2, a sua recuperação para o repertório do Unplugged foi um resultado dessa popularidade. Sua inclusão se deu a pedido do Lucas Santana, o flautista que tocava no grupo, que cresceu acompanhando o Sítio do Picapau Amarelo e que argumentou: “Ela é uma música da nossa geração, muito emblemática para nós. É como se fosse um button na nossa camisa, sabe? Então canta!”.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Só chamei porque te amo

Gilberto Gil

 

Não é natal
Nem ano bom
Nenhum sinal no céu
Nenhum Armagedom
Nenhuma data especial
Nenhum ET brincando aqui no meu quintal

Nada de mais, nada de mal
Ninguém comigo além da solidão
Nem mesmo um verso original
Pra te dizer e começar uma canção

Só chamei porque te amo
Só chamei porque é grande a paixão
Só chamei porque te amo
Lá bem fundo, fundo do meu coração

Nem carnaval
Nem São João
Nenhum balão no céu
Nem luar do sertão
Nenhuma foto no jornal
Nenhuma nota na coluna social

Nenhuma múmia se mexeu
Nenhum milagre na ciência aconteceu
Nenhum motivo, nem razão
Quando a saudade vem não tem explicação

Só chamei porque te amo
Só chamei porque é grande a paixão
Só chamei porque te amo
Lá bem fundo, fundo do meu coração

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravação

Gilberto Gil – Gilberto Gil Em Concerto, 1987 – Warner Music

Canindé – História de Amor, 2005 – GRAVOmusic

Carla Visi – Carla Visita Gilberto Gil, 2008 – MZA Music

Maucha Adnet – Music for Picture Presents Revisionist History Vol I: 1984, 2009 – Amano Recordings

 

Comentário*

Na noite em que eu me encontrei com Stevie Wonder, em 85, em Washington (ele foi ao meu show e tocou gaita em “No Woman, No Cry”), quando eu lhe disse que tinha vertido “I Just Called to Say I Love You”, ele perguntou: “Mas por que você escolheu essa música para fazer uma versão? Eu acho que ela é tão banal”. Eu respondi: “Talvez tenha sido por isso mesmo, Stevie. Aliás, essas em geral são as que duram mais”. Ele admitiu que a canção é linda, mas reiterou um receio de que fosse demasiadamente vulgar.

Eu cantei a versão pra ele e expliquei o significado de algumas expressões — a tradução, paralela, tenta transportar livremente para equivalentes nossos as ocasiões festivas norte-americanas citadas no original. Ele gostou, achou legal. “Mas você acha que ela vai ficar?” — a preocupação dele era essa. “Claro, imagina, ela já tem até uma versão em português. É sinal de que ela vai ficar.”

A vontade de verter veio, primeiro, porque a música era dele, Stevie Wonder, uma pessoa que eu admiro muito e com quem ter algum laço aproximativo me é prazeroso, caro e interessante: eu quis tietá-lo. Além disso, a canção é abolerada, não tem os encadeamentos melódicos típicos da música americana e tem um gosto mais latino do que americano; isso também me aproximou mais dela. 

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sob Pressão

Gilberto Gil e Ruy Guerra

 

Falta de ar, os gemidos , os ais,
a febre, seus fantasmas, seus terrores
sem pressa, passo a passo, mais e mais
a besta avança pelos corredores,

O médico caminha com cautela
estuda os segredos do inimigo
a enfermeira brava vence o medo
pouco lhe importa a extensão do perigo

O mundo está zaranza, ao Deus dará,
o povo não se entrega, é cabra cega,
é lá e cá, sem lei, sem mais aviso,
só sei que é preciso acreditar

Fazemos todos parte desta história
mesmo que os tontos blefem com a morte
num jogo de verdades e mentiras
um jogo duplo de azar e sorte

A ciência abre as suas asas,
a esperança à frente como um guia
com São João na reza, a pajelança,
a intervenção de Xangô na magia

Neste canto aqui da poesia,
casa da fantasia e da razão,
abre-se a porta, entra um novo dia,
pela janela a dentro, o coração

A Voz do bardo a bordo da alvorada
o sol da aurora secando o pulmão
” ano passado, se eu morri na Estrada,
vai que esse ano não morro mais não”

É pra montar no lombo da toada
desembarcar do trem da pandemia,
é pra fazer da rima arredondada
o rompante final de uma alegria.

“Vamos em frente, amigo, vamo embora
vamos tomar aquela talagada
vamos cantar que a vida é só agora
E sem cantar, amigo, a vida é nada!

 

© Gege Edições Musicais

 

Chico Buarque – voz
Gilberto Gil – voz e violão elétrico
Bem Gil – guitarra
Rafael Rocha – Bateria
Kiko Horta – Acordeon

Produção Musical: Bem Gil
Técnico de Gravação: Daniel Alcoforado
Roadie: Thiago Braga
Masterização e mixagem: Daniel Carvalho
Gravado no estúdio NAS NUVENS em agosto de 2020

Gravação

Gilberto Gil e Chico Buarque – single para especial da série Sob Pressão: Plantão Covid (uma coprodução da Rede Globo e da Conspiração Filmes), da Rede Globo, 2020

 

Comentário*

A letra resulta de um borrão que o Ruy me mandou e eu fui arrumando aqui, ali; tirando uma palavra, botando outra, propondo uma frase acolá. Fomos montando o texto ao tempo que eu ia propondo a música, e assim o fizemos a quatro mãos mesmo. A canção foi uma encomenda. O Andrucha Waddington, diretor da série Sob Pressão, propôs ao Chico Buarque que fizesse a música tema com o Ruy. O Chico, por razões de muita ocupação, de falta de tempo, disso e daquilo, propôs que eu a fizesse com o Ruy. Assim foi feito; mas eu chamei o Chico pra gravar. A música não é nada melancólica, é um baião com um tônus diferente, até um pouco divergente da temática da série, mas ao mesmo tempo denotando afinco na determinação de lutar contra a pandemia, de vencer a pandemia. Tem esse lado heroico, belicoso da luta, tipo: “Te entrega, Corisco! — Eu não me entrego, não!”.

Eu já tinha composto com o Ruy Guerra uma canção que nós abandonamos. Foi em 1965 ou 66, por aí. Ele passou um período em minha casa (eu casado com Belina, e com Narinha se não me engano recém-nascida à época), em São Paulo; ele, Torquato, mais alguns amigos. E naquela ocasião a gente fez uma canção que acabou se perdendo.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sol de Maria

Gilberto Gil

 

Uma gotinha de orvalho pra lhe batizar
Uma estrelinha, a mais cadente do céu
Uma pedrinha de cascalho presa em seu colar
Pedra da rua aonde você nasceu

Se a vida resolveu que iria lhe chamar de Sol
Um raio vivo desse nosso astro rei
Que seja a luz do dia, sua guia, seu farol
Porque da noite, amor, da noite eu não sei

Que o mundo seja bom, que o mundo seja bom
pra nós
Seus pais, seus tios, seus primos, avós e bisavós
Que o mundo seja o que deseja sua geração
Todos que estão aqui e mais todos os que virão

Uma gotinha de orvalho pra lhe abençoar
Que toda água vem da fonte de Deus
Que o sol de Maria, que irradia seu chamar
Aqueça os sonhos seus

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravação

Gilberto Gil – OK OK OK, 2018 – Gege

 

Comentário*

[Canção para a primeira bisneta, Sol de Maria, filha do cantor e compositor Francisco Gil, neta da Preta Gil.] “Uma pedrinha de cascalho presa em seu colar/ Pedra da rua em que você nasceu”: eu ainda estou devendo essa pedra a ela até hoje. Eu tenho que pegar essa pedra de cascalho da rua onde ela nasceu, e mandar incrustar num cordãozinho de ouro pra dar a ela. Estou devendo porque é uma promessa que está na canção. Que é pra já dizer a ela que a vida é isso, aquilo, aquilo outro e, mais que tudo, mistério. É uma oração, uma pequena ode ao nascimento dela, ao surgimento dela no mundo, à nova presença dela. A mais nova entre todos da família, o novo rebento ali. Ela tinha acabado de nascer, era pequenininha ainda, quando compus. Canção pra recém-nascido é pra saudar a chegada, a vinda de alguém, agradecendo à vida por lhe propiciar essa sucessão, essa corrente da sucessão, a prole.

Você teve vários descendentes, vários se dedicando à música.

— Tive oito filhos e, agora, doze netos e uma bisneta. É um monte de gente. Com exceção da Bela, a Maria e a Marília, os outros todos têm a ver com a música. A Nara, a primeira, e depois a Preta, o Bem e o José, além dos netos João, Francisco e agora a Flor… [Pedro, o filho que faleceu jovem, também era músico.]

A cobrança da Flor. — Quem me cobra muito uma canção pra ela é a Flor [filha da Bela Gil, que aos treze anos (em 2021) já está cantando e tocando, inclusive acompanhando o avô em turnê]. Ela cobra porque ela vê que tem canção pra os primos e tios. “Cadê a minha?”, cobra. Outro dia eu experimentei uma canção pra ela, cheguei a fazer, a finalizar, mas achei muito complexa demais, e acho que não estou disposto a realmente adotar essa can- ção. Acho que eu vou deixar o que fiz e fazer propriamente uma canção mais robusta pra ela uma hora dessa.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sonho molhado

Gilberto Gil

 

Faz muito tempo que eu não tomo chuva
Faz muito tempo que eu não sei o que é me deixar molhar
Bem molhadinho, molhadinho de chuva
Faz muito tempo que eu não sei o que é pegar um toró

De tá na chuva quando a chuva cair
De não correr pra me abrigar, me cobrir
De ser assim uma limpeza total
De tá na rua e ser um banho
Na rua
Um banho

De ser igual quando a gente vai dormir
Que a gente sente alguém acariciar
Depois que passa o furacão de prazer
Ficar molhado e ser um sonho
Molhado
Um sonho

Eu vou dormir (enxutinho)
E acordo molhadinho de chuva

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

As Frenéticas – Soltas na vida, 1979 – Atlantic

Gilberto Gil – Luar, 1981 – Warner Music

A Cor do Som – Songbook Gilberto Gil, Vol. 2, 1992 – Lumiar Discos

 

Comentário*

Todo o sentido orgasmático que tem o estar na rua e deixar a chuva bater, deixar aquela chuva espiritual, que purifica, bater na alma. A associação disso com as ejaculações espontâ- neas. A expressão wet dream significa isso: sonho com orgasmo. Tem um termo técnico, científico, para sonhos molhados: “poluções noturnas”.

É interessante que a canção começa falando de chuva, chuva mesmo, e termina falando dessa chuva metafórica. — Sexual, erótica. E a canção é interessante musicalmente também, pelo arpejo.

Essa foi gravada primeiro pelas Frenéticas. Foi uma encomenda delas? — Elas estavam garimpando repertório, me pediram, e eu fiz — essa e uma outra — pra elas.

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

Sonho triste

Gilberto Gil

 

Sonhei, sonhei com você, amor
Sonhei um sonho cheio de dor
Sonhei que você iria me deixar
Sonhei, meu amor, não quero mais sonhar

Vivi uma noite tristonha então
Sofreu sonhando o meu coração
Mas de manhã, ao despertar
Senti você junto de mim
E então chorei, chorei de amor
E o novo dia me sorriu
A noite foi, você ficou
O sonho triste se findou

 
 
© Gege Edições Musicais

Soy loco por ti, América

Gilberto Gil
Capinan

 

Soy loco por ti, América
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea Marti
Que su nombre sea Marti
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores la espuma blanca de Latinoamérica
Y el cielo como bandera
Y el cielo como bandera

Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores

Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome, esse tango, esse rancho,
esse povo, dizei-me, arde
O fogo de conhecê-la
O fogo de conhecê-la

Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores

El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite se espalhe em Latinoamérica
El nombre del hombre es pueblo
El nombre del hombre es pueblo

Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores

Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras, canções de guerra,
quem sabe canções do mar
Ai, hasta te comover
Ai, hasta te comover

Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores

Estou aqui de passagem
Sei que adiante um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
Num precipício de luzes
Entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços
nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Nos braços de uma mulher

Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa, guerrilheira,
manequim, ai de mim
Nos braços de quem me queira
Nos braços de quem me queira

Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores

 
 
© Gege Edições Musicais / © Editora Musical Arlequim LTDA.

Gravações

Caetano Veloso – Caetano Veloso, 1967 – Philips

Gilberto Gil – Soy loco por ti America, 1987 – Warner Music

Gilberto Gil – Em Concerto, 1987 – Gege

Geraldo Azevedo – Songbook Gilberto Gil, Vol. 1, 1992 – Lumiar Discos

Ivete Sangalo – As Super Novas, 2005 – Universal Music

Superhomem, a canção

Gilberto Gil

 

Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada
Minha porção mulher, que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver

Quem dera
Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe
O Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher

 
 
© Gege Edições Musicais

Gravações

Gilberto Gil – Realce, 1979 – Warner Music

Caetano Veloso – Songbook Gilberto Gil, Vol. 3 – 1992

Caetano Veloso – Caetano Canta, 1997 – Universal Music

Arthur Moreira Lima – MPB Piano Collection, 1999 – Sony Music 

Gilberto Gil – Gil Luminoso, 2006 – Gege

Gilberto Gil – Bandadois (Ao vivo), 2009 – Gege

Gilberto Gil e Caetano Veloso – Dois Amigos, Um Século de Música (Ao vivo), 2015 -Gege e Uns Produções Artísticas Ltda.

Daniela Mercury – O Axé, a Voz e o Violão (Ao Vivo), 2016 – Gege

Gilberto Gil – Em casa com os Gil, 2022 – Gege

 

Comentário*

Eu estava de passagem pelo Rio, indo para os Estados Unidos fazer a excursão do lançamento do Nightingale — um disco gravado lá, com produção do Sérgio Mendes —, em março e abril de 79, e gravar o disco Realce, ao final da excursão. Na ocasião eu estava morando na Bahia e não tinha casa no Rio, por isso estava hospedado na casa do Caetano. Como eu tinha que viajar logo cedo, na véspera da viagem eu me recolhi num quarto por volta de uma hora da manhã.

De repente eu ouvi uma zoada: era Caetano chegando da rua, falando muito, entusiasmado. Tinha assistido ao filme Super-Homem. Falava na sala com as pessoas, entre elas a Dedé [Dedé Veloso, mulher de Caetano à época]; eu fiquei curioso e me juntei ao grupo. Caetano estava empolgado com aquele momento lindo do filme, em que a namorada do Super-Homem morre no acidente de trem e ele volta o movimento de rotação da Terra para poder voltar o tempo e salvar a namorada. Com aquela capacidade extraordinária do Caetano de narrar um filme com todos os detalhes, você vê melhor o filme ouvindo a narrativa dele do que vendo o filme… Então eu vi o filme. Conversa vai, conversa vem, fomos dormir.

Mas eu não dormi. Estava impregnado da imagem do Super-Homem fazendo a Terra voltar por causa da mulher. Com essa ideia fixa na cabeça, levantei, acendi a luz, peguei o violão, o caderno, e comecei. Uma hora depois a canção estava lá, completa. No dia seguinte a mostrei ao Caetano; ele ficou contente: “Que linda!”. E eu viajei para os Estados Unidos. Fiz a excursão toda e, só quando cheguei a Los Angeles, um mês e tanto depois, para gravar o disco, foi que eu vi o filme. Durante a gravação, uma amiga americana, Olenka Wallac, que morava em Los Angeles na ocasião, me levou para ver.

A canção foi feita portanto com base na narrativa do Caetano. Como era Super-Homem — O filme, ficou “Super-Homem — A canção”; não tinha certeza se ia manter esse título ao publicá-la, mas mantive.

Das relações entre o poema e a melodia no processo de composição. — Como “Retiros espirituais”, “Super-Homem — A canção” é uma das poucas que eu fiz assim: música e letra ao mesmo tempo. É uma canção a serviço de uma letra, atrás de um sopro da poesia, mas com os versos também se submetendo a uma necessidade de respiração da canção. Há momentos em que a extensão do verso determina o estender-se da frase musical. Em outros, para se dar determinadas pausas e realizar o conceito de simetria e elegância, a extensão da frase poética se ajusta à do fraseado melódico.

Assim, depois de “Um dia”, há o corte e, lá adiante, “Que nada”, depois “Quem dera” e depois “Quem sabe” já surgem condicionados pelo “Um dia” do início. A frase musical de “Um dia” condicionou a extensão, o corte e a escolha dessas interjeições — “Que nada”, “Quem dera” e “Quem sabe”. (Mesmo no primeiro caso — “Um dia” —, também se reivindica ali um sentido de interjeição; embora na construção da frase, do ponto de vista gramatical, possa não ser considerado assim, do ponto de vista do canto é.)

Questões de métrica e simetria, e de mnemônica. — A música tem uma cadência descansada, escorrida, e umas quebras interessantes. A melodia muda, a métrica é regular (as notas se alteram, mas os tempos são iguais). Você tem quatro estrofes com versos de duas, catorze, doze e seis sílabas cada — assimétricas na distribuição interna, mas simétricas nas configurações finais. [A estrofe de abertura é ligeiramente diferente: o terceiro verso também apresenta catorze sílabas poéticas.]

Depois de fazer a primeira estrofe, eu decidi que aquilo seria um módulo que eu iria manter. Isso facilitou para que eu a fizesse rápido; nascida aquela célula, ela se reproduziu em mais três iguais. Dobrei o caderno, deixei o violão e fui dormir. Quando acordei pela manhã, a primeira coisa que fiz foi tocar, cantar e ver que a canção estava fixada. Se eu estivesse com um gravador, eu a teria gravado antes de dormir, para me assegurar (eu faço isso sempre hoje em dia, porque tenho cada vez menos memória). Como eu não estava, é provável que eu tenha usado algum recurso mnemônico, como fixar o número de notas ou sílabas das primeiras frases, ou então as cifras.

Sobre a “porção mulher”. — Muita gente confundia essa música como apologia à homossexualidade, e ela é o contrário. O que ela tem, de certa forma, é sem dúvida uma insinuação de androginia, um tema que me interessava muito na ocasião — me interessava revelar esse imbricamento entre homem e mulher, o feminino como complementação do masculino e vice-versa, masculino e feminino como duas qualidades essenciais ao ser humano. Eu tinha feito “Pai e mãe” antes, já abordara a questão, mais explicitamente da posição de ver o filho como o resultado do pai e da mãe. Em “Super-Homem — A canção”, a ideia central é a de que pai é mãe, ou seja, todo homem é mulher (e toda mulher é homem).

 

Do livro GiLuminoso: A Po.Ética do ser, de Bené Fonteles e Gilberto Gil, editora UnB, 1999: E você nunca teve dificuldade de assumir o seu lado feminino, já que nunca foi um homem machão. — Nunca fui e posso até ter estado ali na fronteira e ter sido ameaçado por isso. Mas eu tive a felicidade, num momento crucial da minha vida, de conhecer Caetano. “Que sempre teve a coragem de assumir, com arte, o seu feminino. — Pronto. É isso! Por isso me tornei discípulo dele. Em tantas coisas e nas fundamentais, sempre obedecia a uma necessidade de me deslocar com ele, acompanhando seus movimentos e aprendendo mesmo. Eu aprendi muita coisa. Quando eu digo Caetano, digo ele pessoa e tudo que vem com o seu mundo cultural e vivencial, os companheiros, a família… O mundo que aprendi com ele foi de uma arte e de uma cultura mais doce, o mundo de ternura e leveza. Fui naquela fronteira lá do ‘homem-homem’, de que eu tinha me aproximado na adolescência. Mas, na verdade, eu nunca tinha caído nela. “No colégio, era um menino que recusava a ‘virilidade’ fácil. Por exemplo: toda vez que um menino me desafiava pra briga — aquela coisa comum que acontece constantemente no recreio das escolas, de meninos empurrando os outros, xingando a mãe e provocando, num exercício natural da manifestação da virilidade —, tudo isso em mim era difuso e confuso, e eu já não gostava. Toda vez que um menino me desafiava pra briga, eu dava as costas e recusava aquele exercício. Às vezes, me xingavam: ‘Mulherzinha! Mulherzinha!’, ‘Fugiu, maricas!’. E eu ouvia aquilo e era ela, minha anima, quem falava de dentro: ‘Tenha paciência e resignação. Essas coisas são características minhas. É isso mesmo que você está ouvindo: mulherzinha!’. […] “Essa mulher sempre falou muito mais alto dentro de mim. E por isso que digo na canção: ‘É a porção melhor que trago em mim agora/ É que me faz viver’. Eu aprendi, ela foi me ensinando que aquilo que eu queria, aquilo com que meu coração se identificava, era sempre o lado que estava associado a ela e estava afiado à paz, ao apaziguamento e à recusa do conflito. A capacidade de ‘contornar’ estava ligada à visão contornada, aos contornos da mulher: os seios, a bunda e a tudo aquilo. Essas imagens foram crescendo comigo e eu fiquei, por isso mesmo, muito sexualmente hétero. Porque a mulher preencheu logo muito cedo esse lugar. Ela ficou muito entronizada dentro de mim e isso tem muito a ver também com minha infância, porque foram as mulheres que tomaram conta de mim muito cedo, minha mãe, minha avó e minha tia. Essa tríade tomou conta da minha cabeça. Primeiro, minha mãe, no seio materno; depois, minha avó, que me ensinou o verbo. E, por último, minha tia, que tomou conta do menino adolescente e o orientou.” 

*Extraído do livro Todas as Letras – Gilberto Gil 

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